
O avanço da medicina prolongou vidas, ampliou o acesso a diagnósticos e tornou possível envelhecer com doenças antes incapacitantes. Mas, junto desse progresso, surgiu um fenômeno silencioso (e perigoso) que perpassa consultórios, farmácias, unidades de saúde, hospitais e lares brasileiros: a polifarmácia.
O uso simultâneo de vários medicamentos, em geral cinco ou mais, tornou-se tão comum entre pacientes 60+ que muitos já não conseguem listar tudo o que tomam, quando tomam e por quê.
Entre caixas, bulas e prescrições de diferentes especialistas, cresce também a dúvida: em que momento tantos remédios começam a atrapalhar?
A resposta costuma aparecer de forma discreta no início. Uma tontura que ninguém sabe de onde veio. Uma queda que poderia ter sido evitada. Um esquecimento que passa despercebido. Um cansaço inexplicável.
Pequenos avisos que, muitas vezes, são confundidos com o próprio envelhecimento. Mas, na verdade, eles podem ser sinais de interações medicamentosas, efeitos colaterais ou até prescrição inadequada.
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À medida que o número de remédios aumenta, cresce também a probabilidade de eventos adversos, perda de autonomia, internações e até mortalidade.
E, para uma população que envelhece rápido, a questão se torna urgente: quem está cuidando das combinações que colocamos para funcionar dentro do corpo todos os dias? Entenda mais sobre o assunto:
O que é polifarmácia — e por que preocupa tanto
Apesar de existirem diferentes definições, a literatura médica converge: polifarmácia é o uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos. Mais do que um número, é a complexidade que assusta.
Entre pacientes idosos que acumulam mais diagnósticos e, por consequência, recebem mais prescrições, tratar várias doenças ao mesmo tempo se torna regra, não exceção.
A prática, segundo o especialista em Gerontologia e diretor científico do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS, Regis Gemerasca Mestriner, tem sido objeto central de preocupação na geriatria moderna.

Ele destaca que as mudanças naturais do envelhecimento tornam o organismo mais vulnerável ao efeito acumulado de medicamentos, um risco que se intensifica quando esse processo não ocorre de forma saudável.
— A polifarmácia está diretamente associada a uma série de desfechos negativos. Quanto maior o número de medicamentos, maior o risco de efeitos adversos, interações, quedas, delírio, piora cognitiva, fragilidade, incapacidade funcional, hospitalizações e até mortalidade — afirma.
A geriatra Maria Cristina Berleze, chefe do Serviço de Geriatria do Hospital São Lucas da PUCRS, reforça que o problema é tanto quantitativo quanto qualitativo.
— A polifarmácia é o uso de cinco ou mais medicamentos, mas, na prática, o que mais nos preocupa é a ocorrência de eventos adversos. Isso é extremamente comum em idosos e afeta diretamente a segurança do cuidado — detalha.
O envelhecimento, por si só, não causa polifarmácia
Mestriner reforça que a idade, por si só, não leva ao uso excessivo de medicamentos. O que realmente aumenta com o passar dos anos é o número de diagnósticos, e são essas condições clínicas acumuladas que ampliam a necessidade de tratamentos.
Em outras palavras, existe uma correlação entre idade e quantidade de medicamentos, mas não uma relação de causa e efeito: a idade não é a responsável direta pela polifarmácia.
— Envelhecer não determina o uso excessivo de medicamentos. O que favorece prescrições complexas é o acúmulo de doenças e demandas terapêuticas, muitas vezes somado à dificuldade de manter bons hábitos de saúde. A ideia de que "a idade gera doenças" é reducionista, idadista e não tem base científica — afirma o especialista.
Maria Cristina usa um raciocínio semelhante na prática clínica. Segundo ela, é esperado que a cada década de vida após os 60 anos a pessoa tenha, em média, um diagnóstico clínico adicional.
— Aos 70, sete diagnósticos; aos 80, oito. Isso naturalmente amplia o número de medicações, mesmo em idosos independentes e saudáveis — acrescenta.
Muitas prescrições e pouco conjunto
Os idosos costuma transitar por diferentes profissionais, como cardiologista, ortopedista, endocrinologista. Todos, individualmente, tomam decisões corretas. Mas quem olha o conjunto?
— É muito comum que vários especialistas participem do cuidado. Sem comunicação, pode haver duplicidade de prescrição, associações inadequadas e aumento significativo do risco de eventos adversos. O geriatra muitas vezes faz esse gerenciamento, articulando os especialistas e garantindo o uso racional das medicações — explica Maria Cristina.

Regis reforça outro ponto crítico: regimes terapêuticos longos e complexos desorganizam o cotidiano do idoso e abrem espaço para erros de horário, doses trocadas e abandono de medicamentos importantes.
Medicamentos potencialmente inadequados ou prescrições muito longas amplificam o risco, especialmente em populações vulneráveis
REGIS GEMERASCA MESTRINER
Especialista em Gerontologia
Quem está mais vulnerável aos danos da polifarmácia?
Certos grupos enfrentam riscos ainda maiores do que a população geral. São eles:
- idosos frágeis e/ou acima de 80 anos
- pessoas com demência
- pacientes com múltiplas doenças crônicas
- doença renal crônica ou hepática
- moradores de Instituições de Longa Permanência para Idosos
- pessoas de baixa renda e menor acesso a acompanhamento contínuo
Entre os medicamentos mais perigosos quando combinados, Maria Cristina destaca:
- anticoagulantes
- anti-inflamatórios não esteroides
- benzodiazepínicos
- alguns analgésicos
— Eles estão muito associados a quedas, sangramentos, confusão mental e outros desfechos sérios — emenda.
Como saber se o tratamento ficou complexo demais?
A resposta costuma começar em casa, com atenção aos sinais e às mudanças no dia a dia. Entender quais remédios estão em uso e observar possíveis efeitos depois de iniciar algo novo são passos importantes para prevenir problemas.
— É fundamental que o paciente ou a família conheça cada medicamento e saiba para que ele serve. Sintomas novos após iniciar uma medicação precisam ser relatados antes de suspender por conta própria — orienta Maria Cristina.
Alguns sinais de alerta:
- tontura, sonolência excessiva ou confusão
- quedas recentes
- início de delírio, agitação ou piora da cognição
- inchaços, sangramentos ou alteração urinária
- piora súbita de doenças controladas

Cuidado ao retirar um remédio
Tirar um medicamento pode ser tão delicado quanto começar um. Em idosos, esse processo exige cuidado, avaliação individual e acompanhamento para evitar efeitos indesejados durante a mudança.
— A desprescrição, especialmente nos idosos, precisa ser orientada. Muitos remédios não podem ser suspensos de forma abrupta, e isso pode causar efeitos desagradáveis ou até graves. O processo deve ser gradual, monitorado e sempre guiado por um profissional de confiança — alerta Maria Cristina.
Isso vale especialmente em épocas de quebra de rotina como férias, feriados e festas de fim de ano, quando a automedicação aumenta e o risco de interações dispara.
— A automedicação segue sendo um problema grave no Brasil. Misturar anti-inflamatórios, analgésicos e medicamentos para dormir com tratamentos contínuos pode gerar interações perigosas — completa a especialista.
Cuidado coordenado e o papel do SUS
Os especialistas ressaltam que é muito difícil gerenciar sozinho um regime complexo de medicamentos. A segurança depende de diálogo entre profissionais, revisão permanente das prescrições e participação ativa do paciente e da família.
Maria Cristina ressalta que, nesse cenário, o papel do farmacêutico clínico ganha destaque. Esses profissionais atuam na análise detalhada das prescrições, identificam interações, ajustam doses, orientam equipes e ajudam a organizar o uso dos medicamentos de forma mais segura.
A especialista aponta ainda que o próprio Sistema Único de Saúde (SUS) tem avançado nessa direção, embora ainda haja lacunas importantes.
— Cada vez mais, a farmácia clínica tem tido um papel importante dentro do SUS. Temos grandes profissionais atuando em postos de saúde, hospitais e na formulação de políticas públicas, garantindo escolhas mais seguras na prescrição. Mas ainda é um espaço pouco ocupado — sinaliza.









