Em 2020, Nicolina Franco Silva, hoje com 95 anos, virou fã do cantor Xande de Pilares. Ela é do tipo que reconhece a voz do artista de longe e que incorporou a música à rotina: todos os dias, senta‑se na poltrona da sala de casa, pede para uma das filhas colocar clipes na televisão e canta junto, mesmo que a voz não alcance todas as notas.
Foi já na terceira idade que nasceu esse sentimento, construído música a música, até se transformar em algo que ela mesma define, sem hesitar, como carinho e admiração. Mãe de nove filhos, Nicolina dimensiona a intensidade desse afeto pelo artista:
Ele é meu 10º filho. É meu filho do meu coração, ele mora aqui. É demais, é demais o tanto que eu gosto dele. Mas gosto mesmo, tá?
NICOLINA FRANCO SILVA
95 anos
Histórias como a de Nicolina ajudam a desmontar a ideia de que ser fã é coisa de adolescente. Depois dos 60 anos de idade, o entusiasmo continua, às vezes aparece de forma espontânea e até mais intensa, diante da relação que se constrói.
De acordo com a professora do departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Adriana Amaral, com mais tempo livre após a aposentadoria e menos pressões ligadas a trabalho ou criação dos filhos, há mais espaço para se dedicar com calma ao que se gosta.
60Mais
A relação também tende a ser atravessada por lembranças, comparações com outras fases da vida e um olhar mais reflexivo.
— Uma das questões que determinam alguém ser fã é ter tempo para investir naquele afeto, naquela relação. Então, isso geralmente era muito associado ao pessoal bem jovem, que é quem tem mais tempo. Mas existe uma parte da sociedade que, com o avanço da medicina e uma série de fatores, tem mais tempo para si. Além disso, muitas vezes essas pessoas retomam interesses antigos ou até compartilham isso com filhos e netos — aponta a pesquisadora.
A questão transgeracional aparece, nesse caso, como um movimento de mão dupla para Nicolina. Ela sempre gostou de samba e transmitiu esse repertório dentro de casa, ampliando o interesse da família.
Foram as filhas que lhe apresentaram as músicas de Xande de Pilares e, hoje, são elas que a levam aos shows em Porto Alegre e compartilham com a mãe informações, vídeos e novidades encontradas na internet.
Os dias em que Nicolina virou parte do show
A aproximação entre Nicolina e Xande de Pilares ganhou um capítulo especial em 2022, quando, durante um show no Auditório Araújo Vianna, o cantor a convidou para subir ao palco para cantar Como é grande o meu amor por você, de Roberto Carlos.
A servidora pública Neide Costa, uma das filhas de Nicolina, havia preparado um cartaz com os escritos "Nicolina, 92 anos" — idade da mãe na época — para chamar a atenção do artista.
— Nem acreditei, parecia que estava vivendo um sonho — lembra a aposentada.
A experiência se repetiu no ano seguinte. Em 2023, em uma nova apresentação, o cantor voltou a chamá‑la. No encontro, Xande teria dito que Nicolina o faz lembrar de uma de suas avós.

Conforme Neide, para a mãe, há um tipo de reconhecimento semelhante. As filhas veem na forma como a matriarca se conecta com o cantor ecos da relação com um neto de Nicolina que já faleceu.
— A ausência dele passou a ser, de certa forma, preenchida pela presença constante de ver o cantor. É uma maneira que a minha mãe tem de ficar bem feliz. Às vezes, quando ela não escuta, já comenta: "ah, hoje eu não ouvi meu filho cantar" — relata Neide.
No dia 15 de maio, Xande de Pilares fará show gratuito no Parque da Redenção, em Porto Alegre, dentro da programação da Semana S, promovida pelo Sistema Fecomércio-RS/Sesc/Senac e IFEP. A família ainda não decidiu se a fã ilustre estará presente.
O espírito de Woodstock aos 60 anos
Desde os 14 anos de idade, o porto-alegrense Rogerio Gelbcke Cazzetta é fã de um evento musical e cultural que marcou a história: o festival Woodstock de 1969. Ele não esteve no local, mas fala como se tivesse sentido a lama sob os pés e ouvido cada acorde ao vivo.
Na lista de artistas que representam esse legado estão nomes como Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Who, Johnny Winter, Joan Baez, entre tantos outros.
— Eu sou um fã incondicional, tanto do movimento que aconteceu, desse movimento de contracultura, do movimento hippie, quanto do festival de Woodstock. Tenho DVD, disco, CDs, álbuns dos artistas que participaram. Fui assistir pela primeira vez no cinema e, dali em diante, o que realmente me chamou a atenção foi a música.
A música em si bateu forte, porque é esse som que eu escuto até hoje
ROGERIO GELBCKE CAZZETTA
60 anos
Atualmente, aos 60 anos, sua admiração se manifesta em objetos como discos, pôsteres, livros e outros itens colecionáveis. Para ele, o evento se tornou símbolo de uma época, de valores e de uma forma de viver a música que carrega até hoje.
— O que eu trago disso para hoje é o movimento em si, principalmente a questão da liberdade. De conseguir entender que, naquela época, era necessário aquele rompimento cultural, porque tudo vinha muito careta, digamos assim. E acho que isso influencia até hoje a minha vida — explica.
A pesquisadora Adriana Amaral destaca que o ato de ser fã pode influenciar diretamente a busca por aprendizados, a construção de conhecimento e até escolhas profissionais. No caso de Rogério, mesmo formado em Educação Física, foi a paixão pela música cultivada ao longo dos anos que acabou definindo seus rumos.
Dessa trajetória nasceu a loja Toca do Disco, dedicada à venda de CDs e discos de vinil, com foco especial em rock, blues, jazz e música brasileira.
A conexão com o Woodstock atravessa até os detalhes dessa construção. Foi em 17 de agosto de 1989 que ele abriu o empreendimento — exatamente no período em que, 20 anos antes, o festival acontecia, entre os dias 15 e 18. O pássaro que se tornou símbolo do evento também foi incorporado como marca do espaço.
Uma viagem às origens de tudo
Em 2019, Cazzetta ganhou de presente dos filhos uma viagem aos Estados Unidos para acompanhar a celebração dos 50 anos do Woodstock.
Ele viajou junto à esposa, Adriana, até a cidade de Bethel, onde ocorreu o evento de 1969. Foi a chance de finalmente pisar no cenário que, por tanto tempo, habitou o seu imaginário.
— Foi uma experiência fantástica. Chegar ao lugar, exatamente por aquelas estradas, já dizia muito. Quando eu fui, o mais interessante foi encontrar várias pessoas que estiveram no festival original, 50 anos depois. E isso faz sentido: quem tinha 18, 20, 22 anos em 1969, em 2019 já estava com 70, 75 anos — declara.

Os impactos de ser fã
A pesquisadora Adriana Amaral aponta que ser fã é uma experiência ao mesmo tempo individual e coletiva, marcada pela construção de um vínculo emocional.
É quando uma música, um artista, um filme ou até um evento deixa de ser apenas diversão e passa a ocupar um espaço afetivo na rotina, sendo muitas vezes incorporado como parte da própria identidade.
A memória afetiva é um dos elementos que ajudam a explicar a força desse tipo de conexão. Ela está ligada às emoções que determinadas obras despertam e aos momentos da vida com os quais passam a dialogar.
— As pessoas costumam dizer que algo "as toca" porque traz uma memória, lembra algo sobre si mesmas ou porque ajudou em determinado momento da vida. Esse tipo de relato aparece muito: a forma como uma obra faz com que a pessoa não se sinta sozinha, ou como a acompanha durante um processo de luto e ajuda a elaborar emocionalmente essa experiência — exemplifica.
Conforme a psicóloga Socorro Pimentel, membro do Conselho Federal de Psicologia e do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, mais do que entretenimento, esse tipo de vínculo pode trazer ganhos reais para a saúde mental.
Cultivar admiração por artistas ou obras ajuda a fortalecer o senso de pertencimento, reduz sentimentos de solidão e cria pequenas rotinas de prazer no dia a dia. Além disso, amplia a vivência de experiências e o compartilhamento de interesses.
(A velhice) Representa o resultado de um ciclo vital prolongado, marcado por experiências acumuladas, desafios, transformações e novos significados
SOCORRO PIMENTEL
Psicóloga
Entre pessoas mais velhas, isso pode ser ainda mais significativo, uma vez que o engajamento estimula a socialização e funciona como uma fonte constante de bem-estar. Essas interações também acionam recursos como resiliência, otimismo e sentido de vida, como justifica a psicóloga:
— A admiração por um artista contribui para a construção da identidade da pessoa, especialmente na velhice. Isso ajuda a romper com a ideia de que envelhecer é apenas um período de perdas, como muitas vezes se imagina. A velhice não é só perda.
*Sob orientação do jornalista Beto Azambuja















