
Em geral, tratamos amor e profissionalismo como opostos. Como se o afeto poluísse a razão. Como se gostar demais de algo fosse incompatível com decisões maduras e corretas.
A realidade costuma desmentir essa tese.
Amor e profissionalismo não são forças rivais. São complementares. Há quem ame o que faz desde o início. Há quem aprenda a amar ao longo do caminho. Em ambos os casos, quando o vínculo é verdadeiro, ele tende a gerar mais responsabilidade e valor. Mais cuidado, não cegueira. O amor sério não é impulso. É compromisso.
O mesmo vale para a experiência, que só vem com o tempo. Vivemos uma época obcecada pelo novo, pelo rápido, pelo inovador. Como se tudo o que carrega tempo nas costas e no coração estivesse automaticamente ultrapassado. Esse preconceito tem nome: etarismo. E talvez seja o último grande preconceito social ainda tratado com naturalidade.
A experiência não elimina erros. Mas ensina a reconhecê-los antes que virem tragédia.
Essa combinação entre amor e experiência reapareceu nos últimos dias em um cenário improvável: o futebol brasileiro, tão contaminado pela ostentação e pela infidelidade à paixão do torcedor. Quando o Sport Club Internacional estava praticamente condenado ao rebaixamento, recorreu a Abel Braga. Aos 73 anos, ele foi chamado não por sua capacidade física ou por novidades táticas revolucionárias. Foi chamado porque conhece o jogo, ama o clube e já viveu muitas dores e alegrias ao longo da sua jornada humana e profissional.
O que salvou o Inter não foram músculos, soluções mágicas ou discursos inflamados e vazios. Foi a leitura de contexto. Foi a calma no caos. Foi a sabedoria de quem já caiu, já venceu, já perdeu e sabe que, em certas horas, sobreviver também é uma forma de vitória.
A lição transcende o futebol.
Num país onde as pessoas vivem cada vez mais, insistimos em descartar quem acumulou erros e aprendizados através das décadas. Perde o indivíduo. Perde a empresa. Perde o país. O episódio recente do Inter lembra algo: há horas em que não precisamos de mais velocidade, mas de direção.
E direção, quase sempre, vem de quem conhece o caminho. E acima de tudo, de quem ama e, por isso, vê o risco como oportunidade.




