
Há instituições que existem para garantir que o jogo seja jogado dentro das regras. Não para interferir na escalação ou na estratégia dos times. São funções que precisam e, no caso da nossa democracia, não deveriam se misturar.
A Justiça Eleitoral brasileira é, por tradição e mérito, uma referência mundial. Sua atuação na organização das eleições, na apuração dos votos e na fiscalização do processo constitui um patrimônio institucional. É o tipo de estrutura que funciona melhor quanto menos aparece, porque sua força está na confiança que inspira. Isso não a torna imune a críticas, desde que sejam minimamente embasadas e responsáveis. É uma forma de participar e de ajudar.
Nos últimos anos, tornou-se comum ver a própria Justiça Eleitoral assumir um papel adicional: o de incentivar a participação dos brasileiros nas eleições, especialmente por meio de campanhas publicitárias. A intenção é legítima. A democracia se fortalece com participação. Mas a pergunta que se impõe é outra: cabe à Justiça Eleitoral exercer esse papel?
Campanhas, por definição, não são neutras. Escolhem linguagem, estética, protagonistas. Ao fazer isso, dialogam mais com alguns públicos do que com outros. Quando esse estímulo parte de uma instituição que deve ser percebida como árbitro, qualquer assimetria, ainda que involuntária, pode gerar desconforto.
Não se trata de questionar a importância do voto. Tampouco de desestimular a participação. O ponto é mais simples: talvez esse seja um trabalho que caiba melhor à sociedade. Às famílias, às escolas, aos partidos, aos próprios candidatos. A democracia também se constrói fora das instituições formais.
À Justiça Eleitoral cabe algo ainda mais valioso: garantir que, para quem decide participar, o processo seja simples, íntegro, confiável e transparente. Todas as suas energias deveriam estar nisso.
Em tempos de excesso de ruído, preservar com clareza o papel de cada ator pode ser uma das formas mais eficazes de proteger o sistema que necessita ser fortalecido. Juiz não chama a torcida para o estádio. E nem impede que ela torça.



