Quedas estão entre os acidentes mais comuns na população com 60 anos ou mais e podem resultar em lesões graves, perda de autonomia e longos períodos de recuperação. Embora esses episódios tenham causas diversas — como alterações no equilíbrio, na visão ou na força muscular —, um fator muitas vezes subestimado merece atenção: o calçado.
A última edição do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), do Ministério da Saúde, revelou que, em 2023, um a cada quatro idosos teve algum episódio de queda no país.
Além de influenciar diretamente no caminhar, a escolha do sapato adequado desempenha um papel importante na prevenção do surgimento e da progressão de problemas ortopédicos e desconfortos crônicos que tendem a se agravar ao longo do tempo.
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De acordo com o médico José Antônio Sanhudo, coordenador do Grupo de Pé e Tornozelo do serviço de Ortopedia do Hospital Moinhos de Vento, os pés passam por mudanças significativas com o avanço da idade e ficam mais suscetíveis a dores, calosidades e deformidades.
Nesse período da vida, é comum o aparecimento de condições como artrose, joanetes, fascite plantar, deformidades nos dedos e complicações associadas ao diabetes, fatores que tornam a escolha do item ainda mais decisiva.
— À medida que envelhecemos, os ligamentos vão ficando mais flexíveis. Com isso, o pé tende a aumentar um pouco de tamanho e apresentar deformidades, como joanetes e dedos em garra. Esse processo compromete a estabilidade, o que contribui para o agravamento dessas alterações — explica o especialista.
Quais características têm um sapato ideal
Tamanho condizente com o pé

O ortopedista e traumatologista José Antônio Sanhudo ressalta que o calçado deve ser escolhido sempre de acordo com o tamanho correto do pé. Optar por modelos maiores ou menores do que a própria numeração não é recomendado.
- Sapatos apertados tendem a provocar compressões, ampliar o desconforto e favorecer o surgimento de feridas ou agravamento de deformidades
- Já os grandes demais podem comprometer a estabilidade, prejudicar a pisada e aumentar a sensação de insegurança ao caminhar
Carlo Henning, médico do serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), acrescenta que o conforto do sapato deve ser percebido logo ao calçá-lo:
— A pessoa precisa se sentir bem com o sapato desde o primeiro momento. Não é aquela ideia de experimentar na loja, achar que está um pouco apertado e pensar que depois ele vai "dar de si". Não. Desde o início, o calçado já precisa ser confortável.

Solado antiderrapante e firme
Outra recomendação é optar por modelos com solado antiderrapante e firme, que ampliam a aderência ao chão e ajudam a reduzir o risco de escorregões e quedas.
— Calçados com um solado mais firme, não tão flexível e tão fino, também geram mais conforto, segurança e estabilidade do pé — explica Henning.
Parte frontal alargada
Uma das condições naturais do envelhecimento é o aumento do pé, especialmente em relação à largura. Nesse sentido, recomenda-se evitar sapatos de bico fino e dar preferência àqueles com bico arredondado ou frente mais ampla, que respeitem a anatomia e permitam uma maior acomodação dos dedos.
Presilha na frente e no calcanhar
Os especialistas também citam que modelos com presilhas ou ajustes na parte frontal ajudam a manter o pé bem posicionado dentro do calçado. Isso evita que ele "escorregue" para frente, como acontece com chinelos.
Também é interessante considerar uma fixação traseira no calcanhar (como tira ou elástico firme), que impeça que o pé saia do lugar ao caminhar.
— De modo geral, calçados que ficam firmes no pé são melhores do que os mais soltos. Exatamente porque isso é uma preocupação a menos, principalmente para pacientes de maior idade, que acabam tendo que "segurar" o calçado com o pé ou correm o risco de ele soltar no meio do caminho, o que pode levar a algum acidente — afirma Henning.
- Calçados sem fixação, como os totalmente abertos atrás, muito frouxos ou tipo chinelo, exigem esforço extra para manter o pé no lugar e elevam o risco de acidentes, principalmente em pisos irregulares

Um pouco de salto
José Antônio Sanhudo considera que um pequeno salto (entre um a dois centímetros) pode ser benéfico. Modelos com leve elevação ajudam a manter o alinhamento natural do pé, distribuem melhor o peso do corpo e contribuem para um andar mais confortável e estável.
- Saltos altos e finos podem ter o efeito oposto e aumentar o risco de quedas
- Calçados totalmente retos, sem nenhum desnível, podem gerar sobrecarga nas articulações
Quando o sapato deve ser trocado?
Os especialistas destacam outro aspecto fundamental: observar se as peças mantêm suas características com o passar do tempo.
O uso contínuo faz os sapatos perderem a capacidade de absorção de impacto, além de apresentar desgaste no solado e menor estabilidade.
Esses fatores podem comprometer a usabilidade. Mas não há uma estimativa fixa para o momento ideal de trocar o par.
Cuidado com os pés deve começar desde cedo
A atenção ao conforto, no entanto, deve começar muito antes da chegada à terceira idade.
Investir em peças que respeitem a anatomia dos pés, ofereçam boa estabilidade e promovam uma distribuição mais equilibrada do peso e do impacto é um cuidado que deve acompanhar todas as fases da vida.
Além dos critérios já mencionados, Fernando Eduardo Müller, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Usaflex, marca especializada em calçados confortáveis para diferentes faixas etárias, destaca que algumas características visíveis podem indicar se um sapato prioriza o conforto, independentemente da idade de quem o utiliza:
- Solas mais espessas geralmente oferecem melhor amortecimento, proteção contra impactos e maior durabilidade, sendo ideais para conforto em superfícies duras
- Modelos com tecidos flexíveis se adaptam melhor ao formato do pé e às movimentações
- Palmilhas macias também garantem um melhor uso
- Quanto menos emendas ou costuras internas o calçado tem, mais confortável e menos suscetível a machucados ele fica
* Sob orientação e supervisão de Beto Azambuja















