
Os silêncios em relação à carnificina promovida pelo governo do Irã revelam algo tão perturbador quanto a própria violência: a falência do valor “vida humana” como princípio. Quando a vida só vale dependendo de quem a tira e de quem a perde, ela deixa de ser um valor universal e vira instrumento político. Vira argumento. Vira peça de conveniência em disputas ideológicas.
O Irã não vive uma crise comum da geopolítica. Vive sob uma ditadura teocrática que transforma a repressão em método de governo e a violência contra civis em política de Estado. Mulheres, jovens, dissidentes, LGBTQIA+, jornalistas, minorias religiosas não são vítimas colaterais. São alvos. Não se trata de excessos de um sistema, mas do funcionamento normal dele.
O que causa estranhamento não é apenas a brutalidade do regime. É o modo como parte do mundo que se diz defensora das liberdades individuais escolhe relativizar esse horror. Não por falta de informação, mas por conforto moral. Defender a vida quando o opressor tem o rosto conveniente é fácil. Difícil é manter o mesmo critério quando o opressor veste a fantasia de “resistência”, “anti-imperialismo” ou “contraponto ao Ocidente”. Nesse ponto, o silêncio passa a ser uma forma de autoproteção simbólica.
Quando a indignação se torna seletiva, ela deixa de ser indignação. Passa a ser cálculo. Passa a ser narrativa. A vida humana, então, já não é o centro do debate. O centro passa a ser a coerência interna de uma ideologia, ainda que isso custe o desaparecimento do princípio mais básico de todos: o de que toda vida tem o mesmo valor.
Dessa forma, a gritaria dirigida a um lado se transforma em absolvição moral de uma ditadura que reprime e mata o próprio povo. Misturar essas duas dimensões não é sofisticação intelectual. É confusão ética.
Talvez o Irã seja menos uma tragédia distante e mais um espelho desconfortável. Um espelho que mostra o que acontece quando valores viram bandeiras e bandeiras passam a valer mais do que pessoas. Quando a vida humana deixa de ser princípio e passa a ser variável.
No dia em que a defesa da vida depende do passaporte ideológico, da etnia ou da religião de quem mata e de quem morre, já não estamos falando de liberdade. Estamos falando de ficção moral.



