
O teatro é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da doença da angústia
JEAN-LOUIS BARRAULT
Ator francês (1910-1994)
O teatro do Campus II da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo, parecia pulsar. Antes mesmo de a reportagem entrar no auditório, era possível ouvir o burburinho animado e as gargalhadas de um grupo que, apesar de não estar em cena, mantinha a animação de uma estreia.
Os participantes do Grupo Ousadia, que faz parte do Movimento Teatral Feevale, todos com mais de 60 anos, enchiam o espaço de sorrisos e energia. Abraçavam, brincavam, cantavam e ocupavam o palco como quem reencontra um lugar que sempre foi seu.
O ambiente vibrante antecede qualquer explicação técnica, mas simboliza exatamente o que especialistas defendem sobre a importância de atividades artísticas para a terceira idade: teatro, aqui, é vida em expansão. É memória, corpo, pertencimento e reinvenção.
— As mulheres e os homens que estão comigo vieram em busca de protagonismo — definiu a diretora de arte e professora Angela Maria Gonzaga, 69 anos, líder do Movimento Teatral Feevale há mais de duas décadas.
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"O teatro me salvou"
Diretora de arte formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), atriz desde os anos 1970, Angela construiu a carreira em um período pouco receptivo às mulheres no comando das artes cênicas.
Traz na trajetória a marca de um teatro crítico, político, brechtiano e confessa que jamais imaginou encontrar na educação uma potência tão grande quanto a que buscava nos palcos. Mas encontrou.
Há 25 anos, ela assumiu a oficina de teatro para idosos. Desde então, lidera dezenas de alunos que se revezam entre peças, corais e turnês internas, além de cafés, viagens, chás e amizades que transbordam para além do palco.
— O teatro me salvou. E salva eles também. É o lugar onde podem protagonizar, muitas vezes pela primeira vez na vida. A maioria são mulheres que dedicaram décadas ao cuidado dos outros. Quando os filhos crescem, quando o marido morre, quando a rotina muda, vem o vazio. E elas descobrem aqui um novo sentido — diz Angela.

Protagonismo, autoestima e cuidado
A sala de ensaio é um lugar de exigência. Angela admite que comanda com firmeza, e os alunos confirmam, entre risadas.
— Ela acha que nós temos 30 anos. Ela manda falar claro, olhar para frente, não caminhar para trás. Mas é isso que faz a gente melhorar. Eu me corrijo muito — brinca Suzana Lampert Anschau, 80 anos, participante do grupo há mais de uma década.
Mas o rigor tem função: o palco exige presença, memória, atenção, corpo desperto. E tudo isso é profundamente terapêutico, ainda que não seja terapia.
O psicólogo Edilson José Ferreira, do grupo Mantevida, explica que atividades artísticas coletivas estimulam múltiplas dimensões da saúde mental.
— O teatro promove socialização, estimula memória e atenção, amplia a expressão emocional e ajuda o idoso a reencontrar partes de si que ficaram esquecidas ao longo da vida. E, sobretudo, ressignifica aquilo que o envelhecimento transforma. Aumenta autoestima, autopercepção e cria novos sentidos de propósito — comenta.

Segundo ele, após os 60 anos é comum enfrentar aposentadoria, lutos, mudanças familiares e a sensação de isolamento.
Atuar, decorar textos, improvisar, mover o corpo, experimentar papéis funciona como um exercício de pertencimento e retomada de vitalidade.
— O idoso tende a sentir que está à margem da sociedade. Atividades como o teatro recolocam essa pessoa no centro da própria história — afirma o psicólogo.
"Ninguém é coitadinho aqui"
A professora Angela é categórica: trabalhar com idosos não é lidar com fragilidade, mas com intensidade.
Todo mundo tem personalidade forte. Ninguém é coitadinho aqui
ANGELA MARIA GONZAGA
Diretoria de Arte
É dessa força que nasce o vínculo do grupo, que se apoia em momentos de fragilidade, doenças, perdas, e também celebra junto aniversários, estreias, viagens.
— Eles chegam muitas vezes deprimidos. E saem renovados. O teatro reorganiza. Tira a pessoa da angústia, do abandono e coloca no coletivo. E desse coletivo surgem outros: o grupo do chá, o grupo das viagens, o das compras — conta Angela.

Essa rede é fundamental em momentos difíceis, como relembra Suzana. Durante a pandemia, quando não puderam ensaiar, os membros do grupo se mantiveram unidos: abandonaram tinturas de cabelo, aderiram ao grisalho e criaram uma rede de produção de roupas para bebês, doadas para famílias atingidas pela covid-19 e, mais tarde, pela enchente no Estado.
— Encontramos outra forma de estar juntos. Não dava para ficar parada. O grupo é muito importante — diz ela.
Coragem de continuar criando
Outro integrante, Arthur Manoel de Oliveira, 83 anos, representa a minoria masculina do grupo. São apenas dois homens entre mais de 20 mulheres. A explicação, para ele, é simples:
— Os homens são preguiçosos. Depois que se aposentam, querem ficar mentindo para os amigos no bar, não querem ser dirigidos de novo, não querem decorar texto — brinca.
Arthur, porém, sempre esteve ligado ao teatro e ao canto coral. Dos palcos da escola aos festivais nacionais e até cursos no exterior, nunca abandonou a arte.

Encontrou Angela ainda nos anos 1980, admirou seu trabalho e prometeu que um dia trabalharia com ela. Cumpriu a promessa: está no grupo desde 2013.
— O teatro é a escola da vida. Quando chego aqui, deixo meus problemas engavetados em casa. Visto o personagem. Vivo outra coisa. E, quando volto, os problemas até continuam lá, mas eu já sou outro.
Criatividade como proteção da mente
A participação em atividades artísticas não apenas oferece bem-estar emocional, mas também impacta diretamente a saúde cognitiva.
Segundo o psicólogo Edilson José Ferreira, o teatro estimula:
- Atenção
- Memória
- Expressão corporal
- Resolução de problemas
- Controle inibitório
- Interação social significativa
Mais do que isso, movimentar o corpo (especialmente pernas e braços) está associado à saúde neurológica. Estudos recentes, cita o especialista, mostram que exercícios corporais ajudam a preservar funções cerebrais e retardam o declínio cognitivo.
— Criatividade não evita sozinha o declínio. Mas é uma linguagem única, capaz de acessar afetos que não cabem na palavra literal. É essencial para um envelhecimento pleno — diz o psicólogo.
Palco como lugar de cura, sentido e resistência

Ao fim da visita, a voz de Angela ecoa no auditório:
— Postura! Olhem adiante! Textos na ponta da língua!
A turma responde com sorrisos, passos coordenados, braços erguidos, olhares atentos. Quando entra no palco, algo muda: o corpo parece mais leve. As falas saem mais firmes. A alegria toma forma.
Ali, não há idade que impeça. Há potência. O grupo não existe apenas para formar atores. Existe para formar encontros, desafiar o tempo, criar redes e devolver a cada integrante aquilo que o mundo, às vezes, tenta tirar: o protagonismo sobre a própria vida.
O teatro, como dizia Barrault, pode ser mesmo um "soro contra a angústia". Aos 60, 70, 80 ou 90 anos, subir ao palco é também um ato de cura silencioso, coletivo e profundamente humano.












