
Existe um jeito simples de medir o grau de civilidade de uma cidade: olhar para suas calçadas.
Não para as grandes obras, os viadutos, os túneis ou as avenidas. Basta observar o caminho que uma pessoa percorre ao sair de casa. Se ela consegue caminhar com segurança, autonomia e conforto, a cidade funciona. Se tropeça, desvia de buracos, enfrenta obstáculos ou simplesmente desiste de caminhar, há algo errado.
Porto Alegre ainda tem uma dívida enorme com seus pedestres.
Ao longo dos anos, ouvimos promessas, estudos e intenções. Houve até o reconhecimento de que talvez não faça sentido manter o modelo atual, no qual cada proprietário é responsável pelo trecho de calçada em frente ao seu imóvel. A ideia de a prefeitura assumir esse papel chegou a ser discutida. Mas o debate perdeu força e o problema continuou onde sempre esteve: sob nossos pés.
Enquanto isso, milhares de porto-alegrenses seguem enfrentando dificuldades diárias. Idosos caminham com receio de quedas. Pessoas com deficiência encontram barreiras quase intransponíveis. Pais empurram carrinhos de bebê por trajetos que parecem pistas de obstáculos. Muitas vezes, a calçada deixa de ser um espaço de convivência para se tornar um fator de exclusão.
É justo reconhecer que a cidade avançou em outras áreas. Novas avenidas foram abertas, pistas foram duplicadas e gargalos históricos receberam atenção. Tudo isso é importante. Ninguém está propondo uma guerra contra os carros.
Mas uma cidade equilibrada não pode enxergar mobilidade apenas pelo para-brisa.
Caminhar continua sendo uma das formas mais eficientes, saudáveis, sustentáveis e humanas de deslocamento urbano. Além de reduzir emissões e melhorar a saúde das pessoas, fortalece o comércio de bairro, estimula a convivência e torna as ruas mais seguras e vivas.
As melhores cidades do mundo entenderam isso há muito tempo. Elas não tratam o pedestre como um detalhe. Tratam-no como prioridade.
Porto Alegre precisa decidir qual cidade deseja ser nas próximas décadas. Uma cidade feita para veículos ou uma cidade feita para pessoas.
Porque, no fim das contas, uma calçada não é apenas uma faixa de concreto ou de pedra.



