
A questão ambiental ainda é tratada no Brasil como se fosse um tema ideológico. Como se proteger o meio ambiente fosse coisa de esquerda e explorá-lo sem cuidado fosse atributo da direita. É um erro básico. Meio ambiente não é ideologia. É bom senso. É inteligência. Inclusive econômica.
A Petrobras informou que houve vazamento de fluido de perfuração na Foz do Amazonas, mas tratou o episódio com uma tranquilidade quase didática. O texto faz tanto esforço para explicar que o líquido não é tóxico, que é biodegradável, que não oferece risco algum, que confesso ter ficado com vontade de encomendar alguns litros para beber. Se é tão inofensivo assim, por que não?
A ironia não é gratuita. Ela revela um problema clássico da comunicação em situações de risco: minimizar demais costuma produzir o efeito contrário: a sensação de que estão nos escondendo o essencial.
Algo vazou. Esse é o ponto central. Não vazou petróleo, é verdade. Mas vazou. E se vazou uma vez, pode vazar de novo. O debate sério começa exatamente aí: na constatação de que sistemas falham, tubos rompem, conexões cedem. Sempre. E quando isso acontece na Amazônia, soa um sinal de alerta. A pergunta relevante não é se o fluido era perigoso. É o que acontecerá quando o próximo vazamento não for, na voz de quem é responsável por ele, tão amigável.
Há ainda uma discussão maior, que o Brasil insiste em adiar. O país erra ao investir pesado em petróleo, um combustível fóssil obsoleto, associado a algumas das piores ditaduras do mundo e a uma economia que já começou a ser superada. Ainda dependemos dele, sim. Mas um país que se diz preocupado com sustentabilidade deveria trabalhar para reduzir essa dependência, não para ampliá-la.
Não se trata de demonizar a Petrobras nem de transformar o tema em guerra política.
O vazamento na Foz do Amazonas não é o fim do mundo. Ao que tudo indica, dessa vez, as consequências serão mínimas. Mas é um sinal. E sinais, quando ignorados, costumam cobrar um preço alto depois.



