
Em cartaz nos cinemas brasileiros desde quarta-feira (30), Verity (2026) pode provocar um tremendo déjà vu no espectador de A Empregada (2025), que fez um enorme sucesso de público no começo do ano. Alguém pode até achar que o novo filme segue a fórmula do anterior, mas na verdade o suspense erótico com Dakota Johnson, Anne Hathaway e Josh Hartnett foi produzido quase simultaneamente ao título estrelado por Sydney Sweeney, Amanda Seyfried e Brandon Sklenar. E se trata da adaptação de um romance publicado pela escritora Colleen Hoover quatro anos antes do livro de Freida McFadden que foi levado às telas.
Estadunidense de 46 anos, Hoover já vendeu mais de 30 milhões de livros graças a histórias que costumam abordar traumas, luto, relacionamentos tóxicos e violência doméstica — e que apostam em segredos e reviravoltas. Verity é o quarto longa-metragem baseado em um romance dela. Sucede É Assim que Acaba (2024), Se Não Fosse Você (2025) e Uma Segunda Chance (2026). O roteiro foi escrito por Nick Antosca, o mesmo da série Cabo do Medo (2026), e a direção é assinada por Michael Showalter, da minissérie The Dropout (2022) e dos filmes Os Olhos de Tammy Faye (2021), Uma Ideia de Você (2024) e Um. Natal. Surreal. (2025).
Os pontos em comum entre Verity e A Empregada são muitos.
Nos dois filmes, a protagonista é uma jovem mulher que tem dificuldades financeiras e que vê uma oportunidade de salvação ou de ascensão ao ser contratada para trabalhar na casa de uma família rica. No caso de Verity, a personagem da atriz Dakota Johnson é Lowen Ashleigh, uma obscura romancista que aceita se tornar uma ghostwriter — como escritora fantasma, ela deve terminar os livros de uma autora famosíssima, Verity Crawford (encarnada por Anne Hathaway), que ficou paralisada e catatônica após um grave acidente de carro.
Nos dois filmes, a protagonista acaba se aproximando do marido, que é bonitão, carinhoso e bom pai. No caso de Verity, trata-se de Jeremy Crawford, interpretado por Josh Hartnett. Evidentemente, pinta uma tensão erótica.

Nos dois filmes, a figura da esposa exerce um papel intimidador. Mesmo acamada e em silêncio, Verity provoca desconforto e uma sensação de perigo em Lowen.
Nos dois filmes, a protagonista vai morar em uma propriedade luxuosa e geograficamente isolada. No caso de Verity, Lowen está fisicamente distante de sua rede de apoio, personalizada no agente literário Corey (Ismael Cruz Córdova), e presa no território do casal. Aparentemente bela e elegante, a casa dos Crawford revela-se um labirinto sufocante, com corredores longos, portas trancadas e cômodos secretos — a exemplo do que também se vê em A Empregada.
Nos dois filmes, a protagonista, ao bisbilhotar a intimidade do casal, descobre segredos que mudam a dinâmica da história e comprovam: há sempre algo debaixo da superfície. No caso de Verity — não é spoiler, fique sossegado —, Lowen encontra uma autobiografia secreta e perturbadora que tem poder análogo à da carta de Nina Winchester em A Empregada.

Nos dois filmes, o suspense erótico é uma embalagem pop para assuntos pesados. No caso de Verity, sem dar spoiler, pode-se dizer que a trama aborda vicissitudes da maternidade.
Nos dois filmes, a protagonista e o espectador estão sob o risco da ilusão e à mercê da manipulação. A narrativa brinca com as perspectivas de ambos, mas espalha pistas que depois, à luz das revelações, ganham sentido e significado. No caso de Verity, porém, o mistério é mais engenhoso, até por causa do ofício das personagens femininas, tão habituadas a inventar vidas e fatos e a embaralhar o real com a ficção.
Enfim: Verity tem muitas semelhanças com A Empregada, mas talvez se leve a sério demais — até nas cenas de sexo —, enquanto o filme anterior não tem medo nem vergonha de ser exagerado. O diretor Paul Feig e o elenco se divertem com os próprios clichês do gênero, enquanto Michael Showalter exerce uma direção apática e sem personalidade — o que se salva é a atuação de Anne Hathaway, calcada na ambiguidade. E A Empregada constrói melhor suas reviravoltas e seu clímax, enquanto Verity tem um final apressado: não dá tempo para os personagens lidarem com dilemas morais e as consequências de seus atos, e não dá tempo para acharmos críveis as transições psicológicas e assimilarmos a possibilidade da dúvida eterna.
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