
Aos 88 anos, o aposentado Vinícius Coral ainda sente no lado direito da cabeça a dor que começou mais de um ano atrás e que mudou sua rotina de forma permanente. O que parecia, nos primeiros dias, uma forte dor de cabeça — tão intensa que o fez temer um acidente vascular cerebral (AVC) — revelou-se, após atendimento emergencial e consultas com dermatologistas, um quadro clássico de herpes zóster.
— Eu comecei a sentir dor de cabeça. Mas bota dor nisso, pode exagerar. Os médicos disseram que é pior que a dor do parto. Depois de cinco dias eu disse: "bah, devo ter algum derrame na cabeça". Aí fui na emergência com a minha filha. Lá me internaram e começaram a tratar. Disseram que era herpes zóster — conta Vinícius.
A doença, conhecida popularmente como "cobreiro", é provocada pela reativação do vírus da catapora e tem se tornado especialmente relevante entre pessoas com mais de 60 anos, faixa etária na qual o risco de complicações é muito maior.
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No caso de Vinícius, a infecção evoluiu para neuralgia pós-herpética, uma dor persistente que pode durar meses ou anos e que afeta diretamente a qualidade de vida.
Ele recorda que os sintomas iniciais foram abruptos e rapidamente incapacitantes, afetando o sono, o humor e a rotina familiar.
Testou diferentes doses de medicamentos e recorreu a terapias como acupuntura e estimulação elétrica, mas o alívio foi lento e apenas parcial — um cenário frequente entre idosos que desenvolvem a dor crônica associada ao herpes zóster.
Mesmo após a alta e meses de acompanhamento, os sintomas persistiram. Ao longo do tempo, houve ajustes graduais nas doses, novas consultas e tentativas de alternativas terapêuticas para recuperar algum conforto, sem resposta significativa.
— Eu estou tomando pregabalina (fármaco utilizado no controle da dor neuropática) desde 13 de outubro do ano passado. É mais de um ano. A dor diminuiu, mas continua. Eu boto a mão no lado da cabeça e está tudo dolorido. Teve um senhor que encontrei na clínica e que disse que, no caso dele, já fazia cinco anos. Cada um é de um jeito — relata Vinícius.
O aposentado nunca recebeu a vacina contra herpes zóster, disponível apenas na rede privada, e soube do imunizante somente após o início do tratamento.
Na época, a orientação médica foi de que o alto custo — cerca de R$ 1 mil por dose — e o fato de já estar em curso o tratamento tornariam a vacinação desnecessária naquele momento.
Hoje, ele segue monitorando o caso com dermatologistas e especialistas em dor. Usa medicações para atenuar os sintomas e dormir melhor.
— A dor é mais fraca, mas continua. Eu já estou conformado, esperando um dia passar. Sigo tomando o remédio para conseguir dormir — afirma.
Vírus "adormecido"
O presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia — Regional RS (SBD-RS), Juliano Peruzzo, explica que o herpes zóster é causado pelo mesmo vírus da catapora, o varicela-zoster (VVZ).
Depois que uma pessoa tem catapora na infância, adolescência ou mesmo na fase adulta, o vírus permanece no organismo de forma não aparente, alojado nos gânglios nervosos próximos à medula espinhal.
Em algum momento da vida, ele pode se reativar, principalmente quando o sistema imunológico está fragilizado. E vale o alerta: mesmo depois de tratada, a doença pode se repetir.
— O causador do herpes zóster é o mesmo vírus da varicela. O paciente que teve catapora, ou que entrou em contato com o vírus, mesmo sem desenvolver a doença, fica com esse vírus latente nos nervos da coluna. Ele pode ser reativado em qualquer momento da vida — detalha Peruzzo.
Essas reativações não são totalmente previsíveis. Segundo o dermatologista, podem ocorrer sem fator desencadeante claro, mas frequentemente estão associadas a estresse intenso, queda da imunidade, uso de medicamentos imunossupressores, tratamentos oncológicos, doenças crônicas inflamatórias e, principalmente, envelhecimento.
— Normalmente, ele (o vírus) pode ser reativado por nenhum fator identificável, mas situações de estresse ou imunossupressão predispõem mais a essa reativação. E conforme aumenta a idade, aumenta o risco de desenvolver herpes zóster — explica Peruzzo.
Embora a doença em si não seja transmitida de pessoa para pessoa, suas lesões contêm o vírus da catapora.
Quem nunca teve catapora ou não foi vacinado pode contrair varicela ao entrar em contato direto com as vesículas. O risco cessa quando as lesões estão secas e com crosta.
Como começa

Os primeiros sinais costumam ser dolorosos e muito característicos. O vírus reativado percorre um nervo específico e provoca dor intensa ao longo dele, o que explica a apresentação do zóster sempre em "faixa", de um lado do corpo.
A região dolorida pode queimar, arder ou formigar, e isso geralmente antecede a formação das lesões por alguns dias.
— Normalmente começa com dor bastante intensa em uma região específica da pele, seguindo um trajeto chamado dermátomo. Essa dor é seguida do surgimento de pequenas vesículas, bolhas d’água agrupadas, no mesmo trajeto — detalha Peruzzo.
Embora o padrão clássico inclua bolhas, há casos menos comuns em que o zóster se manifesta apenas com dor localizada, sem lesão cutânea, o que dificulta o diagnóstico.
Outros sintomas, como febre e aumento de gânglios, podem aparecer, mas não são os mais comuns. A principal marca da doença é a combinação entre dor intensa e lesões agrupadas.
Diagnóstico
Segundo Peruzzo, o diagnóstico é basicamente clínico, realizado por dermatologistas ou clínicos experientes com base na avaliação das lesões e do trajeto doloroso. Embora existam exames laboratoriais confirmatórios, eles raramente são necessários na prática.
— O diagnóstico é clínico, pelos sinais e sintomas. Qualquer médico está habilitado para reconhecer o quadro, mas dermatologistas têm mais experiência — explica.
A orientação é buscar atendimento o mais rapidamente possível, idealmente nas primeiras 72 horas após o início das lesões. Esse intervalo é determinante para reduzir riscos de complicações.
Complicações
A principal complicação do herpes zóster é a neuralgia pós-herpética, caracterizada por uma dor persistente que continua mesmo após a cicatrização das lesões na pele.
Esse quadro ocorre devido ao dano e à inflamação do nervo acometido e pode se prolongar por meses ou até anos.
— Em alguns pacientes, a lesão cicatriza, mas a dor permanece. Pessoas mais idosas podem perder autonomia, porque precisam usar medicações mais fortes para conseguir controlar esse sintoma — explica o infectologista Diego Rodrigues Falci, professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
A gravidade das complicações varia conforme o nervo atingido e a região do corpo afetada. Quando o herpes zóster compromete o ramo oftálmico do nervo trigêmeo, por exemplo, pode causar lesões oculares importantes, com risco na córnea e até cegueira, exigindo atendimento hospitalar imediato.
Em outras localizações, pode resultar em paralisia facial e perda auditiva.
— Dependendo da localização, o zóster pode ter consequências bastante graves. O envolvimento do nervo facial ou da região dos olhos exige atenção redobrada — ressalta Falci.
Além das manifestações neurológicas, estudos mais recentes têm demonstrado que pacientes que desenvolvem herpes zóster apresentam risco aumentado de eventos cardiovasculares, como infarto e AVC, especialmente nos meses seguintes à infecção.
— O zóster inflama o corpo como um todo. Nessa resposta inflamatória, pode se formar um estado pró-trombótico, o que aumenta o risco de infarto e AVC — afirma o infectologista.
Condições comuns a partir dos 60 anos, como diabetes, cardiopatias e doenças autoimunes, agravam ainda mais esse cenário, ao reduzir a resposta imunológica e aumentar tanto o risco de reativação do vírus quanto a probabilidade de complicações mais severas.
Tratamento
O tratamento envolve antivirais específicos, como o aciclovir e o valaciclovir, que reduzem a replicação do vírus e a duração do quadro. A eficácia, porém, depende do início precoce.
— A gente usa antivirais, e o principal ponto é tratar cedo. Diagnóstico precoce e tratamento nas primeiras 72 horas reduzem bastante o risco de complicações — pontua Peruzzo.
A dor, por sua vez, exige manejo personalizado. São usados analgésicos comuns, analgésicos mais potentes e medicamentos voltados a dor neuropática, como pregabalina e gabapentina.
— O tratamento intenso da dor na fase aguda também diminui o risco de neuralgia pós-herpética. Em casos de dor refratária, usamos analgésicos mais complexos, incluindo opioides — explica o médico.
Prevenção

Atualmente, a única vacina disponível no Brasil contra o herpes zóster é a Shingrix. O imunizante é aplicado em duas doses, não contém vírus vivo e apresenta alta eficácia, superior a 90%, inclusive entre idosos e pessoas imunossuprimidas.
A vacina está indicada para adultos a partir dos 50 anos e para imunossuprimidos a partir dos 18, mas ainda não integra o calendário do Sistema Único de Saúde (SUS). Ou seja, é restrita à rede privada, com custo elevado, um fator que limita o acesso.
— Hoje só temos a Shingrix. A Zostavax (antiga vacina) foi descontinuada. É uma vacina bastante eficaz, melhora muito a resposta imunológica nos idosos e imunossuprimidos, mas é cara e só está disponível no mercado privado. Precisamos ter uma vacina assim no SUS. É uma decisão estratégica que precisa ser tomada — avalia Falci.
Mesmo pessoas que já tiveram herpes zóster devem se vacinar, desde que respeitado o intervalo recomendado após o episódio agudo. A medida ajuda a reduzir o risco de novos quadros e, principalmente, de complicações mais graves.
— Pode vacinar, é seguro. A chance de recorrência do herpes zóster varia de 5% a 15%. Não é um risco alto, mas ninguém quer passar por isso de novo — conclui o infectologista.









