
Existe uma força política crescendo no Rio Grande do Sul sem fazer barulho. Está em toda parte, aumenta de eleição para eleição e já representa mais de um quinto do eleitorado gaúcho: são as pessoas com mais de 60 anos.
Durante muito tempo, esse segmento foi tratado pelo poder público como destinatário de favores. Um banco na praça, uma fila preferencial, uma homenagem no mês de outubro. É pouco. E é também uma forma disfarçada de paternalismo e de preconceito. Pessoas maduras não precisam de condescendência. Precisam de cidades nas quais consigam viver com autonomia.
O Rio Grande do Sul chegou ao ponto de inflexão demográfica. A projeção do IBGE indica que, em 2026, começou a queda no crescimento populacional do Estado. Ao mesmo tempo, a população envelhece. Essa combinação mudará quase tudo, mas um dos impactos mais visíveis estará na mobilidade urbana.
Será preciso rever o tempo dos semáforos, os locais de travessia, os degraus, o acesso aos ônibus, a altura das plataformas e a distância entre os pontos de transporte. E, sobretudo, será preciso enfrentar o escândalo das calçadas de Porto Alegre. Muitas delas são um atentado cotidiano contra idosos, pessoas com deficiência e qualquer cidadão com dificuldade de locomoção. Buracos, desníveis, pedras soltas e obstáculos transformam uma caminhada simples numa prova de risco.
Essas mudanças podem ser feitas por inteligência, planejamento e respeito. Ou serão impostas pela pressão política. Quando os gaúchos com mais de 60 anos perceberem que não formam um grupo frágil, mas uma potência eleitoral, a relação com prefeitos, governadores, presidentes, deputados e senadores mudará.
Quem entender isso antes poderá melhorar as cidades e será reconhecido por isso. Quem continuar tratando envelhecimento como assunto de assistência social, e não de infraestrutura, autonomia e cidadania, pagará nas urnas. O voto grisalho ainda fala baixo. O futuro já começou a cobrar. Mas já tem força para varrer muita gente do mapa.



