
Era manhã de sol no espelho d’água do Parque da Redenção, em Porto Alegre, quando Susan Stone, 66 anos, e o filho Paulo, 38, alinhavam o ritmo dos passos.
De tênis de corrida, roupa colorida e semblante alegre, mãe e filho dividem mais do que a pista: partilham uma história de décadas construída em torno do esporte, da superação e da convivência.
— Nascemos dentro do atletismo. Foi por causa dela (Susan) que tudo começou — conta Paulo, lembrando que a mãe, professora de educação física, sempre foi atleta e referência de disciplina.
A história dos dois com o atletismo começou ainda no ventre da mãe. Em 1986, Susan treinava para sua primeira maratona quando uma dor no treino mudou o rumo da corrida — e da vida.
Senti dor de barriga e encerrei o treino ali. Quando contei para minha mãe ela disse: "tu tá grávida" (sic). E estava mesmo!
SUSAN STONE
Professora de Educação Física
Trinta e sete anos depois, mãe e filho cruzaram juntos a linha de chegada da Maratona de Valência, na Espanha.
— Depois de 38 anos que eu interrompi os treinos da mãe, completamos nossa primeira maratona juntos — brinca Paulo.
Atualmente, a rotina deles alterna treinos em Porto Alegre e Santo Antônio da Patrulha.
— Nossa vida é a corrida. Nossa conversa é a mesma, nossos passeios são os mesmos. Temos os mesmos objetivos. O exercício junto melhora tudo na vida — resume Susan.
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"Hipótese da vovó"

Cenas como essa, de pais, filhos e até netos compartilhando movimento, são mais do que simbólicas: podem ajudar a prolongar a vida.
Um estudo conduzido por pesquisadores de Berlim, na Alemanha, e publicado em 2017 na revista Evolution and Human Behavior, acompanhou 500 pessoas entre 70 e 103 anos ao longo de 19 anos e revelou que avós que convivem com netos têm uma expectativa de vida significativamente maior.
Segundo os pesquisadores, essa convivência está associada a uma redução de 37% no risco de mortalidade — ou seja, essas pessoas tendem a viver mais tempo do que aquelas que não mantêm esse tipo de relação próxima.
O efeito, explicam os autores, está ligado ao impacto positivo do convívio intergeracional sobre o bem-estar emocional, a motivação e a saúde física dos idosos.
A convivência regular prolongou a vida dos idosos em até 10 anos. Os autores explicam que essa dinâmica reforça a chamada "hipótese da vovó", teoria evolutiva segundo a qual os mais velhos continuam exercendo papel essencial na sobrevivência da espécie ao cuidar e orientar as gerações seguintes.
Além dos benefícios biológicos, o convívio proporciona propósito, engajamento e motivação, fatores associados à saúde mental e física.
— Dedicar-se a atividades prazerosas possibilita a reconstrução de significados e de um novo senso de propósito — destaca o psicólogo Wanderson Neves, do grupo Mantevida.
A convivência entre gerações — conceito conhecido como intergeracionalidade — é, segundo Neves, um dos pilares do envelhecimento ativo proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O especialista lembra que o lazer e o movimento conjunto aumentam a autoestima, reduzem sintomas de depressão e estimulam a cognição, atuando como "exercício para o corpo e para a mente".
Corpo em movimento, mente em equilíbrio

No aspecto físico, os ganhos são amplos. O ortopedista Pedro Ribeiro, especialista em medicina do esporte, reforça que o exercício regular é uma das formas mais eficazes de prevenir a perda de massa muscular: a chamada sarcopenia, comum após os 60 anos.
— A perda de força é natural, mas não inevitável. Treinos de fortalecimento e atividades aeróbicas ajudam a manter a autonomia e evitam quedas — explica.
Além de preservar a musculatura, o movimento ajuda no controle de doenças crônicas como hipertensão e diabetes, melhora o humor, o sono e a socialização.
— A musculatura mais forte garante não apenas estabilidade, mas também qualidade de vida — completa Ribeiro.
Entre as atividades mais indicadas estão caminhada, pilates, hidroginástica e musculação, sempre com avaliação médica prévia e acompanhamento profissional.
— O segredo está na consistência. Treinos leves e regulares são mais eficazes que esforços intensos e esporádicos — reforça o ortopedista.
Afeto como combustível

Mais do que performance, o que motiva pais, filhos e netos a se exercitarem juntos é o prazer do encontro. A psicologia positiva chama isso de "flow" — o estado em que o desafio e o prazer se equilibram, gerando satisfação profunda —, conceito elaborado pelo psicólogo húngaro-americano Mihaly Csikszentmihalyi (1934-2021).
— O foco não deve estar no resultado, mas no processo. Valorizar o momento presente e compartilhar o tempo é o que realmente fortalece o bem-estar — explica o psicólogo Wanderson Neves.
Para Susan e Paulo, mãe e filho, o treino é um ritual de afeto, troca e convivência.
— Sempre fazia a brincadeira com ele: "“Quando tu conseguir me ganhar, é porque tá ficando bom" (sic) — conta a mãe, sorrindo.
Paulo ri e completa:
— Estamos sempre próximos. Quando dá para se ajudar, a gente se ajuda, cada um no seu treino.
Dicas para praticar exercícios sem lesões
O ortopedista Pedro Ribeiro lista algumas orientações para quem quer começar (ou retomar) a rotina de atividades:
- Avaliação médica prévia: ajuste o treino a suas condições físicas
- Aquecimento: prepara o corpo e reduz distensões musculares
- Respeite os limites: a progressão deve ser gradual
- Postura correta: evita sobrecarga em articulações
- Prefira baixo impacto: caminhadas, pilates e hidroginástica são ideais
- Hidratação: essencial para evitar fadiga muscular
- Acompanhamento profissional: garante segurança e eficácia
Atividade física em família: por onde começar
- Escolha um lugar agradável: parques, praças e ciclovias são ideais
- Defina um horário fixo: ajuda na criação do hábito
- Estabeleça metas leves: como 30 minutos de caminhada, três vezes por semana
- Transforme o treino em lazer: leve música, lanche ou convide mais familiares
- Celebre pequenas vitórias: mais do que performance, o importante é estar junto












