Nem toda gripe é igual e nem todo corpo reage da mesma forma. Entre idosos, uma tosse persistente ou um mal‑estar fora do comum pode ser mais do que um desconforto passageiro.
As doenças respiratórias evoluem de forma diferente após os 60 anos, o que coloca essa população na classificação de grupo de risco e exige atenção constante à prevenção e aos sintomas.
Conforme dados da Secretaria da Saúde do RS, até o fim da última semana, cerca de 25% das 2,3 milhões de pessoas nessa faixa etária haviam feito a vacina da gripe em 2026.
O pneumologista Christiano Perin, presidente da Sociedade de Pneumologia do Rio Grande do Sul (SPTRS), destaca que diferentes fatores tornam a população idosa mais vulnerável, especialmente com a proximidade do inverno, período marcado pela maior circulação de vírus respiratórios, como os da gripe (Influenza), da covid‑19 e do vírus sincicial respiratório (VSR).
Nessa época, tradicionalmente, observa‑se um aumento significativo no número de infecções e internações.
— As infecções respiratórias podem evoluir de forma mais rápida e com maior gravidade. No idoso, muitas vezes o quadro começa de maneira leve e, em poucos dias, já pode evoluir para uma pneumonia, situação bem menos comum na população mais jovem — explica.
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Por que evolui mais rápido em idosos?
Um dos principais motivos está relacionado à chamada imunossenescência, processo natural de enfraquecimento do sistema imunológico que ocorre com o envelhecimento. Em termos simples, à medida que a idade avança, o organismo perde parte da eficiência para se defender de vírus e outros microrganismos.
De acordo com a geriatra Maisa Kairalla, presidente da Comissão de Imunização da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), esse processo resulta em uma diminuição da capacidade de resposta do corpo.
A vulnerabilidade aumenta ainda mais na presença de doenças pré‑existentes, como diabetes, hipertensão e insuficiência cardíaca. Muito comuns entre idosos, essas condições já exigem um esforço contínuo do organismo para se manter controladas.
Como a capacidade de adaptação do corpo é reduzida, esse equilíbrio se rompe com maior facilidade, o que pode agravar tanto a infecção quanto a comorbidade.

Em alguns casos, a internação ocorre não apenas pela infecção em si, mas por complicações associadas, como desidratação.
— Além disso, muitos pacientes utilizam medicamentos como corticoides e imunossupressores, que comprometem ainda mais a imunidade e elevam o risco de infecção, a incidência de quadros virais e bacterianos e a ocorrência de formas mais graves da doença — acrescenta Maisa.
O médico Christiano Perin reforça atenção redobrada aos casos em que o idoso possui doenças pulmonares pré‑existentes, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Nesses pacientes, uma infecção respiratória costuma piorar o quadro clínico, com aumento da falta de ar e crises mais frequentes. Não raramente, resultam na necessidade de atendimento em serviços de emergência ou de internação hospitalar.
Como se proteger

Há alguns anos, o aposentado Veronildo Barison, de 87 anos, enfrentou um resfriado que classificou como "muito forte" e chegou a temer que o quadro evoluísse para uma pneumonia. A vacinação pode ter sido um dos fatores que ajudaram a conter o agravamento da doença.
Na última quinta‑feira (16), ele voltou ao Centro de Saúde Modelo, em Porto Alegre, para receber a dose anual do imunizante contra a gripe disponível no SUS, que protege contra a Influenza A (H1N1 e H3N2) e Influenza B.
— A gente vê tanta notícia sobre vacina, né? Todo mundo pedindo para vacinar, eu falei pra minha senhora: "vou dar uma caminhada e vou passar lá no posto". Todos os anos eu faço, eu e a minha senhora, e meus filhos exigem também que deve ser feita — aponta.
Diante do maior risco de agravamento da doença e da elevação das chances de internação, a vacinação é a principal estratégia de proteção da população idosa.
E a imunização não se resume apenas à vacina contra a gripe: há outras doses que ajudam a prevenir infecções causadas por diferentes vírus respiratórios e reduzem a ocorrência de quadros graves.
- Gripe (Influenza): disponível no SUS para os grupos prioritários, em farmácias e na rede privada para o público geral
- Covid-19: disponível no SUS para os grupos prioritários
- Vírus sincicial respiratório (VSR): idosos podem buscar a vacina em clínicas privadas de vacinação. Disponibilidade no SUS está restrita a gestantes
- Pneumonia: idosos devem buscar a vacina em clínicas privadas de vacinação
- Coqueluche: pode ser aplicada em idosos, mesmo que nunca tenham sido vacinados antes. Aplicada na rede privada
A vacinação é muito mais do que uma medida de saúde, é um ato de responsabilidade. Vacinar‑se é cuidar da própria saúde e também proteger quem está ao seu lado
MAISA KAIRALLA
Presidente da Comissão de Imunização da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

Os especialistas citam outras medidas que ajudam a reduzir o risco de infecção por vírus respiratórios:
- Manter boa higiene das mãos, lavando-as com água e sabão ou usando álcool em gel
- Evitar contato próximo com pessoas com sintomas gripais
- Manter ambientes bem ventilados
- Usar máscara em caso de sintomas ou em locais fechados e com aglomeração
- Adotar etiqueta respiratória (cobrir o nariz ao tossir e espirrar, por exemplo)
- Manter hábitos saudáveis
Estou doente, e agora?
Ao perceber sinais de doença respiratória, como tosse, coriza, dor no corpo, cansaço ou febre, o primeiro passo é priorizar o repouso e reduzir o contato com outras pessoas.
Recomenda-se também manter uma boa hidratação e uma alimentação leve para ajudar o corpo a reagir à infecção.
Medicamentos para o alívio dos sintomas podem ser utilizados com orientação médica. A automedicação não é recomendada, pois um eventual uso inadequado pode proporcionar uma atenuação temporária e retardar a identificação de um quadro mais grave.

Durante esse período, é preciso monitorar a evolução do quadro. Na maioria dos casos, infecções virais começam a melhorar em poucos dias. No entanto, há outras que exigem atenção e procura rápida por atendimento de saúde.
Quando procurar atendimento médico
Dificuldade para respirar, falta de ar, dor no peito, confusão mental ou sonolência excessiva podem indicar complicações e precisam de avaliação médica.
O médico Christiano Perin lembra que, muitas vezes, o idoso nem sempre apresenta febre:
— No caso dos idosos, é importante destacar que a febre pode não estar presente. Por causa da imunossenescência, o organismo costuma ter uma resposta inflamatória menor, o que faz com que, muitas vezes, ele possa não apresentar febre, mas já estar com uma pneumonia. Por isso, é essencial observar outros sinais de alerta.

Contudo, quando há febre persistente por mais de 48 horas, é motivo para procurar atendimento. Outro indício que merece cuidado, segundo o especialista, é uma piora clínica após uma melhora inicial:
— A pessoa começa a se recuperar nos primeiros dias, mas, por volta do quinto dia, passa a piorar, com retorno da febre, agravamento da tosse ou surgimento de falta de ar. Esse quadro é típico de uma possível infecção bacteriana secundária e exige atenção médica imediata.
É comum que nos primeiros dois dias a pessoa se sinta pior e, depois, passe a se recuperar. Em geral, os quadros respiratórios duram entre sete e 10 dias, mas a evolução precisa ser de melhora progressiva. Se após os sete dias não houver alívio, é fundamental buscar um especialista.









