
O cessar-fogo entre Estados Unidos, Israel e Irã traz um alívio imediato. E ele é compreensível. Diante de imagens de bombardeios, de vidas interrompidas, de cidades em tensão e de uma instabilidade que rapidamente se espalha pelo mundo, inclusive nos preços dos combustíveis e na economia, qualquer interrupção da violência é recebida como uma boa notícia.
Mas é preciso ter cuidado com o tipo de sensação que isso produz. Alívio não é estabilidade, mas algo momentâneo, quase físico. Ele reduz a pressão, diminui o medo, acalma o ambiente. Mas não resolve a causa, nem reorganiza o sistema ou constrói um horizonte seguro. E é exatamente isso que está em jogo agora.
Mais importante do que o cessar-fogo em si é o que vem depois dele. Porque, da forma como foi construído, ele ainda não aponta com clareza para uma estabilidade duradoura. Ele interrompe o conflito, mas não altera, até aqui, os elementos que o produziram. E o principal deles é o regime iraniano.
Não se trata de um debate abstrato. Trata-se de um modelo de poder baseado em uma ideologia que restringe liberdades, persegue mulheres, criminaliza minorias e impõe uma lógica de confronto permanente. Um regime que, ao longo do tempo, tem contribuído para a instabilidade regional e global.
É importante fazer uma distinção clara: não se fala aqui do povo iraniano, nem da história do país. Fala-se de um regime específico, com características que entram em choque direto com valores fundamentais da convivência democrática. Enquanto essa estrutura permanecer no poder, qualquer sensação de alívio será, no máximo, provisória.
E há um risco gigantesco nisso: o de confundir a interrupção da guerra com a construção da paz. O risco de transformar o alívio em acomodação e de aceitar como suficiente aquilo que, na verdade, é apenas uma pausa.
Ninguém defende a guerra. Ela é sempre a pior das soluções. Mas ignorar as causas profundas dos conflitos também não é uma solução. Se nada mudar, o próximo episódio, que todos esperamos que não venha, será ainda mais grave e violento para todos.
Por isso, mais do que celebrar o cessar-fogo, é preciso observar o que ele realmente inaugura. Se for apenas silêncio, será pouco. Se for o início de uma mudança real, aí sim poderá ser o primeiro passo de algo mais próximo daquilo que o mundo realmente precisa. Não apenas alívio, mas estabilidade verdadeira.


