
A Sala Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, vai exibir a partir desta sexta-feira (4) os cinco filmes que competiram na Mostra de Longas Gaúchos do 54º Festival de Cinema de Gramado, promovida pela Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) e pelo Instituto Estadual de Cinema (Iecine). Todas as sessões serão comentadas e terão entrada franca.
A programação começa com A História Mais Triste do Mundo, às 19h15min de sexta. A adaptação do diretor e roteirista Hique Montanari para o livro infantojuvenil do psicanalista Mário Corso ganhou seis Kikitos: direção, ator (Arthur Seidel), roteiro (assinado pelo próprio Montanari), fotografia (Juarez Pavelak), desenho de som (Gabriela Bervian) e trilha musical (João Vitor Costa Dias).

Para driblar restrições orçamentárias, o filme combina cenas com atores, teatro de bonecos e técnicas de animação ao contar a história de Marco, um menino de 10 anos que é vendido pelos próprios pais a um circo e passa a enfrentar uma jornada de vicissitudes e amadurecimento.
No discurso de apresentação do longa em Gramado, Mário Corso comentou:
— Esta história é sobre não mentir para as crianças. O mundo é duro. Muitas das depressões adolescentes decorrem de crescer sem ser preparado para as dificuldades e as frustrações.

No sábado (5), às 19h15min, será a vez de Remanente: Voltagem, que recebeu os Kikitos de melhor atriz (para Áurea Baptista) e direção de arte (Tiago Retamal). Trata-se de um filme de terror rodado em Novo Hamburgo pelo diretor paulista Kapel Furman.
Na trama, Demian (papel de Ricardo Oliveira) e Victor (interpretado por Ricardo Gelli) são dois paramédicos que encontram um tesouro em um antigo porão e, sem querer, ativam um portal dimensional. Com isso, libertam a criatura conhecida como O Engenheiro, um ser com poderes eletromagnéticos disposto a tudo para recuperar as joias que lhe permitem viajar entre dimensões.

O filme de domingo (6), às 19h15min, é o documentário Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido. O título já sugere que não se trata de um panegírico e indica a existência de algum ruído na relação da diretora, a jornalista Luciane Fagundes, 63 anos, com seu pai, Darcy Fagundes (1924-1984), um pioneiro do rádio gaúcho e do próprio tradicionalismo, irmão mais velho de Nico Fagundes (1934-2015) e Bagre Fagundes (1939-2026) e tio de Neto Fagundes. Mas as primeiras declarações de Luciane diante da câmera surpreendem:
— A minha relação com o pai foi marcada pelo desencontro. Nunca gostei de ouvir que eu era filha do Darcy Fagundes. Não conseguia me interessar em acompanhar, gostar. Amar. Acho que a única pessoa que não tinha uma relação boa com ele era eu.

Na terça-feira (8), às 19h15min, a Sala Paulo Amorim vai apresentar Morro da Cruz: Memória Popular, de Crystom Afronário, uma produção da Justiça Poética em parceria com o Instituto Sociocultural do Morro da Cruz.
O documentário traz o olhar de moradores, estudantes e artistas sobre a construção da identidade cultural e a celebração da periferia de Porto Alegre. Os depoimentos reconstituem a história do Morro da Cruz, exprimem a saudade dos tempos da popularidade do futebol de várzea e dão conta dos estigmas que recaem sobre a comunidade.

Por fim, na sessão das 19h15min de quarta-feira (9), será exibido o vencedor da Mostra Gaúcha: o documentário Filhas da Lua, de Tatiana Sager, que conquistou os Kikitos de melhor filme e melhor montagem (Gabriel Sager Rodrigues, filho da diretora) e também o troféu do Júri Popular.
Tatiana Sager e Renato Dornelles, coprodutor de Filhas da Lua, se destacam por apresentar um olhar sensível, revelador e contundente em seus documentários sobre o sistema carcerário brasileiro, que expõem falhas nas engrenagens, denunciam a política do aprisionamento em massa e dão rosto e voz a personagens marginalizados pela sociedade. O novo filme dá sequência ao trabalho realizado em Central: O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil (2017), em Olha pra Elas (2023) e na série Retratos do Cárcere (2020).
O documentário premiado em Gramado acompanha a rotina, os laços de afeto e a luta de quatro travestis para reconstruir suas vidas após passarem pelo sistema carcerário. As quatro personagens são Dandara de Brum Borges, Fabíula Yasmin Rezende de Souza, Rafaela Hammel e Rubby Moreira. Filhas da Lua aborda a transfobia e os desafios enfrentados tanto dentro quanto fora da prisão, como a falta de acolhimento e de oportunidades.
— Quando a gente fica bastante preso encarcerada, a gente passa a não enxergar mais o lado de fora. A gente quer muito a liberdade. Mas quando chega a finaleira, o maior medo é sobre o lado de fora — diz Fabíula no começo do filme. — A gente não sabe o que espera a gente lá fora, se eu for poder passar naquele lugar onde houver um monte de pessoas masculinas, se eu não vou ser agredida, cuspida, apedrejada.
Filhas da Lua é codirigido por Li Rassier de Andrade, um homem trans. Ao posarem para as fotos no palco do Palácio dos Festivais, após o anúncio do triunfo no Júri Popular, integrantes da equipe desfraldaram a bandeira do orgulho trans. Na hora do Kikito de melhor filme, Nathalia Andrade França, amiga de Rubby e personagem de um novo documentário de Tatiana Sager, chamado Esquinas Coloridas, foi ao microfone e bradou:
— Viva as travestis, viva as gays, viva os heteros, viva a diversidade.
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