
A crescente oferta de cursos online voltados ao público sênior reflete um interesse cada vez maior de pessoas com mais de 60 anos em manter a mente ativa, descobrir novos interesses e seguir participando da vida social.
Esse movimento ganha força em um cenário de envelhecimento populacional e aumento da conectividade: em 2023, 66% dos idosos no Brasil estavam conectados à internet, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua — número que mais que dobrou em menos de uma década. Entre os que acessam, 86,5% o fazem todos os dias.
Mas o aprendizado na maturidade ainda enfrenta barreiras: crenças limitantes, pouca familiaridade com o ambiente digital e contextos que nem sempre favorecem a motivação.
Abordagem acolhedora
Conforme especialistas, superar esses obstáculos exige abordagens acolhedoras, intergeracionais e livres de preconceito etário — capazes de transformar a tecnologia em ponte, e não em barreira.
— A aprendizagem em si não muda com a idade. O que pode mudar é o histórico de reforçamentos que esse indivíduo teve ao longo da vida — explica Monica Rezende Queiroz, psicóloga do grupo Mantevida.
Segundo ela, pessoas com mais de 60 anos tendem a ter repertórios mais cristalizados e menos contato recente com estímulos que incentivem o aprendizado. Mas isso não significa que elas não aprendem, apenas que o contexto precisa favorecer esse processo.
Conforme a especialista, essa adaptação do ambiente é importante para promover o que a psicologia chama de "motivação comportamental".
A psicóloga explica que, ao contrário da visão popular, que costuma tratar a motivação como algo interno, quase instintivo ou ligado apenas à força de vontade, a ciência do comportamento entende que ela surge de uma relação entre o ambiente, as ações das pessoas e os resultados que essas atitudes produzem.
— Para alguém mais velho, a zona de conforto muitas vezes é reforçada justamente por evitar o erro ou a frustração. Então, precisamos criar contextos de reforço positivo: metas tangíveis, elogios, utilidade prática. Isso aumenta a probabilidade do novo comportamento acontecer — afirma Monica.
Aprender depois dos 60 estimula a flexibilidade comportamental, reduz sintomas depressivos e amplia a rede de apoio.
MONICA REZENDE QUEIROZ, PSICÓLOGA
Desconstruindo crenças limitantes
Outro ponto que dificulta o engajamento são as chamadas crenças limitantes, que se materializam em frases como “não sou bom com tecnologia” ou “já estou velho demais pra isso”. Segundo a psicóloga, essas falas funcionam como regras autoimpostas, mantidas por anos de reforços negativos. A boa notícia? Elas podem ser modificadas.
— O papel da psicologia é exatamente ensinar novas formas de contato com reforçadores naturais. Em vez de evitar uma tarefa por medo, a pessoa aprende que pode errar e tentar de novo. Isso amplia o repertório e reduz padrões rígidos que limitam o comportamento — diz Monica.
Essas crenças, no entanto, não surgem do nada: elas estão enraizadas em um fenômeno social mais amplo, o etarismo (ou idadismo) — forma de preconceito baseada na idade cronológica, que pode ser institucional, interpessoal ou até internalizada pela própria pessoa idosa.
O diretor científico do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS, Régis Mestriner, destaca que essa forma de discriminação é uma das mais naturalizadas na sociedade, e por isso mesmo, uma das mais difíceis de reconhecer e combater.
Segundo ele, esse preconceito aparece com frequência no campo da educação, quando se pressupõe que pessoas mais velhas não têm mais capacidade de aprender ou que o ambiente digital seria restrito aos jovens.
— As diferentes formas de idadismo acabam limitando e desmotivando a pessoa idosa, mesmo que de forma inconsciente — afirma.
Essas mensagens, muitas vezes sutis, se manifestam em piadas, olhares condescendentes ou até em estruturas de cursos que infantilizam ou padronizam os alunos 60+, como se não houvesse pluralidade entre eles.
Com o tempo, esse discurso é absorvido, e muitas pessoas passam a duvidar da própria capacidade de aprender. É o que os especialistas chamam de etarismo internalizado.
Mestriner reforça que o envelhecimento, por si só, não impede a aprendizagem. O que pode dificultar são fatores associados, como condições de saúde ou barreiras educacionais acumuladas ao longo da vida. Ainda assim, com estratégias adequadas e ambientes acolhedores, o aprendizado pode acontecer com qualidade e gerar impacto real.
— O desejo de aprender não tem prazo de validade. Ao contrário: ele pode ser uma das maiores fontes de saúde, autoestima e longevidade ativa — conclui.
Educar é cuidar da saúde
Além do benefício prático de adquirir novos conhecimentos, aprender algo novo após os 60 pode ser um verdadeiro remédio para a saúde mental. Conforme Monica, o aumento da autoestima, a socialização e o senso de pertencimento são reforços poderosos que atuam diretamente no bem-estar.
— Aprender depois dos 60 estimula a flexibilidade comportamental, reduz sintomas depressivos e amplia a rede de apoio. Tudo isso contribui para um envelhecimento mais saudável e com propósito — detalha.
Rede de apoio como incentivo
Nesse processo, a rede de apoio tem papel fundamental. Familiares e amigos que oferecem suporte e reforço positivo, como paciência, incentivo e colaboração, tornam-se facilitadores do aprendizado. Já ambientes marcados por críticas ou superproteção tendem a frear o desenvolvimento.
— A família pode ser um estímulo discriminativo positivo, aquele que sinaliza: "é seguro tentar algo novo aqui". Isso é o que faz a diferença para muitas pessoas nesse momento da vida — aponta a psicóloga.
A tecnologia não deve ser uma barreira, mas uma ponte.
RÉGIS GEMERASCA MESTRINER, DIRETOR CIENTÍFICO DO INSTITUTO DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA DA PUCRS
Educação intergeracional e qualidade do uso digital
Essa transformação no cenário educacional e digital entre pessoas com mais de 60 anos também tem sido observada nas universidades. O professor Mestriner destaca que os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um aumento expressivo na conectividade digital entre idosos.
— O que a gente tem observado é uma transformação muito significativa no perfil das pessoas com 60 anos ou mais no Brasil. Mais de 65% desse público já utilizam a internet e, o que é mais relevante, a maioria faz uso diário dela — emenda
Mas ele pondera que esse público é altamente heterogêneo, com diferentes trajetórias e níveis de familiaridade com o ambiente digital. Há quem esteja dando os primeiros passos na internet, e quem já faça uso avançado das ferramentas online há anos. Os interesses também variam: enquanto alguns exploram recursos como educação, cultura, saúde e finanças, outros se limitam a funções mais básicas.
Uma ponte, não uma barreira
Mais do que garantir acesso, o professor destaca a importância de fomentar um uso qualificado da tecnologia. Isso inclui desejo de aprender, sentido de propósito e apropriação ativa das ferramentas digitais.
— Esse cenário nos convida a refletir: mais do que o simples acesso à internet, precisamos considerar o grau de apropriação, a qualidade do uso, o interesse contínuo em aprender e o desejo de se manter ativo e atuante numa sociedade que está em constante transformação — diz Mestriner.
Ademais, o docente defende uma abordagem ampla, mas personalizada. Para ele, é ingênuo pensar em uma "receita única" de cursos voltados para pessoas 60+.
— Como sociedade, precisamos avançar na superação da lógica da segmentação etária. Os cursos devem estar abertos a todas as idades. O que deve importar, acima de tudo, é o interesse pela temática, a motivação pessoal e o alinhamento com os pré-requisitos específicos de cada curso, e não a idade cronológica do participante — continua.
Universidade para todas as idades
A perspectiva de um aumento de interesse do público 60+ nas universidades e cursos online dialoga com uma tendência internacional, aponta o professor.
— Um exemplo disso é a iniciativa global "Universidades Amigas da Pessoa Idosa", que surgiu na Dublin City University, na Irlanda. Essa proposta estimula instituições de ensino a integrarem pessoas idosas em todas as suas atividades-fim — ensino, pesquisa, extensão — valorizando o desenvolvimento pessoal e profissional contínuo — destaca.
Entre os exemplos práticos dessa mudança está um projeto do Instituto de Geriatria e Gerontologia (IGG) da PUCRS com o Conselho Municipal do Idoso de Porto Alegre (Comui), financiado por doação do banco Itaú.
— Trata-se de uma iniciativa de inclusão digital voltada especialmente para quem ainda não utiliza a internet ou faz uso muito restrito, justamente o perfil mais vulnerável a golpes, desinformação e exclusão digital. A proposta é fortalecer a literacia digital como um direito e uma ferramenta de cidadania, promovendo segurança, autonomia e bem-estar — descreve Mestriner.
Flexibilidade, acolhimento e protagonismo
O professor resume o desafio de promover a inclusão educacional e digital das pessoas mais velhas, reforçando que o foco deve estar em criar ambientes de aprendizado acolhedores, livres de barreiras e abertos à diversidade etária.
Ele destaca que a tecnologia pode ser um instrumento de conexão entre gerações e de acesso ao conhecimento, desde que o caminho até ela seja adaptado à realidade de cada indivíduo:
— Precisamos oferecer oportunidades de aprendizado que sejam flexíveis, acessíveis e livres de preconceito etário. A tecnologia não deve ser uma barreira, mas uma ponte.
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