
Enquanto o mundo se divide em opiniões inflamadas sobre o Oriente Médio, uma tragédia de proporções semelhantes, ou maiores, se desenrola no silêncio quase absoluto na África: a guerra civil do Sudão. Ninguém sabe ao certo quantos morreram. Estimativas falam em 150 mil vidas perdidas, milhões de deslocados, cidades arrasadas e violações sistemáticas de direitos humanos. É uma catástrofe humanitária. Mas não há bandeiras, nem hashtags, nem protestos nas universidades ocidentais. Há silêncio.
É claro que o sofrimento no Oriente Médio é imenso e inaceitável. Nada justifica a morte de civis inocentes, de um lado ou de outro. A dor das famílias palestinas é real, assim como a dos israelenses que vivem sob o terror do Hamas e de outros fantoches do fanatismo iraniano. O problema é quando a empatia se torna seletiva, quando a compaixão depende da etnia e não dos valores que estão em jogo.
Um recente relatório sobre a BBC ilustra bem esse desequilíbrio. O serviço árabe da emissora precisou fazer 250 correções e esclarecimentos em dois anos na cobertura do conflito entre Israel e Hamas — todos por erros acusando Israel injustamente ou elogiando o terrorismo. Um número estarrecedor para uma empresa que se autoproclama padrão mundial de imparcialidade. Não foi erro jornalístico, o seria ruim, mas eticamente justificável: foi militância travestida de jornalismo.
Há algo de estrutural nesse desequilíbrio. Chama-se antissemitismo. Ele não se manifesta apenas em ofensas ou ataques físicos, mas também no olhar seletivo, aquele que se indigna apenas quando o suposto vilão é Israel. E, automaticamente, todos os judeus do mundo. É um preconceito sofisticado, coberto por um verniz de aparente defesa de causas humanitárias. Um verniz que permite às pessoas se sentirem virtuosas enquanto repetem, sem perceber, discursos de ódio travestidos de compaixão.
Se o critério fosse realmente humanitário, os gritos seriam os mesmos para Gaza e para Cartum. Mas não são. E é justamente nesse contraste entre a fúria seletiva e o silêncio cúmplice que o antissemitismo estrutural encontra seu habitat perfeito.






