
A paisagem imobiliária de Porto Alegre está mudando. O movimento que antes era dominado por jovens famílias e investidores agora ganha novos protagonistas: pessoas com mais de 60 anos.
Independentes, financeiramente estáveis e com uma ideia muito clara sobre como desejam viver, pessoas que passaram dos 60 já representam 18,4% das vendas de imóveis de alto padrão na Capital, segundo levantamento da Colnaghi Imóveis.
Além disso, a idade média de quem compra propriedades em geral subiu de 43,5 anos em 2020 para 54,2 anos em 2024.
Mais do que números, esses dados refletem um novo olhar sobre o envelhecer e o que significa morar bem. O luxo, para esse grupo, não está em grandes metragens ou acabamentos ostensivos, mas em funcionalidade, localização e conforto contínuo.
60Mais
Luxo da praticidade
Conforme Simone Carvalho, diretora de Assuntos Habitacionais do Sindimóveis-RS, a tendência é fruto de um envelhecimento mais ativo, aliado à mudança de valores.
— O 60+ de hoje é muito diferente do de duas décadas atrás. Ele é autônomo, se mantém socialmente ativo e quer aproveitar essa fase com bem-estar. O que o move é a busca por praticidade, segurança e qualidade de vida — observa.
Ela explica que o conceito de "luxo sênior" vem se consolidando, traduzido em empreendimentos que unem design inteligente e infraestrutura de serviços.
— São prédios com academias adaptadas, piscinas aquecidas, clínicas e spas no térreo, salões de eventos multiuso e áreas verdes projetadas para convivência. Esse tipo de estrutura valoriza a experiência do morador e tem impacto direto no valor do imóvel — detalha.
Menos metragem, mais eficiência

Os incorporadores já começam a perceber o potencial desse nicho. A faixa 60+ tem alto poder aquisitivo, muitas vezes sem dependência de crédito, e representa um consumidor exigente, fiel e estável, qualidades que atraem o mercado.
O que se observa, segundo Marcelo Albert, diretor da Albert Imóveis, é uma inversão de lógica no segmento de alto padrão: imóveis menores, mas com planejamento mais eficiente.
— Hoje, o comprador dessa faixa etária busca menos metros quadrados e mais utilidade por metro quadrado. O espaço deve ter sentido. Cozinhas integradas, suítes amplas, banheiros acessíveis e ambientes com boa iluminação natural são mais valorizados que qualquer sala imensa — resume.
Ele explica que a procura por imóveis compactos, mas sofisticados, vem acompanhada de um movimento de "desfazer-se do excesso".
— Muitos venderam casas grandes, onde criaram os filhos, e agora buscam algo mais funcional. Querem simplificar a rotina sem abrir mão do conforto, e isso exige um novo olhar da arquitetura — diz.
Desejo de viver bem

Por trás da expansão do público que chega à terceira idade está também uma transformação cultural.
Segundo projeção do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), o Brasil terá mais idosos que crianças até 2031, e o Rio Grande do Sul será um dos primeiros estados a atingir esse marco.
Esse envelhecimento populacional não é apenas numérico: ele vem acompanhado de um novo padrão de consumo, de autonomia e de expectativas.
Essas pessoas não estão comprando o último imóvel da vida. Elas estão comprando o melhor momento da vida. É um público que se planeja, quer conforto e vê no lar o centro da experiência de viver bem
MARCELO ALBERT
Diretor da Albert Imóveis
"Vida de calçada"
Em Porto Alegre, entre os bairros preferidos pelo público 60+ estão Moinhos de Vento, Petrópolis, Rio Branco, Mont'Serrat, Jardim Europa e Menino Deus. Todos têm algo em comum: infraestrutura completa e "vida de calçada".
— O relevo da cidade influencia muito. Regiões planas e arborizadas, com farmácias, mercados e cafés a poucos metros de distância, se tornaram prioridade. O morador quer viver o bairro, caminhar, encontrar amigos, sem depender tanto do carro — explica Albert.
Além disso, a proximidade com hospitais, clínicas e centros de saúde é um fator decisivo.
— Esse público é mais atento à manutenção da saúde e prefere estar perto de bons serviços médicos — complementa Simone.
Um público que compra com calma — e à vista

Diferentemente do investidor tradicional, que busca rentabilidade, o comprador com mais de 60 anos faz uma compra emocional e racional ao mesmo tempo.
— É uma decisão de vida. Ele analisa bem a localização, a segurança e a manutenção do prédio. E quase sempre paga à vista, o que dá mais força a esse nicho dentro do mercado — resume Simone.
Esse comportamento também reflete uma visão de patrimônio como herança. Segundo os especialistas, muitos compradores pensam em imóveis que possam ser repassados a filhos ou netos, mantendo o valor agregado e a solidez do investimento.
Demanda reprimida e novos projetos
Apesar do avanço, segundo os especialistas, o mercado ainda não oferece produtos totalmente voltados ao público maduro.
— Porto Alegre tem muito espaço para crescer nessa área. Falta pensar em projetos com design universal, acessibilidade discreta, áreas de lazer adequadas e serviços de conveniência incluídos. Ainda estamos alguns passos atrás de cidades como São Paulo ou Curitiba — afirma Albert.
Nos últimos anos, algumas incorporadoras começaram a testar modelos híbridos entre moradia e bem-estar, inspirados em residenciais norte-americanos e europeus.
Futuro do mercado

Para os próximos anos, o mercado de imóveis de alto padrão em Porto Alegre deve se aproximar mais das necessidades do público 60+.
Apartamentos com automação residencial, iluminação sensorial, portas mais largas, pisos antiderrapantes e varandas amplas ganharão ainda mais atenção.
Além disso, o levantamento da Colnaghi Imóveis mostra que a maioria dessas pessoas dispensa financiamentos, seja por possuir recursos próprios, seja por negociações diretas com as construtoras.
Mesmo com a taxa Selic elevada, o segmento se mantém estável, sustentado pela compra à vista e pelo caráter de segurança e legado familiar que esses imóveis representam.
— Esse público tem tempo, poder de compra e clareza sobre o que quer. O desafio do mercado é acompanhar o ritmo de quem envelhece bem — resume Albert.










