
Viajar depois dos 60 anos deixou de ser exceção e passou a ocupar lugar central na rotina de muitas pessoas que chegam à aposentadoria com mais tempo, autonomia e desejo de aproveitar a vida de forma plena.
Conhecida como turismo sênior, a atividade cresce de maneira consistente no Brasil e no mundo, impulsionado por um público diverso, exigente e cada vez mais consciente do que busca e, principalmente, do que não aceita mais.
Mais do que acumular destinos, essa geração procura experiências que respeitem o ritmo do corpo, ofereçam segurança, conforto e oportunidades reais de socialização.
A lógica do turismo acelerado, com agendas rígidas e longas jornadas diárias, dá lugar a viagens melhor planejadas, com pausas, flexibilidade e espaço para contemplação.
60Mais
"Em grupo, tudo é mais fácil"
A aposentada Enice Xavier, 64 anos, professora municipal aposentada, representa bem esse perfil. Ela já percorreu diversos destinos nacionais como Minas Gerais, Paraíba e cidades do Rio Grande do Sul e também internacionais, como Cartagena, na Colômbia.
A maioria das experiências foi por meio de viagens em grupo, formato que ela prefere e considera decisivo.
— Eu não tenho perfil para viajar sozinha. Em grupo, tudo é mais fácil: a passagem, o hotel, o pagamento, os horários. A gente confia que o que foi combinado vai acontecer — relata.
Para Enice, a tranquilidade das viagens em grupo começa antes mesmo do embarque. A organização do transporte, os pontos de parada, o cuidado com horários e até a atenção no retorno para casa fazem parte do pacote.
— Eles (agências de viagem) se preocupam com tudo. Quando a gente chega, pedem para avisar que chegou bem. Se alguém passa mal, cai ou precisa voltar antes, não fica desamparado. Isso traz muita segurança — conta.

A professora aposentada se define como uma viajante de perfil cultural, interessada em passeios históricos, experiências gastronômicas e atividades diurnas, mas sem abrir mão da liberdade individual.
— Aprendi que cada um tem seu ritmo. Tem quem queira descer do ônibus, caminhar, fazer tudo. E tem quem prefira ficar no local, observando. Isso precisa ser respeitado — afirma.
Público diverso, mas com demandas muito claras
Rita Longarai, 59 anos, biomédica e especialista em gerontologia social, atua há mais de duas décadas com o público sênior e é sócia da agência Conectando Caminhos, focada exclusivamente em viagens para pessoas com mais de 60 anos. Para ela, o mercado segue extremamente promissor.
— É um público que tem tempo livre, não depende de feriados e consegue viajar em períodos mais tranquilos, com menos movimento e mais qualidade. Ao mesmo tempo, é um público muito heterogêneo — explica.
Segundo Rita, há desde viajantes com plena autonomia, que fazem longas caminhadas, até pessoas com mobilidade reduzida. Por isso, a transparência na comunicação é fundamental.
— Com esse público, não dá para prometer o que não vai entregar. O roteiro precisa ser claro, honesto e cumprido à risca. Se está no programa, precisa acontecer. Qualquer frustração pesa muito — ressalta.
Destinos com águas termais figuram entre os preferidos justamente por reunirem conforto, estrutura adaptada, foco em bem-estar e opções para diferentes níveis de autonomia.
Qualidade de experiência e desafios de viajar sozinho

Fabian Saraiva, CEO da Uneworld Viagens e Turismo, observa que o viajante 60+ aceita enfrentar pequenas dificuldades apenas quando elas fazem sentido dentro da experiência.
— Eles não aceitam mais qualquer coisa. Querem que o investimento de tempo e dinheiro resulte em algo memorável, prazeroso e transformador — afirma.
Isso se reflete na escolha de hotéis bem localizados, na preferência por menos trocas de hospedagem, em conexões aéreas mais longas e em itinerários menos sobrecarregados.
— Não é mais aquela viagem militar, com atividade a cada hora. Eles preferem fazer menos, mas com qualidade. Querem tempo livre, querem sentar, observar, aproveitar o lugar — diz Saraiva.
A digitalização do turismo trouxe praticidade, mas também criou barreiras. Check-ins automatizados, imigração por aplicativo e atendimento reduzido têm afastado muitos idosos da ideia de viajar sozinhos.
— Pessoas acima dos 70 anos relatam muita dificuldade com tecnologia. Viajar em grupo, com guia e suporte humano, virou quase uma necessidade — avalia Saraiva.
Turismo sênior: conceito e benefícios

O turismo sênior é voltado a pessoas com mais de 60 anos e prioriza experiências adaptadas às necessidades desse público. Entre os principais benefícios estão:
- Flexibilidade de datas, permitindo viajar fora da alta temporada
- Integração social e fortalecimento de vínculos
- Estímulo à saúde mental e ao bem-estar emocional
- Infraestrutura adaptada e maior sensação de segurança
- Roteiros personalizados, com foco em conforto e qualidade
Checklist para viajar aos 60+
Antes de escolher o pacote:
- Avalie condições de saúde e possíveis limitações de mobilidade
- Converse com um profissional de saúde, se necessário
- Defina expectativas: descanso, cultura, lazer ou bem-estar
Na escolha da agência:
- Busque indicações de quem já viajou
- Prefira agências especializadas em turismo sênior
- Converse por telefone, não apenas por mensagens
- Desconfie de promessas exageradas
No roteiro e no transporte:
- Leia atentamente o descritivo da viagem
- Verifique a presença de guia durante todo o percurso
- Confirme paradas regulares para descanso
- Avalie a qualidade do ônibus ou das conexões aéreas
- Priorize hotéis bem localizados e acessíveis
Segurança e conforto:
- Contrate seguro de viagem com cobertura médica
- Confira acessibilidade em hotéis e atrações
- Prefira roteiros com tempo livre e ritmo moderado
Principais destinos
Levantamento da Booking.com aponta destinos brasileiros que se alinham bem ao perfil sênior, combinando conforto, acessibilidade e experiências culturais.
Rio Grande do Sul
Nova Petrópolis: destaca-se pela tranquilidade, paisagens floridas e forte herança cultural alemã. A Praça das Flores, o Labirinto Verde e o Parque Ninho das Águias são atrações de fácil acesso e visual marcante.
Gramado e Canela: especialmente em períodos como o Natal Luz, oferecem infraestrutura turística completa, boa gastronomia e opções de passeio com tempo livre para circulação.
Outros destinos brasileiros
Poços de Caldas (MG): Tradicional no turismo de bem-estar, com águas termais, teleférico e parques urbanos.
Águas de São Pedro (SP): Cidade compacta, plana e pensada para o turismo de saúde.
Ilhéus (BA): Une patrimônio histórico, literatura e praias de mar calmo.
Alter do Chão (PA): Ideal para quem busca natureza e ritmo desacelerado, com passeios de barco e forte identidade cultural.











