
Vivemos uma era curiosa: nunca foi tão fácil acessar informação e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão certos de tão pouca coisa. A internet democratizou menos o conhecimento e mais, muito mais, a opinião. Diante desse estoque infinito de certezas rápidas, perdemos uma das habilidades mais importantes da vida intelectual: dizer “não sei”.
O “não sei” já foi um ponto de partida. Mas, por algum motivo, começamos a tratar a dúvida como fraqueza. A prudência passou a ser lida como indecisão.
O resultado é visível. Basta abrir qualquer rede social. Todo mundo tem uma opinião instantânea sobre guerra, economia, vacinas, Supremo, futebol, inteligência artificial, mudanças climáticas e até sobre a vida dos outros. É um cardápio infinito de certezas apressadas, mas convictas. Não há nuance. Não há contexto. Não há tempo para pensar.
Só que a ignorância mais perigosa é justamente aquela que não se reconhece.
Tenho um amigo americano que debocha da sua própria autoconfiança com uma frase que é um resumo desses tempos: “Often wrong, but never in doubt”. Ou seja: “Frequentemente errado, mas nunca em dúvida.”
Quando perdemos a capacidade de dizer “não sei”, perdemos também a capacidade de ouvir, de aprender, de mudar de ideia. O debate público se empobrece porque vira um duelo de certezas, não um encontro de perguntas.
Existe um custo político nisso. A violência verbal cresce. A polarização se torna permanente. A própria democracia, que é um sistema de desacordos civilizados, se enfraquece quando cada lado acredita ter o monopólio da verdade.
Mas existe um custo pessoal também. Quem precisa estar certo o tempo todo vira refém da própria opinião. Qualquer novo dado vira ameaça. Qualquer conversa, um ringue. É cansativo e profundamente improdutivo.
Talvez esteja na hora de recuperar um gesto simples, mas revolucionário: admitir que não sabemos. Que precisamos pensar um pouco mais. Que vale consultar alguém. Ler mais uma fonte. Ouvir quem viveu aquilo.
E, se possível, praticar um pouco mais o silêncio antes de responder.
Às vezes, ele diz coisas que a certeza não consegue dizer.


