
Neste domingo (21), o mundo volta os olhos para uma das maiores preocupações de saúde pública do século: o Alzheimer. Lembrado como o Dia Mundial de Conscientização sobre o Alzheimer, o momento busca reduzir o estigma em torno da doença e ampliar o acesso a informações sobre diagnóstico, tratamento e cuidados.
No Brasil, estima-se que cerca de 1,8 milhão de pessoas convivam com algum tipo de demência, sendo o Alzheimer a forma mais comum, responsável por mais da metade dos casos.
A doença progride de forma lenta e contínua, com perda gradual de memória, linguagem e raciocínio, avançando até comprometer a autonomia do paciente, o que torna essencial o diagnóstico precoce e o acompanhamento especializado.
Embora ainda não exista cura, especialistas ressaltam que é possível retardar a progressão dos sintomas, preservar a qualidade de vida e preparar as famílias para os cuidados em cada etapa.
— O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que provoca a morte gradual de neurônios. Ele não faz parte do envelhecimento normal, mas sim de um processo patológico marcado pelo acúmulo de proteínas tóxicas no cérebro. A medida em que essas proteínas se espalham por diferentes áreas cerebrais, os sintomas se diversificam e se agravam — explica Eduardo Rigon Zimmer, neurocientista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Lucas Porcello Schilling, professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e pesquisador do Instituto do Cérebro (InsCer), complementa:
— Temos hoje evidências claras de que o Alzheimer está relacionado a duas proteínas, a beta-amiloide e a tau. A primeira se deposita em placas entre os neurônios, enquanto a segunda forma emaranhados dentro das células nervosas. Essa combinação leva à degeneração neuronal, principalmente em regiões ligadas à memória, como o hipocampo, e depois atinge funções de linguagem, raciocínio e percepção espacial.
Envelhecimento normal ou sinal de alerta?

Um desafio comum é diferenciar o esquecimento natural da idade dos primeiros sinais da doença. Esquecer onde deixou os óculos, por exemplo, é normal. Mas quando a dificuldade se torna repetitiva e compromete a rotina, é preciso atenção.
— O ponto de corte é o impacto funcional. Esquecer um detalhe não preocupa tanto. Mas se a pessoa passa a não conseguir administrar contas, se perde em caminhos conhecidos ou esquece de tomar os remédios com frequência, é hora de investigar — explica Zimmer.
Segundo Schilling, alterações cognitivas podem ter outras causas, como depressão, deficiência de vitamina B12 ou distúrbios da tireoide.
— Por isso, o diagnóstico precoce é essencial: quanto antes a investigação começar, maiores as chances de retardar a progressão — reforça.
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Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico do Alzheimer é clínico, baseado em consulta médica, avaliação do histórico familiar e testes neuropsicológicos. Exames de sangue e de imagem ajudam a descartar outras doenças.
Nos últimos anos, o Brasil avançou em biomarcadores que tornam o diagnóstico mais preciso:
- Punção lombar (líquor): identifica alterações de beta-amiloide e tau no líquido cérebro-espinhal
- PET Scan (Tomografia por Emissão de Pósitrons): exame de imagem que mostra áreas cerebrais comprometidas
- Exames de sangue: ainda em fase de validação, prometem ser mais baratos e acessíveis, podendo futuramente ser incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS)
— Hoje, já conseguimos identificar Alzheimer em fases muito iniciais com líquor e PET. No futuro, exames de sangue permitirão rastrear a doença em larga escala, o que será uma revolução no cuidado — aponta Schilling.
Os quatro estágios do Alzheimer
A evolução do Alzheimer costuma ser dividida em quatro fases. Entender cada uma ajuda a família a se preparar para os desafios do cuidado.
O neurocientista Eduardo Rigon Zimmer explica que o cérebro é formado por diferentes regiões, como se fossem “caixinhas”, cada uma responsável por uma função específica. Essas áreas se conectam e trabalham em conjunto. Entretanto, à medida que cada região vai sendo afetada pela doença, os sintomas vão se modificando e se tornando mais evidentes.
— O importante é entender que, quando se tem o diagnóstico, esse indivíduo pode ter um longo período sem chegar ao declínio cognitivo. Se buscar ajuda cedo, ainda terá uma longa fase de vida relativamente bem — ressalta.
Estágio inicial
Pequenos esquecimentos, dificuldade para encontrar palavras, mudanças de humor. A pessoa ainda mantém autonomia, mas precisa de supervisão em tarefas mais complexas.
— Nessa fase, estimular a cognição é fundamental. Jogos, leitura, conversas e atividades em grupo podem ajudar a fortalecer conexões cerebrais e retardar sintomas — orienta Zimmer.
Estágio moderado
Aparecem dificuldades para realizar tarefas simples, como cozinhar ou usar telefone. O paciente pode ter insônia, agitação e desorientação.
— É o momento em que a família precisa adaptar a rotina, estabelecer horários fixos e criar ambientes seguros, evitando riscos de acidentes domésticos — explica o professor Lucas Porcello Schilling.
Estágio grave
O paciente perde autonomia, apresenta incontinência, dificuldade para se alimentar e mobilidade reduzida. Pode resistir a cuidados.
— É uma fase que exige acompanhamento profissional mais próximo. A sobrecarga do cuidador é grande, e o apoio psicológico da família se torna indispensável — alerta Zimmer.
Estágio terminal
O paciente fica restrito ao leito, perde a fala e pode ter dificuldade para engolir, além de maior suscetibilidade a infecções.
— O foco deve ser o cuidado paliativo, buscando conforto, alívio da dor e dignidade. É um momento de decisão compartilhada entre familiares e equipe de saúde — destaca Schilling.
Tratamentos disponíveis

Não há cura para o Alzheimer, mas existem medicamentos que retardam a evolução e aliviam sintomas. O SUS fornece gratuitamente remédios como Donepezila, Rivastigmina, Galantamina e Memantina, além da versão adesiva da Rivastigmina, que reduz efeitos gastrointestinais.
— Esses fármacos não impedem a doença, mas ajudam a manter a cognição por mais tempo e reduzem sintomas comportamentais. Além disso, novas terapias biológicas, chamadas anti-amiloide, começam a chegar ao Brasil, capazes de remover placas da proteína beta-amiloide. Ainda são caras e restritas ao setor privado, mas representam uma nova era de tratamento — explica Schilling.
Entre essas novas opções está o Kisunla (donanemabe), aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril de 2025. Desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly, o medicamento atua diretamente nos aglomerados da proteína beta-amiloide, ligando-se a essas placas no cérebro e ajudando a removê-las. O efeito é retardar a progressão do comprometimento cognitivo e funcional.
O Kisunla é indicado apenas para os estágios iniciais da doença — quando há comprometimento cognitivo leve ou demência leve, mas o paciente ainda mantém boa parte da independência.
— O paciente precisa estar em um critério muito específico para usar, que envolve estar no estágio inicial da doença, e o tratamento é muito caro. Ele não cura a doença, só diminui a sua progressão — alerta Zimmer.
O preço no Brasil ainda será definido, mas nos Estados Unidos o tratamento custa cerca de US$ 32 mil por ano (aproximadamente R$ 170 mil, na cotação atual), o que levanta dúvidas sobre a acessibilidade da nova terapia.
Tratamento não medicamentoso
Apesar de os fármacos disponíveis serem importantes, os especialistas ressaltam que o tratamento não medicamentoso também é essencial. De acordo com eles, manter estímulo cognitivo constante, por meio de leitura, jogos ou música, ajuda a preservar funções cerebrais.
A atividade física regular contribui para a circulação sanguínea e a saúde do cérebro. Já uma vida social ativa combate o isolamento e a depressão, fatores que aceleram o declínio. Além disso, uma alimentação equilibrada e sono de qualidade completam o cuidado, ampliando a longevidade e a qualidade de vida do paciente após o diagnóstico.
— O cérebro é plástico. Quanto mais conexões neurais a pessoa constrói ao longo da vida, mais tempo ela pode resistir ao impacto das lesões do Alzheimer — resume Zimmer.
Papel da família e dos cuidadores
O Alzheimer não afeta apenas o paciente: transforma toda a dinâmica familiar. Em algum momento, a pessoa perde a capacidade de tomar decisões sobre a própria saúde, e cabe aos familiares assumir responsabilidades médicas, financeiras e afetivas.
— Claro que a gente entende que existe um momento em que o paciente perde, por vezes, a capacidade de tomar decisões em relação à sua saúde. E aí outra pessoa, seja familiar ou cônjuge, acaba assumindo esse papel. O problema é que, muitas vezes, no Brasil, há também uma dificuldade econômica: o familiar mais próximo deixa de trabalhar para cuidar daquele idoso, o que é muito difícil — observa Schilling.
Nessas situações, cada família deve avaliar, dentro do seu cenário e das suas possibilidades, qual é a melhor forma de lidar com a doença. O ideal é que exista um diálogo prévio com o paciente sobre como gostaria de ser cuidado. Se isso não ocorreu, é fundamental que a decisão seja tomada de forma compartilhada entre os familiares, evitando sobrecarga em apenas uma pessoa.
— Sempre aconselho que seja uma decisão construída em consenso, não apenas de um filho ou do cônjuge. Não existe resposta pronta: cada caso deve ser avaliado conforme a realidade da família e o que o paciente já manifestou como desejo em vida — acrescenta o especialista.
Quando os cuidados em casa não são mais possíveis, a institucionalização pode ser uma alternativa viável, desde que em locais com profissionais capacitados, boas práticas e um olhar humanizado. Essa escolha, porém, deve ser encarada sem tabu: não significa abandono, mas sim uma busca por garantir a segurança, o conforto e a dignidade do paciente.
Além disso, é preciso atenção à saúde emocional dos cuidadores. Síndromes de exaustão, como a chamada “síndrome do cuidador”, são frequentes. Dividir responsabilidades, buscar grupos de apoio e aceitar ajuda profissional são medidas que preservam não apenas a qualidade de vida do paciente, mas também a da família.
Fatores de risco e prevenção
Embora a causa exata do Alzheimer ainda seja desconhecida, a ciência já identificou 14 fatores de risco modificáveis associados ao desenvolvimento da demência. Isso significa que, mesmo sem cura, é possível adotar medidas para reduzir as chances ou, ao menos, adiar a manifestação da doença.
— Estima-se que até 55% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados com mudanças de estilo de vida — explica Schilling.
Zimmer reforça que o principal fator no Brasil é a escolaridade.
— Educação é o principal fator para o declínio cognitivo no país. Quanto menos anos de estudo uma pessoa tem, maior é o risco. Só o acesso à educação formal já reduz em cerca de 5% a chance de desenvolver demência. Por isso, a prevenção começa cedo, ainda na infância, garantindo oportunidades de aprendizado e estímulo — afirma.
Além da baixa escolaridade, os especialistas listam outros fatores de risco:
- Trauma cranioencefálico
- Sedentarismo
- Tabagismo
- Hipertensão arterial
- Diabetes
- Obesidade
- Perda auditiva não tratada
- Depressão
- Isolamento social
- Poluição do ar
- Perda de visão não corrigida
- Níveis altos de colesterol ruim (LDL)
- Consumo excessivo de álcool
O que fazer para reduzir riscos
As principais recomendações dos médicos incluem:
- Estimular o cérebro desde cedo com estudo, leitura e aprendizado contínuo
- Praticar atividade física regular
- Tratar doenças crônicas como hipertensão e diabetes
- Cultivar laços sociais e evitar o isolamento
- Ter alimentação equilibrada e sono de qualidade
- Evitar cigarro e excesso de álcool
O recado é claro: prevenir a demência não começa na velhice, mas ao longo de toda a vida. Quanto mais cedo houver estímulo cognitivo e cuidados com a saúde, maiores são as chances de envelhecer com qualidade de vida.
Perspectivas para o futuro
O Brasil tem se consolidado como um polo de pesquisas inovadoras no campo da neurociência. Um dos principais projetos em andamento é a Iniciativa Brasileira de Biomarcadores para Doenças Neurodegenerativas, coordenada pelo professor da UFRGS Eduardo Rigon Zimmer.
O estudo, financiado pela Secretaria Estadual da Saúde do RS e pelo Ministério da Saúde, busca validar exames de sangue capazes de identificar sinais da Doença de Alzheimer antes mesmo do aparecimento dos sintomas.
— Nós no Rio Grande do Sul coordenamos esse estudo pioneiro. São 10 cidades parceiras no Estado, e em cada uma delas serão coletadas amostras de sangue de 300 pessoas, totalizando 3 mil voluntários. Todos são indivíduos neurologicamente saudáveis, ou seja, sem sintomas — explica o neurologista.
O objetivo é duplo:
- Estabelecer valores de referência para o exame, como ocorre hoje com a glicose, por exemplo
- Medir quantas pessoas acima dos 50 anos já apresentam indícios de alterações cerebrais, mesmo sem sinais clínicos de demência
Se validado, o exame poderá ser de baixo custo e incorporado ao SUS, tornando-se uma ferramenta importante e acessível para diagnóstico precoce e prevenção em larga escala.
— Detectar Alzheimer antes do aparecimento dos sintomas será decisivo para mudar a história da doença. Precisamos preparar o país para o que vem pela frente. É um estudo pioneiro, com impacto mundial. Mas, além da ciência, é fundamental popularizar o conhecimento, reduzir o estigma e garantir que as pessoas possam viver com dignidade — destaca Zimmer.
No Dia Mundial de Conscientização sobre o Alzheimer, a mensagem dos especialistas converge: informação é o primeiro passo.
— O Alzheimer não é apenas um problema médico, é um desafio social, que exige preparo da família, do sistema de saúde e da comunidade — conclui o professor Schilling.
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