
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 28% e 35% das pessoas com 65 anos ou mais sofrem ao menos uma queda por ano, proporção que pode chegar a 42% entre quem tem mais de 70 anos. No Brasil, a prevalência gira em torno de 30%, subindo para 51% entre os maiores de 85.
Essas quedas são uma das principais causas de fraturas graves, como as de quadril, além de traumatismos cranianos e perda funcional. Estima-se que 90% das fraturas de quadril em idosos tenham origem em tombos da própria altura.
As consequências incluem aumento nas hospitalizações, institucionalizações, mortalidade e perda de autonomia, afetando diretamente a qualidade de vida, e ampliando os anos vividos com incapacidades.
Segundo Régis Mestriner, professor e diretor científico do Instituto de Geriatria e Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), as quedas entre pessoas com 60 anos ou mais raramente são fruto do acaso, e tampouco devem ser encaradas como consequência inevitável do envelhecer.
— São o resultado da interação entre múltiplos fatores, como alterações de mobilidade, uso de medicamentos, doenças crônicas e o ambiente doméstico — explica.
Quem tem mais risco de cair
- Mulheres
- Pessoas com doenças crônicas
- Usuários de múltiplos medicamentos
- Pessoas que vivem em ambientes sem adaptações
Além disso, o impacto de uma queda vai além do momento do tombo: cerca de uma em cada 10 quedas resulta em fratura — com o fêmur entre os ossos mais afetados.
— Essas fraturas podem demandar cirurgia, hospitalização prolongada e resultar em perda de autonomia e risco de morte — diz o especialista.
O professor destaca ainda que a prevenção precisa ser central nas estratégias de envelhecimento saudável, com foco em exercícios físicos, adaptação ambiental e informação de qualidade.
Impacto sobre a qualidade de vida
Mestriner explica que a perda de mobilidade funcional — capacidade de se locomover com independência — compromete diretamente a autonomia e a qualidade de vida das pessoas idosas. Quando surgem dificuldades para andar, subir escadas ou sair de casa, tarefas simples passam a exigir ajuda.
— Isso não só reduz a independência, como impacta o bem-estar psicológico, podendo causar isolamento, solidão e depressão — alerta.
Mesmo diante de doenças crônicas, pessoas que mantêm a mobilidade funcional relatam níveis mais altos de satisfação com a vida, detalha o especialista.
— Já a limitação nos deslocamentos restringe oportunidades de convivência, participação social e decisão sobre a rotina, afetando o sentimento de liberdade e dignidade — completa.
Cirurgia precoce evita complicações e reduz riscos
Na terceira idade, uma queda da própria altura pode ser muito mais do que um susto. Em muitos casos, ela marca o início de uma nova fase, com limitações físicas, cirurgias complexas e risco elevado de complicações.
Entre os traumas mais graves estão as fraturas de quadril, comuns após tombos domésticos e responsáveis por alterações profundas na vida do idoso.
— As fraturas do fêmur proximal, também conhecidas como fraturas de quadril, são mais graves por afetarem diretamente a capacidade motora e estarem associadas a complicações importantes — explica o ortopedista Isaías Chaves, especialista em joelho e quadril.
Além da dor intensa e da imobilidade imediata, o paciente pode desenvolver infecções urinárias, pneumonias e escaras. A perda sanguínea causada pela fratura ainda pode comprometer o funcionamento dos rins e do sistema cardiovascular. Por isso, o tratamento cirúrgico em regime de urgência é indicado, mesmo em idosos com comorbidades.
— Não operar uma fratura de quadril é muito mais arriscado do que operar em regime de urgência — afirma o ortopedista. — A cirurgia deve ser feita visando restabelecer a mobilidade e a funcionalidade do idoso o mais rápido possível, idealmente com retorno ao movimento em até 24 horas após o procedimento — emenda.
Essas fraturas podem demandar cirurgia, hospitalização prolongada e resultar em perda de autonomia e risco de morte
RÉGIS MESTRINER, DIRETOR CIENTÍFICO DO INSTITUTO DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA DA PUCRS
Quando a prótese é necessária?
Nas fraturas do colo do fêmur — a região mais interna do quadril —, a cirurgia pode envolver a colocação de uma prótese. A decisão entre prótese parcial ou total leva em conta o perfil funcional e o estado de saúde do paciente antes da queda.
— Essas fraturas têm baixa capacidade de cicatrização, então indicamos a prótese. A parcial é para quem já não caminhava ou tem baixa expectativa de vida. A total é para os demais casos — detalha Chaves.
Para idosos com quadros de demência ou dificuldade de seguir recomendações médicas, há o modelo de dupla mobilidade, que foi desenvolvido para reduzir o risco de deslocamento da prótese.
Custos e desafios do SUS
O custo da prótese varia de acordo com a marca e a região do país, mas, segundo o especialista, esse não é o principal gasto do processo de recuperação.
— O maior custo está nos longos períodos de internação antes e depois da cirurgia. Quanto mais o paciente espera, maior o risco de complicações e mais cara a recuperação — alerta Chaves.
No Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento cirúrgico com prótese está disponível, mas o médico aponta limitações significativas. Entre elas, a ausência de materiais ideais em alguns hospitais, o que obriga profissionais a improvisar com o que está disponível.
— Infelizmente, no SUS é comum o ortopedista ter que usar o que está disponível, mesmo que não seja o ideal. E, quando algo dá errado, a responsabilidade recai sobre o médico, não sobre o sistema — relata Chaves.
O tempo de internação pode variar de 48 horas a várias semanas, conforme o estado clínico do paciente e a estrutura hospitalar. As fraturas de quadril, de forma geral, são de indicação cirúrgica, e atrasos no atendimento agravam o quadro e aumentam os custos.

Papel da fisioterapia na reabilitação
Régis Mestriner ressalta que a fisioterapia não se limita a exercícios padronizados. Ela é uma ciência da saúde baseada em evidências, e deve ser iniciada o quanto antes, preferencialmente no dia da cirurgia ou no primeiro dia pós-operatório.
— Intervenções precoces ajudam a evitar complicações como trombose, infecções e lesões por pressão, além de acelerar a recuperação da marcha e da autonomia — reforça.
No pós-alta, a fisioterapia atua no fortalecimento da musculatura, na melhora do equilíbrio, na retomada das atividades cotidianas e na prevenção de novas quedas. Em muitos casos, o atendimento domiciliar com foco em força, resistência e equilíbrio é o mais indicado.
Do pré-operatório à recuperação completa
Embora programas pré-operatórios pareçam uma boa ideia, evidências científicas não mostram benefícios consistentes na recuperação de idosos após cirurgias de quadril, de acordo com Mestriner. No entanto, para pacientes de alto risco, como os que têm grande fragilidade ou múltiplas comorbidades, o preparo com exercícios e ajustes nutricionais pode ajudar.
De forma geral, o mais indicado é seguir protocolos como o de Recuperação Otimizada (Enhanced Recovery After Surgery, do inglês), com controle da dor, mobilização precoce e foco na nutrição.
O processo de recuperação costuma ter avanços mais expressivos nos primeiros três meses. Em 24 horas, o paciente já começa a se movimentar. Em seis semanas, muitos retomam atividades básicas com ajuda. A maior parte da recuperação ocorre até o sexto mês, mas ganhos podem seguir até um ano após a cirurgia.
— A continuidade da fisioterapia após a alta é essencial. Ela pode ser feita em casa, com programas bem orientados, ou de forma intensiva, com supervisão profissional. Avaliações periódicas e o apoio da rede familiar também são fundamentais para garantir segurança e autonomia — elucida o especialista.

Prevenção começa em casa
Prevenir quedas é mais eficiente e barato do que tratar suas consequências. Adaptações simples, como instalar barras de apoio, melhorar a iluminação, eliminar tapetes soltos e reorganizar objetos para facilitar o alcance, reduzem em até 39% o risco de quedas, segundo Mestriner.
Além das adaptações ambientais, a prática regular de exercícios físicos é uma das estratégias mais eficazes para evitar quedas e fraturas. Conforme dados do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), modalidades que combinam força e equilíbrio, como Tai Chi, Pilates e exercícios funcionais com supervisão profissional, podem reduzir o risco de quedas em até 29% e o de fraturas em até 46%.
— Programas individualizados, que considerem as limitações físicas, dores crônicas e aspectos cognitivos de cada pessoa, são os que apresentam melhores resultados. O ideal é que o exercício esteja inserido na rotina de forma progressiva, segura e contínua — completa o professor da PUCRS.
Alerta que ainda não é reconhecido
Mestriner destaca que ainda há grande distância entre o conhecimento científico e a percepção da população sobre a gravidade das quedas. Muitas vezes, são vistas como algo natural do envelhecimento, quando na verdade indicam vulnerabilidade e risco aumentado de complicações graves.
— Cair não é algo normal da idade. É um sinal de alerta. O impacto vai além da fratura. Pode levar à perda de autonomia, institucionalização e isolamento social. O ideal é agir antes da queda, com prevenção e ajustes no ambiente — afirma.
A resistência emocional em adaptar a casa ou aceitar o uso de equipamentos também contribui para o risco. Para ele, é preciso mudar a mentalidade e investir em estratégias acessíveis, eficazes e individualizadas, sem restringir o idoso ao sedentarismo por medo.
Ossos frágeis tornam a queda mais perigosa
A geriatra Carla Helena Augustin Schwanke, professora da Escola de Medicina e do Instituto de Geriatria e Gerontologia (IGG) da PUCRS, alerta que tanto a osteopenia quanto a osteoporose aumentam significativamente o risco de fraturas mesmo em quedas leves.
— A fragilidade óssea torna o impacto mais perigoso, e fraturas em quadril, punho e coluna são comuns — comenta.
Ela ressalta que o diagnóstico precoce com exames como a densitometria óssea é fundamental. Em casos de risco elevado, o uso de medicamentos que fortalecem os ossos pode ser necessário.
— Além disso, exercícios físicos regulares, revisão de medicamentos e prevenção de quedas devem fazer parte da rotina de cuidados — complementa.
Cálcio, vitamina D e avaliação individualizada
A professora destaca que, embora cálcio e vitamina D tenham papel importante na manutenção da saúde óssea, a suplementação não deve ser indiscriminada. Idosos saudáveis com dieta equilibrada e exposição solar adequada nem sempre precisam de reposição. Já em casos de deficiência comprovada ou risco elevado, a suplementação deve ser avaliada por um médico.
Superestimação da própria capacidade é um risco
Entre os fatores de risco para quedas, destacam-se a idade avançada, histórico de quedas, uso de muitos medicamentos (polifarmácia), sarcopenia (perda muscular), problemas de visão, déficits cognitivos e o uso de dispositivos de marcha. Mas um aspecto muitas vezes ignorado é a autopercepção distorcida da capacidade de se mover.
— A superestimação da capacidade de caminhar sem auxílio é um dos fatores de maior relevância, porém frequentemente banalizado por idosos, familiares e cuidadores — alerta a professora Janete Urbanetto, da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS.
Exercícios físicos regulares, revisão de medicamentos e prevenção de quedas devem fazer parte da rotina de cuidados
CARLA HELENA AUGUSTIN SCHWANKE, MÉDICA GERIATRA
Esse comportamento, segundo ela, leva a atitudes de risco, como rejeitar bengalas ou andar em pisos escorregadios.
Diretrizes internacionais, como a publicada pela universidade britânica Oxford, reforçam que a percepção que o idoso tem da própria mobilidade deve ser considerada na avaliação de risco, não apenas o desempenho em testes físicos.
Como prever uma queda antes que ela aconteça
Embora nenhuma ferramenta consiga prever com exatidão se um idoso vai cair, há testes funcionais amplamente utilizados para estimar esse risco. No Brasil, versões adaptadas de escalas internacionais são aplicadas em hospitais, lares de longa permanência e até no domicílio.
Entre elas estão a Morse Fall Scale (MFS-B), o Downton Fall Risk Index e o Timed Up and Go Test (TUG), que avalia a capacidade da pessoa de levantar, caminhar, virar e sentar. Além disso, escalas como a FES-I ajudam a entender o medo de cair durante atividades do dia a dia.
— A funcionalidade é o que define o envelhecimento saudável. A perda dela afeta a autonomia e a autoestima, e pode levar à exclusão social — afirma Janete.
Sequelas emocionais
Quedas não deixam apenas fraturas. Elas podem causar danos emocionais e sociais importantes. O medo de cair de novo, a ansiedade, a perda de confiança e a redução da mobilidade física formam um ciclo negativo que prejudica ainda mais o idoso.
— O dano psicológico é o menos compreendido por famílias e profissionais, mas pode ser tão incapacitante quanto o físico. Muitas vezes, o idoso passa a se isolar, o que contribui para a perda de força muscular e aumenta ainda mais o risco de uma nova queda — destaca Janete.
Recuperação exige uma rede de apoio
A reabilitação após uma queda e cirurgia deve ser ampla e interprofissional. É necessário revisar medicamentos, corrigir déficits sensoriais, oferecer suporte psicológico, adaptar o ambiente e estimular a participação social.
A criação de redes de apoio no domicílio e na atenção primária também é essencial.
— A recuperação não depende apenas da fisioterapia, mas da soma de cuidados que preservem a autonomia do idoso — finaliza a professora.
Vagner: otimismo, fisioterapia e retorno à vida ativa
Vagner Gulim, 66 anos, engenheiro eletricista, sofreu uma queda durante uma cicloviagem em Foz do Iguaçu, em um dia de chuva. Ao enroscar no meio-fio, caiu e seguiu pedalando por mais alguns quilômetros até perceber a gravidade do ferimento.
A fratura na bacia exigiu uma cirurgia de prótese total do quadril, feita menos de 24 horas após o acidente.
— O trauma da queda é grande. O meu maior desafio foi vencer o medo — relata Vagner.
O procedimento, realizado pelo ortopedista Isaías Chaves, foi um sucesso. Já no primeiro dia, ele pôde colocar o pé no chão. Foram três meses intensos de fisioterapia até retomar a confiança.
Hoje, Vagner está recuperado e voltou à ativa com cicloviagens e academia. Em abril, percorreu 150 quilômetros de bicicleta e, mais recentemente, completou um trajeto de 330 quilômetros com final em Santiago de Compostela, na Espanha.
— A cabeça é tudo durante o reestabelecimento. Usei muito a música para me acalmar, minha esposa me dava aulas de canto — conta. — Tive medo de ter uma sequela, mas o médico dizia que a perna operada ficaria mais forte do que a outra. Hoje, meu personal diz que é mesmo — emenda.
Ele recebeu uma prótese suíça de dupla mobilidade da marca Medacta. Passou apenas três dias com andador e logo abandonou o equipamento.
— O mais inconveniente é passar no raio-x do aeroporto — brinca.
Ainda assim, o medo de uma nova queda é presente na vida de Vagner, mas não o impede de fazer o que ama.
— Tenho medo de cair novamente, é algo que fica registrado. Mas isso não me impede de fazer minhas aventuras. Venci o medo da bicicleta — complementa.
Vagner resume a experiência com uma mensagem a quem enfrenta ou enfrentou situação semelhante:
— Manter o otimismo, encontrar um bom profissional e contar com a ajuda de Deus. A vida é assim, você não controla tudo. Mas pode decidir como reagir.
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