O cotidiano das pessoas que passam dos 100 anos não gira somente em torno de clínicas, tratamentos ou cápsulas de remédio. Por mais que os avanços científicos e tecnológicos da medicina permitam que mais gente vença doenças, as pesquisas indicam que o mais importante para a longevidade está na chamada "vida interior": a motivação para a vida, espiritualidade e interação.
— Eu sempre digo que saúde a gente não compra nas prateleiras de uma farmácia, a gente encontra nas pessoas, nas boas companhias — explica Emílio Moriguchi, PhD em geriatria e coordenador do Projeto Veranópolis: Estudos em Envelhecimento, Longevidade e Qualidade de Vida.
Em Porto Alegre, a população com mais de 100 anos mais que dobrou em 12 anos. De 152 centenários em 2010, o número na capital gaúcha saltou para 325 em 2022, segundo dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – um aumento de 116%.
Deste total do último levantamento, 279 são mulheres e 46, homens. A prevalência feminina é explicada pela maior resistência biológica.
O sexo feminino também supera o masculino entre pessoas mais longevas a nível nacional e estadual. No Brasil, elas representam 72% dos 37,8 mil centenários país afora. No Rio Grande do Sul, o índice é ainda maior: 79% entre 1,5 mil pessoas que já passaram dos 100 anos.
Além da maior acessibilidade aos avanços médicos, uma das possíveis explicações para o aumento de centenários em Porto Alegre é relacionada aos idosos que envelhecem em suas cidades natais no interior do Estado e passam a morar com os familiares que migraram para a Capital.
Para Moriguchi, o padrão entre esses idosos não está somente nos cuidados com a saúde física.
Solidão é perigo
As pessoas centenárias são as que têm vontade de viver, propósito de vida. Mesmo com 100 anos, 105 anos, têm sonhos de fazer coisa boa. Essas são as pessoas que vivem bastante
EMÍLIO MORIGUCHI
PhD em geriatria e coordenador do Projeto Veranópolis
Os centenários, no geral, são pessoas independentes em funcionalidade, com capacidade de fazer sozinhas tarefas como comer ou ir ao banheiro. No entanto, segundo o doutor Moriguchi, essas pessoas raramente vivem sós.
Morando em casa com a família ou em lares de longa permanência de idosos, é possível evitar uma das maiores ameaças à longevidade.
— A solidão mata, o isolamento mata. O que promove a longevidade feliz e saudável são as boas companhias, isso está bem provado — explica.
Multicampeão aos 101
A rotina de Anton Karl Biedermann, de 101 anos, é, no mínimo, diferenciada. Cedo pela manhã, o economista e contador aposentado passa as primeiras três horas do dia se exercitando. Pratica uma hora e meia de natação na piscina do prédio, seguida de mais uma hora e meia de musculação.
Nadador desde a juventude, o centenário participou da competição mais recente há pouco mais de um mês, em dezembro do ano passado, em Florianópolis, na qual fez o melhor índice técnico entre os competidores do seu grupo de idade.
— Na natação, procuro todos os dias melhorar. Não consigo, é lógico, mas tento melhorar um pouquinho — relata o centenário, com sorriso no rosto.
Natural de Rio Grande, no sul do Estado, mudou-se ainda adolescente para Porto Alegre com a família alguns anos antes da enchente de 1941, da qual lembra bem. Ele vive com a filha, Rosane, e mantém uma vida social ativa, especialmente, entre os vizinhos do prédio.
— Tenho bastante amigos, felizmente. Mas é interessante, porque todos meus amigos de colégio, de esportes da juventude, todos não existem mais. Não tem nenhum vivo. A gente sente muito, às vezes vem as lembranças, principalmente dos episódios divertidos, que é o melhor de lembrar. É o que restou — reflete.
Para Biedermann, a sociedade brasileira ainda não aprendeu a valorizar os idosos como em outros países, entre eles o Japão, exemplifica:
— Isso dói, a gente sente muito. Eu, por exemplo, poderia ser útil em algumas coisas. Mas aí lembro: quando alguém falar que contratou um velho de 100 anos, vai cair no ridículo. Infelizmente é assim, tem que aguentar e levar adiante sem preocupações.
Quando os papéis se invertem
Aos 105 anos, Wilma Pereira Moura passa seus dias no apartamento da filha, no centro de Porto Alegre, com direito a varanda com vista para o Guaíba. A sobrinha Eliane Mello, 65, conta que, por mais que a família não esperasse pela longevidade da matriarca, Wilma sempre permaneceu ativa e "quando viu, tinha 100 anos".
— Era muito difícil a gente pensar nisso (que Wilma passaria dos 100). Mas ela sempre dizia que queria estar na formatura dos meus filhos mais novos, e, realmente, eles se formaram um pouco antes da pandemia. E ela estava ótima — lembra.
A lucidez de Wilma foi comprometida na enchente de 2024, quando, aos 103, foi resgatada de casa pelos bombeiros e passou 60 dias com a família em Torres, no Litoral Norte.
Conforme a filha de Wilma, Marta, a mãe ficou mais confusa desde então e passou a morar com ela, além de contar com os cuidados diários de uma outra sobrinha de criação.
Foi muito difícil essa transição dela, de ficar dependendo de mim e das outras pessoas. É muito complicado para a cabeça. A gente não está preparado para virar mãe da mãe. Eu olho às vezes e quero um colo, mas colo de quem?
ROSA MARTA PEREIRA MOURA
56 anos, filha de Wilma
Nascida em 1920, Wilma sonhava em ser professora, coisa que seu pai não permitiu na época, e por isso se tornou bordadeira.
A família lembra com carinho da comida que ela cozinhava e do costume de ouvir o programa Sala de Redação, da Rádio Gaúcha, depois do almoço. Além, claro, de discutir futebol com os sobrinhos.
— Ela é uma colorada fanática! Diz "o meu time". Até assiste (jogos), mas devido à idade não sabe mais o que é o quê. Mas acho que quando sai um gol ali, ela torce — sente Eliane.
Para a sobrinha, a longevidade da Wilma se explica pelo amor que sentiu pelo marido, do qual é viúva há mais de 20 anos, e pela filha. Além disso, prezou pela boa alimentação – e pela taça de vinho diária que bebeu por anos.
— Ela não esquece do marido. A gente mostra foto e ela fica: "ah, meu marido". Sempre foi fiel ao amor que tiveram.
Sabedoria da idade
Entre a escadaria e a rampa de acessibilidade no Residencial Confraria Viver a Vida, no bairro Moinhos de Vento, Vanda Vieira Rodrigues Grazziotin, de 100 anos, escolhe as escadas para ir até o local da entrevista.
A centenária fez hidroginástica por anos e, hoje em dia, pratica fisioterapia semanalmente. Apoiada no braço de um dos funcionários, tem mais facilidade de se movimentar do que vários dos outros moradores mais jovens do lar onde vive.
— Aqui dentro eu tenho amigos que me pegaram como amiga para desabafar aquilo que eles sentem. Principalmente um senhor jovem, sou a confidente dele — conta Vanda.
Dentro do que é possível, procuro dar a minha opinião. Mas às vezes vejo que é mais escutar, ouvir, do que ajudar
VANDA VIEIRA RODRIGUES GRAZZIOTIN
100 anos
A idosa chegou para morar em Porto Alegre perto dos 50 anos, depois de perder o marido. Nascida no interior de Passo Fundo, foi professora do Ensino Fundamental e conta que nunca perdeu a curiosidade por aprender — característica que atribui à própria longevidade.
— Pois é, eu tive essa graça (de chegar aos 100 anos), não sei por quê. Acho que a leitura me fez chegar assim. Sempre li bastante, tanto de formação pessoal como história. Gostava muito desses livros terapêuticos de estudo pessoal — recorda.
Vanda também cita como chave da vida longa a boa alimentação, que aprendeu com a mãe ainda criança. As memórias mais vívidas, inclusive, são da infância, da qual assegura lembrar de tudo.
Ainda que a velhice tenha causado esquecimento de vários momentos da vida adulta, fala com carinho dos oito bisnetos que tem. Um de seus netos, Maurício, vê a avó como inspiração:
— É uma pessoa com uma sabedoria de vida, mas ao mesmo tempo uma simplicidade. Por todo esse tempo, já teve muitas perdas na vida, mas acho que ela consegue manter um olhar positivo sobre as coisas, que eu acho que é um dos pontos que ajuda ela a ter chegado até aqui.
Boa de conversa, dona Vanda confirma a sabedoria apontada pelo neto.
— Levar uma vida feliz é procurar realizar aquilo que tu tens vontade, sem prejudicar o próximo. Levar uma vida boa, saudável. Mas também não permitir que te prejudiquem, enxergar em tempo o prejuízo que, às vezes, uma pessoa pode te causar — ensina.
*Sob supervisão de Beto Azambuja
