
Para quem passou dos 60 anos, dirigir não é apenas deslocar-se de um ponto ao outro. O carro é, ao mesmo tempo, extensão da autonomia, da rotina e da identidade construída ao longo da vida. Acompanha consultas, viagens, compras e visitas. Mas, sobretudo, representa liberdade.
Muito mais do que desempenho ou estética, o interesse desse público por veículos prioriza facilidade de uso, conforto e segurança.
Segundo Ambrosio Pesce, diretor comercial do Grupo IESA, esse ponto é central para compreender o comportamento de compra.
— (O 60+) É um cliente maduro, que chega com o rumo definido. Talvez não tão informado em detalhes técnicos, mas muito mais consciente do que quer do que a média — explica.
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O SUV se tornou o carro do 60+?
Conforme Pesce, o SUV (Veículo Utilitário Esportivo, do inglês) domina as preferências do público 60+. Mas o motivo não é a moda, e sim a ergonomia.
Enquanto sedãs e hatchs exigem que o motorista "desça" para entrar, o SUV oferece bancos mais elevados, que permitem um movimento natural de entrada e saída, algo que faz diferença principalmente quando há alguma redução de mobilidade ou desconforto articular.
Além disso, a posição de direção mais alta proporciona sensação de segurança e melhor visibilidade do tráfego.
— No sedã, você precisa agachar um pouco mais para entrar. Já no SUV, o acesso é mais amigável para o corpo, facilita muito — detalha Pesce.

Outro aspecto é a adaptação do SUV ao pavimento brasileiro, frequentemente irregular. Buracos, desníveis e lombadas podem representar risco de batidas na parte inferior de carros mais baixos, o que reforça a vantagem da altura e da suspensão mais alta do utilitário esportivo.
Esse movimento se reflete diretamente nas vendas. Conforme Pesce, a procura por modelos SUV é alta nas concessionárias, seja entre os zero quilômetro, seminovos ou usados.
Em 2024, os 10 carros mais vendidos no país dentro da categoria, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), foram:
- Volkswagen T-Cross
- Chevrolet Tracker
- Hyundai Creta
- Nissan Kicks
- Volkswagen Nivus
- Jeep Renegade
- Honda HR-V
- Jeep Compass
- Fiat Fastback
- Toyota Corolla Cross
Conforto e usabilidade
A ergonomia interna do veículo tem peso crescente na decisão de compra. Aqui, entram aspectos como altura do assento, facilidade de localizar comandos, clareza do painel e diminuição do esforço exigido nos movimentos.
Gabriel Gallina, professor de design da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e especialista em acessibilidade, explica que conforto, nesse caso, não é apenas maciez do banco ou sensação de amortecimento, mas a capacidade do carro de operar sem exigir esforço excessivo, concentração adicional ou movimentos desconfortáveis.
— Precisa ser fácil. Sem complicação. A pessoa tem que conseguir entrar e sair do veículo sem esforço, usar direção e pedais sem força. Encontrar e operar os comandos sem confusão. Se tiver que pensar muito para fazer uma ação simples, ele já não atende ao conforto esperado — reforça Gallina.

A abertura da porta e a altura do assento são determinantes. Já suportes laterais e alças superiores ajudam na estabilidade.
— Às vezes, o que faz diferença não é o tipo de carro, mas detalhes como ter alças de apoio para entrar, regulagens elétricas dos bancos, abertura ampla da porta. Isso é ergonômico, porque respeita o corpo do usuário — elucida o professor.
Híbridos e elétricos
Outro movimento que se consolida para os idosos são as novas tecnologias de mobilidade, como carros híbridos e elétricos.
Diretor comercial do Grupo IESA, Ambrosio Pesce observa que, ao contrário do que muitos supõem, a resistência não é maior entre os mais velhos.
— Tenho vários casais com mais de 60 que compraram carro elétrico. Eles têm tempo para viajar, planejar as rotas, parar para carregar. Isso deixa de ser um problema — argumenta.
Não por acaso, elétricos e híbridos como BYD Song Plus (16º), GWM Haval H6 (17º), BYD Song Pro (22º), GWM H6 GT (28º) e Volvo XC60 (30º) apareceram entre os 30 SUV mais vendidos do Brasil em 2024.
Muitos modelos elétricos trazem painéis totalmente digitais, o que poderia sugerir barreira, mas Gallina acrescenta que o impacto depende mais da clareza da interface do que da tecnologia em si.
— Geralmente, essas interfaces são intuitivas. O que atrapalha é quando o painel é muito elaborado, cheio de camadas ou botões pequenos. Com o tempo, algumas tecnologias viram barreira, então a tela precisa ser simples, com fonte grande e contraste claro — ressalta.

O que pesa na decisão
Ao contrário de públicos mais jovens, para quem estética e performance podem ser decisivas, quem tem mais de 60 anos costuma priorizar:
- conforto dos bancos
- espaço interno
- acabamento
- comandos simples e visíveis
- acesso ao veículo sem esforço
- sensação de segurança durante a condução
— O conforto é o mais importante. Eles não trabalham com a ideia de motores potentes. E se o carro é mais bonito ou menos bonito, isso não pesa tanto — detalha Pesce.
Além de airbags e freios ABS, cresce também a busca por assistências que previnem acidentes:
- alerta de colisão frontal
- frenagem automática de emergência
- monitoramento de ponto cego
- câmeras e sensores de estacionamento
- controle de estabilidade
- faróis LED para melhor visão noturna
Gallina acrescenta que o carro precisa ter tolerância ao erro, especialmente para quem pode apertar um botão errado ou reagir com mais lentidão a estímulos.
— O carro precisa ser ajustável nos alertas sonoros e visuais. Se o aviso é forte demais, ele assusta. Se é fraco demais, passa despercebido. É essa calibragem que ajuda o motorista a se sentir seguro — reforça o professor.
Ao fazer o test drive, motoristas devem prestar atenção nas questões sensoriais e práticas do veículo.
— O que o motorista precisa perceber é se tudo é fácil. Se a direção é leve, se o câmbio automático responde sem tranco, se há boa visibilidade, se a baliza é auxiliada por câmeras e sensores. O carro certo é o que não exige esforço — exemplifica Gallina.
Quando dirigir deixa de ser seguro
A decisão de parar de dirigir raramente parte da própria pessoa, porque o carro representa autonomia, comenta Gallina. Por isso, o olhar da família é crucial.
— Às vezes, não é o veículo que precisa mudar, é o condutor. Com o tempo, a reação fica mais lenta, e isso aumenta o risco. A família precisa observar esses sinais com cuidado, porque o motorista dificilmente vai admitir sozinho — complementa o professor.












