Por muito tempo, para as mulheres, o envelhecimento foi sinônimo de inseguranças, principalmente pela pressão em relação às questões estéticas e julgamentos. Após os 60 anos, muitas sofrem com baixa autoestima e acabam se frustrando. Mas o cenário vem mudando e, cada vez mais, elas buscam ressignificar essa etapa e aproveitar a vida.
Para especialistas, apesar das transformações em relação ao corpo e estilo de vida, os 60 anos também representam uma fase de liberdade e redescobertas. Inevitavelmente, em um país marcado pela desigualdade, nem todas podem desfrutar desse período com tranquilidade – muitas ainda precisam sustentar a família e trabalhar em ritmo exaustivo.
Mesmo havendo realidades distintas, encarar as mudanças de forma positiva faz diferença para a saúde mental, conforme a psicóloga Fran Winandy, especialista em longevidade produtiva e governança do capital geracional:
— O que mais muda depois dos 60 não é apenas a rotina, é a relação com o tempo e com a própria energia. Muitas mulheres passam a questionar agendas construídas por obrigação e começam a reorganizar prioridades com mais critério. Algumas reduzem a carga de trabalho, outras iniciam projetos autorais, muitas redefinem vínculos e selecionam melhor onde investem presença e afeto — destaca.
Segundo a especialista, há, sim, mudanças físicas e hormonais que exigem mais atenção ao corpo. Mas, quando essas transformações são compreendidas como adaptação, e não como perda, o efeito tende a ser positivo: cresce a consciência corporal, a seletividade aumenta e a vida social se torna mais intencional.
Também é importante evitar absorver críticas impostas pela sociedade. Quando a mulher internaliza esse discurso de que “passou do ponto”, que está velha para fazer determinadas coisas, pode começar a se retirar, gerando isolamento.
— O envelhecimento traz, sim, desconfortos físicos e simbólicos. O corpo muda. A sociedade tende a nos deslocar do centro da narrativa. Existe uma invisibilidade social que precisa ser nomeada, especialmente em uma cultura que associa valor à juventude. Mas o estilo de vida muda menos por causa da idade cronológica e mais pela história que cada uma decide contar a si mesma sobre essa etapa da vida — complementa Fran.

Se a mulher deixa de se importar com a opinião alheia e se permite desfrutar, é possível explorar a potência dessa etapa da vida. Para muitas, os 60 anos representam o primeiro momento de autonomia emocional plena.
— Chegamos aqui tendo atravessado múltiplos papéis: filha, profissional, mãe, cuidadora, líder. E começamos a perceber que a identidade não pode mais ser sustentada apenas por funções. Essa consciência exige revisão de crenças sobre beleza, produtividade, desejo, pertencimento e relevância — destaca Fran.
As mulheres aprendem a diferenciar reconhecimento de validação, passam a tomar decisões menos pautadas pelo olhar externo e mais alinhadas com coerência interna, melhorando o bem-estar. Isso contribui com a qualidade das relações, aprofunda vínculos, reduz competição e amplia a liberdade.
De acordo com a psicóloga Marina Keiko Nakayama, que pesquisa sobre psicologia do envelhecimento e conduz o projeto Nova Velhice, outro problema é que, muitas vezes, as mulheres idosas são associadas a um papel de fragilidade, o que também afeta a autoestima e a qualidade de vida.
— A mulher precisa entender que a vida dela está nas próprias mãos. Ela precisa se sentir merecedora de uma vida digna. Essa ideia de fragilidade feminina foi incutida na sociedade, mas isso não existe. E na velhice, especialmente, a pessoa precisa se manter forte e não se deixar levar — explica a psicóloga.
Para Marina, é preciso deixar de lado essa visão e cuidar de si. Na terceira idade, com os filhos na fase adulta, a mulher tem mais tempo para si, para as amigas, para escolhas conscientes. E muitas vezes há a oportunidade de viver com os netos uma presença mais inteira do que foi possível no ritmo acelerado da maternidade.
— Nessa fase, você é a prioridade. Seus filhos já são adultos, você não precisa cuidar dos netos. Você pode cuidar, mas tem que cuidar primeiro de si mesma, porque a sua saúde é prioridade. A velhice é o último ciclo da vida, é como se fosse o fim da festa. As mulheres precisam ter consciência disso — argumenta Marina.
60Mais
Bem resolvidas e felizes aos 60 anos
Para mulheres ouvidas pela reportagem, completar 60 anos foi um marco positivo na vida – elas foram atrás de sonhos e retomaram projetos antigos, ou encontraram mais tempo para descanso e hobbies. É o caso da secretária Saionara Krug, 61 anos, que mora na zona Sul de Porto Alegre e vai viajar sozinha pela primeira vez.
Entre abril e maio, ela fará um mochilão pela Itália. A viagem sempre foi um sonho e, antes, ela não tinha tempo nem condições financeiras para concretizá-lo. Será sua primeira vez na Europa. Por influência de uma das filhas, ela também pensa em fazer um curso superior, desejo que ainda não conseguiu realizar, por conta de outras prioridades da vida, como o trabalho e a criação dos três filhos.
— A gente acha que passou do ponto de fazer as coisas, de realizar sonhos, de estudar, de ter uma vida profissional de novo, de se inserir no mercado de trabalho. Quando, na verdade, tu estás preparadíssima para isso. Eu vou fazer uma viagem agora sozinha. Voltei ao mercado de trabalho depois dos 55 anos. As mulheres podem isso, elas não devem sentir que a vida acabou aos 60.
Ela ainda planeja lançar a própria marca de roupas e ter uma confecção própria. O projeto está iniciando, com produção limitada. Pela manhã, Saionara se dedica ao ateliê, e à tarde trabalha em uma clínica como secretária para complementar a renda. Também pretende se aposentar, assim que possível.
— O trabalho à tarde é um suporte financeiro para investir na minha marca. É um sonho que eu sempre tive, porque eu sempre gostei de costurar, desde muito novinha tive contato com máquina de costura, fazia roupinha de boneca, fazia coisas para mim quando criança — conta.
A dona de casa Laura dos Santos Sodré, 68 anos, também não conseguiu se aposentar e fazer um curso superior: com cinco filhos para criar, precisou trabalhar em um ritmo intenso para garantir sustento à família – com atuação informal por muito tempo.
Ela chegou a atuar como balconista, cozinheira e diarista, e abriu uma lanchonete com o marido em Viamão, onde moram com a filha. Hoje, por conta de limitações de saúde após ter tido trombose e embolia pulmonar, não consegue trabalhar, mas conta que a fé e o autocuidado têm sido fundamentais para a saúde mental.
— Eu aceitei bem a idade, sou mais feliz hoje do que quando era mais jovem. A única coisa ruim é a enfermidade, tenho que tomar cuidado. Mas antes eu não tinha tanto tempo para mim, tinha que dar conta de muita coisa, a casa, os filhos pequenos. Agora tenho tempo para ouvir a palavra de Deus, fazer minhas orações, fazer ginástica, me deitar, ouvir música, que eu gosto muito.
Ela diz que prefere não sair muito de casa, só para fazer fisioterapia e caminhadas ao ar livre, e que adora passar tempo com a família e os filhos:
— Procuro sempre ser otimista e tenho muita fé. É muito bom estar viva, amo a vida e as pessoas, e a minha família. Tenho quatro meninos e uma menina.
Concretizando planos e sonhos
A atriz Célia Trevisan, de Porto Alegre, completou 60 anos em agosto. Aos 58, a professora aposentada resolveu mudar de carreira e se dedicar às artes cênicas. Atualmente, está no 3º ano do curso de Teatro com habilitação em Direção na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

— A gente envelhece mas continua se apaixonando, se decepcionando, tendo alegrias, tristezas, fazendo planos de futuro, voltando a estudar, refazendo carreiras. Então, esse ser que esse número representa ainda é um ser pleno, tanto quanto uma década antes — relata.
Ela conta que a experiência da graduação tem sido muito rica, especialmente pela convivência com colegas de diferentes idades, mas não é assim em todos os lugares que convive. Para ela, a pressão a respeito da idade é algo muito mais externo, imposto pelos julgamentos da sociedade.
— É muito mais sobre o olhar do outro sobre ti. A idade é apenas um número, mas tem um peso social. Como aqueles elogios, entre muitas aspas. Tipo “ah, mas tu estás muito bem para a tua idade”. Ouvi muito isso. Ou então “ah, os 60 são os novos 40”. Não, para mim, são os novos 60, mesmo — conta.
A assistente social aposentada Rossânia Bittencourt Ferreira, 63 anos, também da Capital, afirma que a chegada da terceira idade foi um divisor de águas. Quando completou 60 anos, decidiu realizar vários sonhos de uma vez só. Primeiro, ela comemorou o aniversário no Carnaval em Laguna (SC) e subiu em um trio elétrico pela primeira vez.
— Isso me fez perceber o quanto eu amo o Carnaval e que vou continuar comemorando. Eu digo que vou estar de muletas, com 80 anos, mas vou continuar indo para o Carnaval. Celebrei com amigos e pessoas especiais, foi uma festa — relata.
Desde então, foram diversas “primeiras vezes”. No mesmo ano, ela fez um mochilão de carro com amigas no Uruguai e na Argentina. Foi uma experiência inédita, como ela costumava viajar mais com a filha e o marido. Para se sentir bonita e feliz no próprio corpo, ela também decidiu fazer um ensaio fotográfico.
— Foram várias pequenas comemorações. Eu encerrei fazendo um book de fotos, nunca tinha feito isso, nunca me achei uma pessoa fotogênica. E adorei o resultado, fiz inclusive fotos sensuais e me amei — conta Rossânia.
Atualmente, ela divide a rotina de cuidado dos pais com o trabalho. Ela segue atuando na profissão, fazendo perícias, com trabalho presencial pelo menos uma vez por semana. Mas não deixa de reservar tempo para viagens, amizades e encontros com a família.
— Minha rotina é bem intensa, minha filha mexe comigo porque eu sou a aposentada mais ocupada. A agenda é difícil, também cuido de dois cães que resgatei da enchente, um deles idoso. Mas eu saio bastante com as amigas, tenho um grupo de amigas da mesma idade e a gente forma uma comunidade — afirma.









