
Envelhecer é uma experiência inevitável, mas também carregada de sentimentos ambíguos. Se de um lado, há a expectativa de viver mais tempo com qualidade, de outro, emergem receios profundos: a perda da autonomia, o medo da solidão, o estigma social, a fragilidade física e a própria finitude da vida.
Esses medos, quando não reconhecidos ou trabalhados, podem comprometer não apenas a saúde mental, mas também a qualidade de vida dos idosos.
Na próxima quarta-feira (1º), é celebrado o Dia do Idoso, data que evidencia a importância do processo de envelhecimento na vida da população brasileira. E uma pesquisa inédita realizada com 500 adultos de todas as regiões do país, liderada pela empresa de saúde e longevidade Vhita, confirma que os receios citados estão no centro da percepção dos brasileiros sobre o envelhecer.
O levantamento apontou que 71% temem limitações físicas e dores frequentes, 66% a perda de foco, memória ou clareza mental e 58% a perda da autonomia no dia a dia.
Também apareceram entre as preocupações a dependência emocional de outras pessoas (48%) e a dificuldade de manter hábitos saudáveis (35%).
Apesar disso, os resultados sugerem uma mudança de percepção em curso: 44% dos entrevistados afirmaram ter superado visões negativas sobre envelhecer e 55% disseram adotar práticas regulares de autocuidado, em busca de uma velhice mais ativa e saudável.
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Autonomia e solidão no centro das preocupações
A psicóloga e professora da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS, Irani Argimon, explica que os medos ligados ao envelhecer atravessam diferentes faixas etárias, mas ganham força entre os mais velhos.
— O mais comum é o receio de perder a autonomia, de não conseguir realizar atividades básicas sozinho e depender da família. Muitas pessoas dizem: “quero viver bastante, mas sem depender de ninguém”. Também estão muito presentes o medo do declínio físico e cognitivo, da solidão e do abandono — afirma.
Segundo a psicóloga, há ainda diferenças de gênero no modo como esses temores se expressam:
- Mulheres: o envelhecimento costuma ser acompanhado por maior pressão estética e pela desvalorização social da velhice feminina
- Homens: o temor aparece com mais intensidade na perda de papéis produtivos, em especial no momento da aposentadoria
— Em comum, homens e mulheres carregam o risco de deixar projetos e sonhos para “depois da aposentadoria”, e, quando esse momento chega com limitações, surge um sentimento de fracasso — explica.

O levantamento da Vhita reforça essa percepção: 57% dos entrevistados afirmaram que “envelhecer bem” significa preservar autonomia e independência, enquanto 75% destacaram a importância de manter a mente ativa e com boa memória.
Irani avalia que, embora a sociedade brasileira esteja em processo de mudança, a velhice ainda é cercada de tabus.
— Há mais valorização do envelhecer ativo, das redes de apoio e da experiência, mas ainda temos muito o que avançar. Estratégias de convivência comunitária, práticas preventivas e a participação em grupos sociais são fundamentais para ressignificar essa etapa da vida e reduzir os medos — destaca.
Ela reforça também o papel essencial da família.
— Muitas vezes, é a própria família que limita o idoso, que não o inclui em programas ou que decide por ele. O apoio familiar é vital para que essa passagem do tempo seja mais leve, favorecendo autonomia e bem-estar — completa.

Diferentes olhares sobre a velhice
Entre os medos e expectativas do envelhecer, a família Schaumile de Oliveira mostra como diferentes gerações lidam com o tema. Aremari Lencina Schaumile, 66 anos, lembra que a ideia de envelhecer já lhe causou receio, sobretudo pelo medo da solidão.
— Eu tinha muito medo de envelhecer e ficar sozinha. Vejo tantas pessoas mais velhas sendo deixadas de lado pela família, em asilos, e achava isso muito triste. Mas depois que entrei em um grupo de Maturidade Ativa (no Sesc), tudo mudou. Passei a conviver com outros idosos saudáveis, fiz novas amizades, entrei em grupos. Hoje não tenho mais medo de envelhecer. E, além disso, vim morar com minhas filhas e meus netos. Não me sinto velha: me sinto jovem, com vida pela frente — conta a matriarca.
Para ela, envelhecer bem significa cuidar da saúde e preservar a convivência familiar.
— Ter uma vida saudável, uma convivência gostosa com a família, companhias agradáveis e praticar atividades físicas. Isso é envelhecer bem — define.
A filha, Alessandra Schaumile de Oliveira, 35 anos, também compartilha o receio da perda de relevância social e da solidão.
— Meu medo ao envelhecer é a doença, a perda da relevância social e do convívio. Para mim, envelhecer bem é ter saúde e não ficar sozinha. Observando minha mãe aos 66 anos, vejo que é possível envelhecer com qualidade, porque ela participa de programas sociais, convive com pessoas da mesma idade e não fica restrita em casa. Isso mostra que dá para ter uma velhice ativa e saudável — afirma.
Até o neto, Enzo Rudimar Lencina Schaumile de Oliveira, 10 anos, já pensa no tema. Para ele, o envelhecer está associado a projetos de futuro e ao exemplo da avó.
— Eu penso que envelhecer deve ser legal, porque a minha avó é assim. Envelhecer bem é não ficar sozinho, ter amigos de verdade e saúde. Para o meu futuro, tenho três planos: investir, ser jogador de futebol e continuar fotografando, porque eu gosto muito de tirar fotos — diz.
O pai de Enzo, Rossano Machado de Oliveira, 50 anos, resume a visão de envelhecer em uma palavra: cuidado.
— Quando penso em envelhecer, penso em ser cuidado. É um assunto difícil, porque a gente vive o dia a dia sem refletir muito sobre isso, mas no fundo é isso: como vou ser cuidado no futuro. Para mim, envelhecer bem seria morar na praia e vender peixe — projeta, rindo.
Impacto dos medos na saúde e na vida social
Para a pedagoga e gerontóloga Cláudia Alves, o medo, quando se torna excessivo, pode se transformar em barreira invisível que limita o idoso.
— Há quem, com receio de cair, evite sair de casa; quem, por medo de julgamentos, deixe de participar de atividades em grupo; ou quem desenvolva ansiedade diante da incerteza do futuro. Esse isolamento fragiliza a saúde física e mental, criando um ciclo de solidão e adoecimento — analisa.
Segundo Cláudia, a família pode ser um antídoto contra esses sentimentos.
— Escutar e acolher as angústias já é um gesto de cuidado. Muitas vezes, não se trata de dar soluções prontas, mas de criar um ambiente de confiança, em que o idoso saiba que não está sozinho. A presença, seja acompanhando em consultas ou incentivando atividades sociais, faz toda a diferença — destaca.
Ela acrescenta que o próprio idoso também pode se fortalecer diante dos medos.
— É preciso reconhecer que o medo faz parte da vida, mas não pode ser maior do que a vontade de viver. Manter-se ativo, cultivar hobbies, buscar novos aprendizados e fortalecer vínculos são caminhos para renovar a autoestima e dar mais leveza ao envelhecer — sugere.
O estudo da Vhita mostra que muitos brasileiros já estão tentando seguir esse caminho:
- 78% afirmaram cuidar da alimentação
- 76% praticam exercícios regularmente
- 36% buscam apoio em terapia ou atividades voltadas à saúde mental
A estética também aparece, mas em menor peso: 54% consideram que envelhecer bem inclui cuidar da aparência e evitar sinais da idade.
Estigmas e tabus da velhice
O psicanalista Jarbas Caroni reforça que a perda da autonomia é o maior temor de quem envelhece, mas lembra que os receios se entrelaçam.
— A saúde frágil, a solidão e as dificuldades financeiras intensificam esse sentimento. O que mais apavora é não poder decidir sobre si mesmo, não conseguir escolher o próprio caminho. É nesse ponto que o medo ganha força — afirma.
Para Caroni, a sociedade ainda trata a velhice como um tabu. O especialista ressalta que o envelhecer é muitas vezes silenciado, como se fosse algo a ser evitado, e o valor excessivo dado à juventude acaba reduzindo o espaço para que o idoso seja protagonista da própria história.
Ele defende que, enquanto esse olhar não mudar, continuaremos alimentando medos que poderiam se transformar em respeito e celebração da vida. Os estigmas culturais, segundo o psicanalista, reforçam esses receios.
— O principal erro é acreditar que envelhecer é sinônimo de inutilidade. Outro é associar velhice à doença, como se todo idoso fosse frágil ou dependente. E a ausência de representações positivas na mídia também contribui para essa visão distorcida — pontua.
Preparação emocional e políticas públicas
Caroni também defende que políticas públicas são fundamentais para reduzir a insegurança entre os mais velhos. Para ele, não basta garantir acesso à saúde: é necessário investir em espaços de convivência, programas culturais e oportunidades de participação ativa.
— Quando o idoso sente que ainda pertence, que ainda tem valor, o medo cede espaço à confiança — avalia.
Ele ressalta ainda que o preparo individual faz diferença no modo como cada pessoa encara a velhice. O planejamento financeiro é parte do processo, mas cultivar relações, manter a mente ativa, alimentar a espiritualidade e praticar atividade física são fatores que preservam a autonomia e fortalecem corpo e mente.
— Envelhecer não é perder, é transformar — resume.
Trilha da longevidade
Fundado em 1994 em Veranópolis, o Instituto Moriguchi nasceu da visão do médico e geriatra Emilio Hideyuki Moriguchi, PhD em medicina pela Universidade de Tokai, no Japão. Desde então, tornou-se referência nacional em pesquisas e práticas voltadas ao envelhecimento, unindo ciência e cotidiano para promover saúde, qualidade de vida e longevidade.
O instituto trabalha de forma interdisciplinar, reunindo profissionais de diferentes áreas em torno de um mesmo objetivo: transformar a maneira como a sociedade encara o processo de envelhecer. Mais do que acrescentar anos à vida, a missão é acrescentar vida aos anos — com autonomia, vitalidade e propósito.
Para o doutor Moriguchi, os maiores medos dos brasileiros em relação à velhice ainda estão ligados às doenças e ao tabu que envolve esse período da vida. Ele reforça que o convívio social e o papel da família são pilares para reduzir inseguranças.
— Os idosos podem enfrentar os receios da vida com boas companhias, família e amigos. Ninguém envelhece bem sozinho — resume.
Nesse espírito, o Instituto estruturou a chamada Trilha da Longevidade, um guia prático inspirado em hábitos de vida saudáveis e sustentáveis, que unem ciência, tradição e sabedoria popular. O caminho para envelhecer bem passa por:
- Espiritualidade ou religiosidade sem preocupação com a finitude
- Sono de qualidade à noite e pequeno repouso após o almoço
- Envolvimento e sentimento de pertencimento na comunidade
- Amizades sólidas, presentes e leais
- Reconhecimento e respeito como fonte de sabedoria para os mais jovens
- Alimentação com vegetais, frutas e proteínas de origem orgânica
- Consumo de frutas de pomar ou silvestres em todas as estações
- Ovos, leite, derivados e proteína animal produzidos de forma tradicional
- Não fumar ou manter-se livre de vícios
- Prevenção e diagnóstico precoce com acompanhamento médico
- Manejo equilibrado do estresse e das preocupações
- Sentimento de importância no trabalho, seja laboral ou doméstico
- Atividade física de baixa e média intensidade
- Propósito de vida, metas e planos para o futuro com sustentabilidade
- Convivência familiar ativa e incentivadora
- Consumo disciplinado e regular de água, mesmo sem sede
- Uva Isabel como fruta, passa, geleia ou suco, pela riqueza em resveratrol
- Verduras e legumes da própria horta ou em trocas com vizinhos, sempre de origem orgânica
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