Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) revelou os benefícios que a estimulação cognitiva – também conhecida como "ginástica cerebral" – pode trazer a pessoas com mais de 60 anos.
A pesquisa analisou os efeitos desses estímulos em 207 idosos saudáveis, divididos em três grupos durante dois anos. O artigo científico com os resultados foi publicado na revista International Psychogeriatrics e pode ser consultado aqui.
Em um dos grupos, os idosos participavam das atividades do Método Supera. Esta proposta promove o desenvolvimento de habilidades cognitivas e socioemocionais (saiba mais no vídeo acima e clicando aqui).
60Mais
Os grupos que participaram da pesquisa
- "Treino" (participantes das aulas Supera em São Paulo)
Fez o Método Supera por 18 meses, com aulas de duas horas por semana durante 72 semanas. Os idosos tinham materiais de reforço para fazer em casa e uma plataforma de jogos digitais que eles precisavam treinar durante 30 minutos por semana
- "Controle ativo" (participantes de aulas sobre envelhecimento saudável)
Teve acompanhamento por 18 meses. Os idosos precisavam comparecer em aulas sobre envelhecimento e saúde, mas sem estimulação cognitiva. As aulas eram educativas e aconteciam durante duas horas por semana com gerontólogos
- "Controle passivo" (participantes sem nenhum tipo de intervenção)
Idosos que não faziam nenhuma intervenção e só compareciam nos momentos das testagens dos demais grupos. Apenas realizavam as avaliações neuropsicológicas de forma periódica no estudo
Como desafiar o cérebro
A pesquisa foi liderada pela professora Thais Bento Lima Silva, do curso de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP.
— Vimos que a prática regular de atividades intelectualmente desafiadoras vai contribuir para fortalecer o que chamamos de reserva cognitiva, que é um mecanismo associado ao fortalecimento do cérebro no envelhecimento — afirma a pesquisadora.
Quanto mais desafios, aprendizagem e integração de ideias o cérebro de uma pessoa idosa tiver, mais protegido estará do declínio cognitivo que acontece no envelhecimento
THAIS BENTO LIMA SILVA
Professora da USP e líder do estudo
Conforme estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência no mundo.
No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais convive com a doença, representando um número aproximado de 1,8 milhão de casos. Até 2050, a projeção é de que 5,7 milhões de pessoas ainda sejam diagnosticadas no país.
— Primeiramente, encontramos resultados positivos com os participantes que fizeram parte desse grupo com o Método Supera. Houve ganhos com redução de 60% nas queixas relacionadas à memória. Esse fator pode contribuir para diminuir o risco de evolução para quadros mais graves (comprometimento cognitivo leve e demência) — expõe a gerontóloga.
A terapeuta ocupacional Camila Rodrigues Veloso, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), agrega os benefícios que as pesquisas e as intervenções cognitivas no público 60+ trazem:
— Quando fala-se de estimulação cognitiva, a gente tem algumas formas de abordá-las. Seja de treino cognitivo ou a estimulação de grupos, que envolve jogos ou a prática de socialização e a reabilitação. É muito importante que tenhamos pesquisas sendo promovidas nesse sentido.
De acordo com Camila, o sistema de saúde não está preparado de uma forma eficaz para receber o público idoso. Dessa maneira, o processo de envelhecimento acelerado torna-se um desafio.
— Os hábitos saudáveis, a própria estimulação cognitiva, práticas de atividades físicas, alimentação e controle de riscos cardiovasculares precisam estar no radar não só dos serviços de saúde, mas da própria população para que a gente possa promover o envelhecimento saudável de forma mais eficaz — detalha.
Como funciona o Método Supera
O Supera Moinhos – franquia do Método Supera de Ginástica para o Cérebro – existe há sete anos no bairro Floresta, em Porto Alegre. Há outras três unidades na cidade.
O programa de estimulação cognitiva envolve uma aula de duas horas por semana. As turmas são compostas por até 12 pessoas. Mas há tarefas para desenvolver em casa.
Tudo funciona de maneira lúdica. E a principal ferramenta dos encontros presenciais é o ábaco – espécie de calculadora milenar.
— A gente não usa o ábaco para trabalhar o conhecimento matemático. Mas porque ele é uma ferramenta superimportante para trabalhar a memória e a atenção — explica a diretora da escola Supera Moinhos, Luciana Kraemer.
A metodologia conta com outras ferramentas, dinâmicas, jogos e momentos chamados de neuróbica – termo que significa fazer coisas rotineiras de uma maneira completamente diferente. E oferece ainda uma plataforma online para atividades em casa.
— Todas essas dinâmicas e exercícios têm um objetivo: apresentar a cada semana coisas novas, variadas e cada vez mais difíceis — diz Luciana.
A maior parte das pessoas que procuram as atividades no local tem entre 70 e 80 anos. A diretora percebe mudanças nos participantes da metodologia, que ficam mais confiantes. Segundo avalia, há uma transformação depois da experiência.
— Isso aqui não é farmacológico. Isso que é o mais legal. Não tem contraindicação — resume.
Capacidade de leitura e raciocínio lógico

Há quase três anos, a aposentada Maria da Graça Dose Pires, de 76 anos, participa da metodologia. Natural de Cruz Alta, na Região Noroeste, ela foi orientada por sua psicóloga para inscrever-se nas aulas.
O motivo foi que dona Maria da Graça vivia em Capão da Canoa, no Litoral Norte, onde sofreu uma queda. Na ocasião, teve uma lesão interna no cotovelo e precisou mudar-se para Porto Alegre.
— Eu sempre li muito, porque fiz Filosofia e Psicologia. Na pandemia, perdi a vontade de ler. Vim (ao Método Supera) para voltar a ler — conta.
Segundo a idosa, que, no passado, atuou como bancária, além da retomada da capacidade de leitura, ela percebe avanços relacionados ao raciocínio lógico.
O convívio com o diabetes e a pressão alta não a impedem de manter uma agenda cheia de atividades. Ela pratica ainda pilates, faz musculação terapêutica e tem sessões de hidroterapia. Sobre a metodologia, reflete:
— Temos interação com as colegas, aprendemos coisas novas, assistimos palestras e sempre há festas, como de São João e Halloween. Toda essa integração é fundamental para a terceira idade.
Habilidades desenvolvidas pela estimulação cognitiva
- Atenção
- Memória
- Concentração
- Raciocínio
- Fluência verbal
- Planejamento
- Autoconfiança
- Independência
- Socialização
- Flexibilidade cognitiva (disposição de aprender algo novo)













