
Pelo menos aos olhos dos estrangeiros, o cinema brasileiro vive um momento esplendoroso. Entre 2024 e 2026, graças aos filmes Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto, O Último Azul e A Margem do Rio, fomos premiados no Oscar, no Globo de Ouro e nos festivais de Veneza, de Cannes, de Berlim e de Locarno.
Mesmo com motivos de sobra para orgulho, no Brasil existe muito preconceito contra a produção nacional. Há estereótipos e visões reducionistas: "Só se faz filme sobre favela ou miséria", "Só se faz filme sobre a ditadura militar", "Só se faz filme de sexo", "Só se faz comédia comercial".
Na verdade, a indústria cinematográfica brasileira é bastante diversificada. E os gêneros são variados, como mostra esta lista de títulos disponíveis no streaming: tem comédia romântica, tem drama biográfico, tem documentário, tem realismo mágico, tem suspense policial, tem thriller erótico LGBT+ e tem até faroeste.
Confira sete filmaços dos anos 2020 para ver neste Sete de Setembro. A ordem é apenas cronológica, e clique nos links se quiser saber mais.
1) Emicida: AmarElo — É Tudo pra Ontem (2020)

De Fred Ouro Preto. O documentário consegue conjugar os bastidores de um show de rap à história da luta negra no país. Ao lançar o disco AmarElo no Theatro Municipal, em São Paulo, em novembro de 2019, Emicida percebeu o simbolismo da inédita ocupação, por artistas e espectadores negros, daquele espaço criado pela elite da cidade sob inspiração da Ópera de Paris, em 1911. A partir disso, propõe uma viagem no tempo. Vai desde a abolição tardia da escravidão no Brasil, em 1888, até o estabelecimento do rap, já no final do século 20, como o ponto de "conexão das classes operárias às ideias dos intelectuais pretos". Vai do arquiteto Joaquim Pinto de Oliveira (1721-1811), ex-escravizado que ficou conhecido pela alcunha de Tebas, à vereadora Marielle Franco (1979-2018), assassinada a mando de irmãos envolvidos com milícias do Rio de Janeiro.
A jornada inclui uma parada no próprio Theatro Municipal, mais precisamente em suas escadarias, onde, em 1978, surgiu o Movimento Negro Unido (MNU), em protesto contra a violência racial durante a ditadura militar. Ao passear pela história brasileira, Emicida: AmarElo promove o resgate de uma cultura condenada à periferia assim como aconteceu com a população negra, jogada dos centros das capitais para suas bordas. Emicida destaca o papel do samba como elemento identitário nacional, celebra artistas como a atriz Ruth de Souza (1921-2019) e o baterista Wilson das Neves (1936-2017) e apresenta às novas gerações Lélia González (1935-1994), uma das pioneiras nas discussões sobre a relação entre gênero, classe e raça no mundo. (Netflix)
2) O Dia que te Conheci (2023)

De André Novais Oliveira. Esta comédia romântica nada hollywoodiana é um pequeno grande filme: dura apenas 70 minutos, custou uma ninharia, foi rodado em uma semana e meia, se passa ao longo de um único dia e não tem nem cinco atores no elenco.
Em O Dia que te Conheci, Renato Novaes faz o papel de Zeca, que, sempre com sono, chega atrasado à escola onde trabalha como bibliotecário, após uma demorada viagem de ônibus na região metropolitana de Belo Horizonte. Grace Passô encarna Luísa, uma funcionária que ele não conhecia e que foi encarregada de dar a má notícia: Zeca está demitido. A situação não é amigável, mas pinta uma conexão entre os dois, ambos negros, ambos periféricos, ambos com corpos fora do padrão. (Globoplay e aluguel em Google Play e YouTube)
3) Malu (2024)

De Pedro Freire. Ganhador de cinco troféus Redentor no Festival do Rio e de três prêmios no Grande Otelo, da Academia Brasileira de Cinema, o filme é baseado na vida da atriz paulista Malu Rocha, nome artístico de Maria de Lourdes Carvalho Carneiro (1947-2013). O diretor e roteirista é filho do casamento dela com o ator Herson Capri. A trama se concentra em um período de ostracismo e aperto financeiro, nos anos 1990, e se passa quase todo em uma casa precária da zona oeste do Rio que Malu (personagem de Yara de Novaes) sonhava transformar em um centro cultural. Ela compartilha o lar com a mãe, dona Lili (papel de Juliana Carneiro da Cunha), e recebe a visita da filha, Joana (Carol Duarte), que seguiu a carreira artística e vem de uma temporada nos palcos de Paris.
Dá-se um choque violento — até fisicamente — de gerações, de personalidades, de ambições e de frustrações. Cada refeição familiar em Malu é como uma bomba-relógio que pode ser detonada por algo simples, tipo a presença de alho na comida. (Telecine, via Amazon Prime Video ou Globoplay)
4) Oeste Outra Vez (2024)

De Erico Rassi. Este filme ambientado na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, venceu o Festival de Gramado e também conquistou os Kikitos de ator coadjuvante (o veterano Rodger Rogério) e fotografia. Na trama, Totó (personagem de Ângelo Antônio) fica inconformado pelo fato de a mulher que ama estar agora com outro homem, Durval (Babu Santana). Os dois trocam sopapos e pontapés na estrada, e Totó leva a pior. A perna ferida é o de menos, o que dói é a solidão. Então, o protagonista contrata um velho pistoleiro para tentar matar Durval.
Oeste Outra Vez é o faroeste dos homens tristes, dos homens patéticos, dos homens que não conseguem falar sobre seus sentimentos, dos homens que só têm a bala e a bebida como companheiras. (Telecine, via Amazon Prime Video ou Globoplay)
5) Ato Noturno (2025)

De Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Rodado em Porto Alegre, Ato Noturno ganhou quatro troféus no Festival do Rio: melhor ator (Gabriel Faryas), roteiro, fotografia (Luciana Baseggio) e o prêmio Felix, dedicado a produções de temática LGBTQIAPN+. Este thriller erótico remete ao cinema de Brian De Palma. Na trama, um ator e um político vivem um caso em sigilo enquanto buscam ascender em suas carreiras. Matias (papel de Gabriel Faryas), que recém estreou um espetáculo teatral no qual divide cenas com seu colega de apartamento, Fábio (Henrique Barreira), persegue a chance de estrelar uma grande série que vai ser gravada na capital gaúcha. Rafael (encarnado por Cirillo Luna), apoiado por empresários e escudado pelo chefe de segurança, Camilo (Ivo Müller), é candidato a prefeito e vem subindo nas pesquisas eleitorais.
Matias e Rafael precisam ser discretos, mas há um elemento extra e explosivo de tensão: o tesão pelo sexo em lugares públicos. Pode ser no Parque da Redenção, por exemplo, ou em um morro da cidade, onde as cenas combinam sedução e ameaça. (Aluguel em Google Play e YouTube)
6) Cinco Tipos de Medo (2025)

De Bruno Bini. No Festival de Gramado do ano passado, este suspense ambientado em Cuiabá ganhou os Kikitos de melhor filme, ator coadjuvante (o rapper Xamã), roteiro e montagem. Uma narração em off na abertura lista cinco grandes medos: de médico, de lugares fechados, da solidão, de ficar sem dinheiro e de morrer. Cada um deles é ilustrado por uma brevíssima cena que mostra os cinco personagens principais. Marlene (Bella Campos) é uma enfermeira que ficou desempregada após a pandemia de covid-19. Sapinho (Xamã) chefia o tráfico de drogas no Jardim Novo Colorado. A policial Luciana (Bárbara Colen) é capitã do Bope. Ivan (Rui Ricardo Diaz) é um advogado que tem uma filha prematura ainda internada no hospital, e Murilo (João Vitor Silva), um jovem violinista Murilo.
O ponto de partida é um ataque a tiros à casa de Murilo. A partir daí, Cinco Tipos de Medo faz pequenos recuos no tempo narrativo e revisita cenas para mostrar como as cinco trajetórias se conectam, se cruzam e se chocam, emparedando seus personagens com dilemas morais, refletindo sobre como a violência urbana contamina e ilustrando nossa busca por redenção em meio à dor. (Telecine, via Amazon Prime Video ou Globoplay)
7) A Natureza das Coisas Invisíveis (2025)

De Rafaela Camelo. Glória (Laura Brandão) é uma garota de 10 anos que passa as férias de verão no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira, em Brasília. Lá, ela conhece Sofia (papel de Serena), menina que chamou a ambulância por causa do acidente doméstico de sua bisavó, que tem Alzheimer em estado avançado e agora está internada. Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Diante da iminência da morte da matriarca, as duas famílias viajam juntas para passar os últimos dias dela em um refúgio verde no interior de Goiás.
A Natureza das Coisas Invisíveis defende o afeto, a delicadeza, a reconexão com o telúrico e o valor da espiritualidade. A cereja deste bolo de sabor bem caseiro é a trilha sonora, tanto a música composta por Alekos Vuskovic, que contribui muito para o realismo mágico de certas cenas, quanto as pérolas resgatadas do cancioneiro brasileiro dos anos 1970 e 1980, como Fazenda, de Milton Nascimento, Eu Queria Dizer que te Amo numa Canção, de Fernando Mendes, e Quero Ser Locomotiva, de Jorge Mautner. (Netflix)
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