
Quando o administrador aposentado Walter José Gunther, 89 anos, começou a se queixar de cansaço de maneira cada vez mais recorrente, um sinal de alerta se acendeu para sua filha, a engenheira Karen Medeiros Gunther Figueiredo, 59. O idoso vivia com autonomia, mas há sete anos passou a andar mais lentamente, sentir dificuldade de levantar da cadeira e rejeitar a ideia de fazer qualquer tipo de esforço. Acima do peso, mas visivelmente fraco, Walter foi diagnosticado com obesidade sarcopênica.
Trata-se de uma condição pouco conhecida pela população, mas que acomete ao menos 11% dos idosos no mundo, conforme projeção de um estudo publicado no Metabolism Journal.
A doença consiste na junção de duas enfermidades: a obesidade, caracterizada pelo excesso de gordura corporal, e a sarcopenia, definida pela escassez de massa muscular.
Consequências para a saúde
A condição atinge principalmente os idosos e pode trazer diversas consequências, como explica a médica Fernanda Cocolichio, especialista em Geriatria pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA):
— A obesidade sarcopênica impacta totalmente a qualidade de vida dos idosos, porque altera a mobilidade, reduz a autonomia e aumenta o risco de quedas e fraturas. Ela também está associada a uma série de desfechos negativos, aumentando o risco de se desenvolver diabetes e doenças cardiovasculares como o AVC.
Sinais de alerta
A geriatra observa que, diferentemente da sarcopenia tradicional, a obesidade sarcopênica se manifesta em idosos que também apresentam sobrepeso, o que pode mascarar a percepção da fraqueza muscular por parte de familiares ou cuidadores.
Segundo a médica, é crucial que a rede de apoio do idoso esteja atenta aos sinais que apontam para a associação da sarcopenia à obesidade. São eles:
- Fadiga excessiva
- Dificuldade para sentar e levantar
- Cansaço ao subir poucos lances de escada
- Problemas para carregar objetos leves
Falta de equilíbrio
Foram esses sintomas que chamaram a atenção de Karen para a condição do pai. Ao notar o declínio na força e na disposição de Walter, a engenheira buscou orientação profissional.
Karen queria entender se as queixas poderiam ser encaradas como naturais do envelhecimento ou se evidenciavam algum problema de saúde — uma postura crucial para o diagnóstico precoce, como observa a geriatra
— Nunca é normal que um idoso, ainda que obeso, sinta dificuldade para executar atividades simples do dia a dia ou apresente fadiga excessiva. Se ele tiver esses sintomas, provavelmente eles não estarão sendo causados somente pelo excesso de peso, mas também pelo comprometimento da musculatura, o que indica a associação da sarcopenia. Então, é muito importante estar atento e buscar orientação de um geriatra — diz Fernanda.
Como é o diagnóstico
O diagnóstico da obesidade sarcopênica vai além da observação do peso ou do índice de massa corporal (IMC) do idoso, explica a geriatra. É necessário realizar uma análise ampla do histórico médico, além de exames específicos.
Um dos testes mais comuns é a aferição da força de preensão palmar, que mede a força que o idoso consegue exercer ao apertar um objeto com a mão. O exame de densitometria de composição corporal também é um aliado importante, pois permite calcular a exata proporção de músculo, gordura e ossos do idoso.
A obesidade sarcopênica impacta totalmente a qualidade de vida dos idosos, porque altera a mobilidade, reduz a autonomia e aumenta o risco de quedas e fraturas.
FERNANDA COCOLICHIO
Médica especialista em Geriatria pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Outra abordagem usual é a aplicação do método SARC-F, um questionário utilizado para calcular o risco de sarcopenia. A partir de perguntas simples, que geram uma pontuação final, dependendo das respostas de cada paciente, é possível identificar se existem ou não indícios de sarcopenia no idoso.
Conforme Fernanda, o questionário não substitui o diagnóstico médico completo, mas é um bom primeiro passo quando há desconfiança acerca da incidência de obesidade sarcopênica. O SARC-F pode ser aplicado por familiares ou pelo próprio idoso, inclusive, mas deve ser sempre seguido de uma consulta com geriatra.
Como é o tratamento

É natural que idosos tenham mais facilidade para o acúmulo de gordura e a perda de massa magra, em razão das mudanças metabólicas que acompanham o processo de envelhecimento. Isso, contudo, não vai necessariamente desencadear um quadro de obesidade sarcopênica.
— Essa condição está muito mais relacionada aos maus hábitos alimentares e ao sedentarismo. Isso é o que também faz diferença quando a gente fala de prevenção — esclarece a geriatra.
Assim, o tratamento também passa por uma mudança no estilo de vida. Contudo, a obesidade sarcopênica exige uma abordagem diferente da usada em casos isolados de obesidade ou de sarcopenia.
— Precisamos fazer com que o paciente passe por um processo de emagrecimento e consiga perder gordura, mas sem perder massa magra junto, porque isso pode enfraquecê-lo ainda mais. Então, é uma conduta complexa e multidisciplinar, que envolve alimentação, atividade física e acompanhamento periódico com o geriatra de referência — detalha Fernanda.
A importância do exercício físico
No caso de Walter, o tratamento inclui sessões de fisioterapia focadas em ganho de força muscular. O novo hábito foi recebido pelo idoso inicialmente com resistência, mas acabou sendo incorporado à rotina e vem proporcionando excelentes resultados, conforme a filha.
— O pai sempre foi muito agitado, mas no sentido de trabalhar bastante e estar envolvido com várias coisas, não de fazer atividade física — lembra Karen. — Quando chegou à velhice, ele não tinha uma boa reserva muscular e sentiu dificuldade ao iniciar os exercícios. Teve um pouco de resistência, mas logo entendeu que isso era necessário para que tivesse mais qualidade de vida. Hoje, é super dedicado — acrescenta.
Essa condição está muito mais relacionada aos maus hábitos alimentares e ao sedentarismo. Isso é o que também faz diferença quando a gente fala de prevenção
FERNANDA COCOLICHIO
Médica especialista em Geriatria pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre
A profissional de educação física Daiane Keppeler, instrutora do Sesc e mestranda em Ciências da Reabilitação pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), explica que esse tipo de histórico é comum em idosos diagnosticados com obesidade sarcopênica. O sedentarismo ao longo da vida contribui para que, na velhice, o corpo tenha menos capacidade de reação. Contudo, nunca é tarde para iniciar.
Os exercícios podem ser feitos até mesmo em casa, mas precisam ser orientados por um profissional da área.
— O importante é que o idoso sempre tenha acompanhamento. Até mesmo porque cada idoso vai ter uma recomendação específica de exercícios a serem feitos, baseados não só nos objetivos, mas também nas limitações que ele possa ter — diz.
Daiane diz que o diagnóstico de obesidade sarcopênica exige um protocolo estratégico. Se o quadro fosse somente de obesidade, a abordagem mais comum seria a de intensificar a rotina de exercícios aeróbicos, que aceleram o processo de emagrecimento. No entanto, a associação da sarcopenia exige um trabalho diferente, que coloca a necessidade de reforço muscular à frente da perda de peso.
— A gente vai incluir muito mais exercícios de musculação, com o objetivo de estimular o ganho de massa muscular. Os exercícios aeróbicos são feitos, mas em uma intensidade menor, porque o objetivo não é perder peso de maneira acelerada. O objetivo é perder gordura enquanto se ganha massa muscular. E hoje a gente sabe que a musculação também ajuda no emagrecimento, então será priorizada — explica.
Como deve ser a alimentação

Os exercícios físicos precisam estar casados com uma dieta adequada às necessidades de um obeso sarcopênico, que são diferentes das de um obeso que não tem a sarcopenia associada. Não basta reduzir a ingestão calórica para perder peso na balança, por exemplo, porque isso pode ocasionar redução também no percentual de massa muscular.
A geriatra Fernanda Cocolichio explica que idosos com obesidade sarcopênica devem seguir uma dieta com baixa ingestão de gorduras e alto consumo de proteínas. Algo que nem sempre é simples de alcançar através da alimentação, conforme ressalta a médica.
— A carne costuma ser o primeiro alimento ao qual os idosos apresentam resistência, então, na maior parte das vezes, será preciso usar um suplemento para atingir a ingestão proteica necessária — diz.
Entre os suplementos mais comuns, estão o whey protein, que aumenta a ingestão de proteínas, e a creatina, que contribui para o desempenho muscular durante a execução de exercícios físicos, potencializando os resultados. Entretanto, esses recursos nunca devem ser utilizados sem orientação.
— Nenhum idoso deve sair comprando suplementos por conta própria. O uso deve ser feito somente com indicação de um profissional, preferencialmente o geriatra — alerta Fernanda.
Acompanhamento com fonoaudióloga
Diagnosticado com obesidade sarcopênica, Walter faz uso de whey protein e creatina, ambos indicados por médico. Além disso, o aposentado segue uma dieta rica em proteínas e essencialmente pastosa — a sarcopenia fez com que desenvolvesse um quadro de disfagia, que é a dificuldade para engolir os alimentos. Em razão desta condição, o idoso também faz acompanhamento regular com fonoaudióloga.
Karen conta que barras de apoio foram instaladas na casa do pai para evitar quedas e que cuidadoras estão presentes 24 horas por dia. Ela e os irmãos visitam o idoso diariamente, mas também acompanham a rotina dele através de câmeras instaladas na residência como forma de intensificar os cuidados.
— O que a gente faz é uma verdadeira força-tarefa pelo bem-estar dele — define.
Para a engenheira, o exemplo familiar reforça a importância de os filhos estarem atentos às mudanças no comportamento dos pais idosos e de se engajarem nos cuidados.
— Penso sempre em dar o melhor de mim para o meu pai, porque ele sempre deu o melhor dele para mim. Como filhos, a gente não pode perder a oportunidade de cuidar dos nossos pais e de honrar tudo o que eles já fizeram por nós. Isso vai exigir doação, comprometimento e algumas renúncias, mas vale a pena.



