
As próximas eleições nos revelarão muito mais do que vencedores. Tão importante quanto escolher quem vai governar e legislar, será definir quem estará na oposição. E cobrar dela tanto quanto se cobra dos governos e dos parlamentos.
É nosso dever prestar muita atenção no tamanho democrático de quem não venceu. Em ambientes polarizados, existe uma atenção obsessiva sobre o comportamento de quem ganha. E ela é justa. Os empossados recebem a responsabilidade de compreender que governar não é administrar apenas os que pensam igual.
Mas existe um outro ponto, menos discutido e igualmente importante: a responsabilidade dos derrotados. Toda democracia saudável precisa de oposição. Oposição firme, vigilante, crítica, incômoda até. Sem oposição, governos se acomodam, erram mais e se afastam da sociedade. O problema começa quando essa oposição deixa de significar fiscalização e passa a significar sabotagem permanente. A derrota, em uma democracia, não pode virar ressentimento político organizado.
Existe uma diferença entre discordar de um governo e trabalhar diariamente para inviabilizar qualquer tentativa de construção coletiva. Quando a lógica passa a ser “quanto pior, melhor”, a democracia começa a perder qualidade. O Estado e o país também.
O Brasil vive há anos numa espécie de campanha eleitoral contínua. A eleição termina, mas a lógica política, ou a falta dela, segue funcionando como se o próximo turno começasse no dia seguinte. Isso empobrece o debate, radicaliza posições e cria uma dificuldade enorme de convergência, até nos temas mais óbvios e urgentes. Fazer oposição não deveria significar destruir pontes antes mesmo de saber para onde elas levam. Significa apontar erros e caminhos sem torcer pelo fracasso do país.
Democracia não é apenas o direito de vencer. É também o dever de perder sem romper o ambiente que permite novas vitórias no futuro. Talvez esse seja um dos testes mais difíceis da maturidade democrática: entender que a eleição acaba, mas a vida das instituições e das pessoas continua. E é isso o que realmente importa.



