
O avanço acelerado das apostas online no Brasil tem produzido um efeito colateral cada vez mais evidente à população idosa: o comprometimento severo da renda com plataformas de apostas esportivas e jogos de cassino online, popularmente associados a termos como "bets" e "tigrinho" (os caça-níqueis online).
Dados oficiais, aliados a análises psicológicas, jurídicas e comportamentais, indicam que esse fenômeno ultrapassa o campo do entretenimento e passa a configurar um problema de saúde pública e de proteção social.
Um levantamento do Banco Central (BC) revelou que cerca de 2 milhões de pessoas com mais de 60 anos gastam, em média, R$ 3 mil por mês com apostas.
O valor chama atenção por ser superior à renda da maioria dos aposentados brasileiros. Atualmente, a aposentadoria urbana média no país é de R$ 1.863,38, enquanto a aposentadoria rural gira em torno de R$ 1.415,06.
Na prática, isso significa que muitos idosos apostam valores equivalentes (ou até superiores) ao próprio benefício previdenciário mensal, recorrendo a reservas financeiras, ajuda de familiares ou, com frequência crescente, a empréstimos consignados para sustentar o hábito.
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Um mercado bilionário e cada vez mais popular
Segundo dados do Banco Central (BC), empresas de jogos de azar e apostas receberam cerca de R$ 21 bilhões apenas no mês de agosto de 2025, considerando exclusivamente transações feitas via Pix.
Técnicos da autarquia alertam que esse número pode estar subestimado, já que não inclui pagamentos realizados com cartões de crédito ou outros meios bancários.
No período analisado, o BC identificou cerca de 24 milhões de pessoas físicas que realizaram ao menos uma aposta. A maioria está na faixa etária entre 20 e 30 anos, mas o valor médio gasto cresce conforme a idade.

O gasto mensal com apostas no grupo acima dos 60 anos chega a R$ 3 mil, quantia que supera a média nacional das aposentadorias e representa um desembolso cerca de 30 vezes maior do que o observado entre os mais jovens (a partir de R$ 100 por mês).
O Brasil já ocupa a posição de quinto maior mercado de apostas online do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, Reino Unido, Itália e Rússia, o que ajuda a dimensionar o tamanho do setor e a pressão econômica e social que ele exerce.
Uma experiência pensada para reter o jogador
As apostas online foram legalizadas no Brasil em 2018, mas a regulamentação efetiva só entrou em vigor em 2025. Durante esse intervalo de sete anos, o setor operou praticamente sem regras claras, fiscalização robusta ou exigências consistentes de proteção ao consumidor.
Nesse período, segundo especialistas, as plataformas desenvolveram estratégias sofisticadas de engajamento.
Diferentemente da aposta tradicional em uma lotérica, a experiência digital é contínua, dinâmica e altamente estimulante.
Na tela do celular, o usuário encontra um cardápio quase infinito de apostas em eventos reais e fictícios, além de jogos de cassino, bônus, alertas constantes, convites para "missões", recompensas e estímulos visuais e sonoros que reforçam a sensação de imediatismo.
Esse formato cria uma jornada de consumo muito mais recreativa (e potencialmente mais viciante) do que o jogo presencial, especialmente para idosos em contextos de solidão, luto ou aposentadoria recente.
Impactos na saúde mental e na sociedade

O dossiê A saúde dos brasileiros em jogo, elaborado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), dimensiona os efeitos do jogo problemático no país. Segundo o levantamento, o custo social dos danos associados às apostas é de pelo menos R$ 38,8 bilhões por ano no Brasil.
Desse total, R$ 30,6 bilhões referem-se diretamente a danos à saúde, incluindo gastos das redes pública e privada, pagamento de seguro-desemprego e perdas associadas à redução de anos de vida saudável. Entre os impactos mais graves estão:
- R$ 17 bilhões relacionados a mortes por suicídio
- R$ 13,4 bilhões ligados à perda de qualidade de vida e a tratamentos decorrentes da depressão
O estudo não inclui perdas financeiras individuais nem os impactos nos vínculos familiares, afetivos e sociais, o que indica que o custo real do problema tende a ser ainda maior.
Pesquisadores estimam que o Brasil teve 17,7 milhões de apostadores em apenas seis meses. Com base em levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cerca de 12,8 milhões de pessoas estão em situação de risco em relação às apostas.
O que acontece no cérebro do idoso ao apostar
Segundo o psicólogo Edilson José, do grupo Mantevida, o ato de apostar provoca uma elevação rápida e intensa dos níveis de dopamina no cérebro — neurotransmissor diretamente ligado à sensação de prazer, motivação e recompensa imediata.
— O jogo pode elevar rapidamente os níveis de dopamina, gerando sensação de prazer, euforia e uma falsa percepção de controle e capacidade de resolver a situação — explica.
Essa ativação, no entanto, não se sustenta. A elevação costuma ser seguida por uma queda abrupta, o que alimenta o desejo de repetir a aposta.
A pessoa passa a jogar não apenas para ganhar, mas em busca de recuperar o que perdeu, aliviar frustrações emocionais ou simplesmente reviver a sensação momentânea de bem-estar.
Os especialistas consultados pela reportagem destacam que a ludopatia (ou ludomania, termo utilizado para o vício em jogos e apostas) é reconhecida como um transtorno semelhante ao uso de substâncias como álcool e drogas, pois envolve os mesmos circuitos cerebrais.
— As apostas, especialmente quando repetidas, mobilizam mecanismos ligados à motivação, ao prazer e ao aprendizado por reforço. No momento da aposta, ocorre a ativação do circuito de recompensa, região central (do cérebro) nesse processo — explica a psicóloga Athena Bittencourt Martins Camargo, conselheira e vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul (CRPRS).
O efeito da dopamina
Segundo Athena, quando o indivíduo atribui um valor subjetivo elevado à possibilidade de ganho, instala-se uma forte antecipação de recompensa.
Nesse momento, há redução da influência do córtex pré-frontal, área responsável pelo planejamento, pela tomada de decisões e pelo controle inibitório, efeito que se intensifica em situações de estresse, fadiga ou emoções intensas.
Durante esse processo, a dopamina desempenha papel central não apenas no ganho em si, mas também na expectativa e nos chamados "quase acertos".
— Em jogos de recompensa variável, como as apostas online, a dopamina aumenta não só quando há ganho, mas também na antecipação e mesmo quando a pessoa quase ganha. Isso sustenta a excitação e a euforia, mesmo sem retorno financeiro real — afirma a psicóloga.

Redução dos "freios naturais"
Embora os circuitos cerebrais envolvidos sejam os mesmos nos jogos presenciais e online, o ambiente digital amplia significativamente os riscos.
De acordo com Athena, fatores como alta disponibilidade, velocidade das apostas, privacidade e estímulos contínuos reduzem os chamados "freios naturais" do comportamento.
— No ambiente digital, desaparecem barreiras como o tempo de deslocamento, o constrangimento social e as interrupções externas. Isso favorece a automatização do comportamento e torna o ciclo do jogo progressivamente mais intenso e difícil de interromper — alerta.
No caso dos idosos, esse mecanismo se torna ainda mais preocupante. Com o envelhecimento, ocorre uma redução gradual do controle inibitório, o que aumenta a influência das emoções sobre as decisões e diminui a capacidade de avaliar riscos e consequências a longo prazo.
— O comportamento deixa de ser lazer quando passa a ser vivido como necessidade, causando sofrimento quando a pessoa não consegue parar — resume Edilson José.
Regulação, ilegalidade e a proteção ao idoso

Para Plinio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), a regulamentação implementada a partir de 2025 representou um avanço importante para a proteção dos apostadores.
— As regras definidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda trouxeram melhorias significativas, diferenciando as empresas que querem investir no Brasil com boas práticas daquelas que favorecem a criminalidade e não se importam com a saúde dos apostadores — avalia.
Entre as medidas adotadas estão o reconhecimento facial, que impede o uso indevido das plataformas, e o monitoramento de comportamentos compulsivos com apoio de tecnologias de inteligência artificial.
Segundo Jorge, apenas plataformas autorizadas podem utilizar o domínio ".bet.br", o que ajuda o usuário a identificar ambientes legais.
Promessas de enriquecimento rápido, bônus agressivos e discursos de lucro fácil são características típicas de plataformas ilegais.
Jogo é entretenimento, não é meio de ganhar dinheiro fácil
PLINIO LEMOS JORGE
Presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias
Endividamento, consignados e o papel do Direito
O advogado previdenciário Rodrigo da Veiga Lima relata aumento consistente na procura por orientação jurídica de idosos endividados em razão de apostas online.
— Na maior parte dos casos, são aposentados e pensionistas que usam o benefício previdenciário como principal fonte de renda e passam a contratar empréstimos consignados para cobrir prejuízos sucessivos — explica.
Do ponto de vista legal, dívidas com plataformas de apostas não autorizam descontos automáticos no benefício do INSS. O comprometimento ocorre de forma indireta, quando o idoso recorre ao crédito consignado.
A legislação permite que até 45% do benefício previdenciário seja comprometido. Descontos acima desse limite são ilegais e podem ser questionados judicialmente.
Em situações de vulnerabilidade, jogo compulsivo, assédio ao consumo ou concessão irresponsável de crédito, contratos podem ser revistos ou até anulados.
A Lei do Superendividamento também pode ser aplicada, desde que não haja comprovação de má-fé.
Em casos mais graves, a família pode recorrer a medidas como curatela parcial restrita à gestão financeira ou tomada de decisão apoiada, sempre com foco na proteção patrimonial e na dignidade do idoso.
Como agir diante do problema
Especialistas apontam caminhos essenciais para interromper o ciclo de endividamento e sofrimento:
- parar imediatamente as apostas
- buscar acompanhamento psicológico especializado em transtornos aditivos
- levantar todas as dívidas e revisar contratos e descontos
- bloquear novos empréstimos consignados
- envolver a família como rede de apoio
- buscar orientação jurídica ao primeiro sinal de descontrole financeiro
- utilizar ferramentas de autoexclusão oferecidas pelas plataformas legalizadas
— Quando o jogo deixa de ser diversão e passa a causar impacto financeiro, emocional e social, é hora de parar e buscar ajuda — encerra Plinio.













