
Coyote vs. Acme (2026), que estreou nos cinemas na quinta-feira (27), é um filme genial, mas talvez só consiga enxergar isso quem cresceu assistindo aos desenhos animados da Warner Bros, os chamados Looney Tunes.
Surgido em 1930, o nome parodia as animações musicais da Disney, as Silly Symphonies (em inglês, sinfonias tolas). Ao adotar Looney Tunes (que pode ser traduzido como melodias lunáticas), a Warner indicava um estilo de humor mais anárquico do que o da concorrente.
Em comum, os dois estúdios apostavam em narrativas de predador versus presa e em fórmulas sadomasoquistas de diversão: assim como o Pato Donald era azucrinado pelos esquilos Tico e Teco, o gato Frajola sempre se quebrava ao tentar capturar o canário Piu-Piu.
Mas a Disney buscava a ilusão do real, com mais respeito aos cenários, às leis da física e à anatomia dos personagens, enquanto na Warner alguém podia desenhar um túnel na parede e atravessá-lo ou arrancar a linha do horizonte com a mão; os corpos viram sanfona, explodem e se regeneram; e a gravidade é uma força psicológica: o sujeito só cai quando olha para baixo.
E como a turma do Mickey mirava toda a família americana, seus desenhos procuravam passar uma lição de moral. Já a casa do Pernalonga fazia a piada pela piada e, ciente de que havia um público adulto, se permitia doses de cinismo, referências à cultura pop, conotações políticas, psicanalíticas e até sexuais.

Entre os principais diretores dos Looney Tunes, estavam Tex Avery (1908-1980) e Chuck Jones (1912-2002). E entre os personagens mais famosos estão o Papa-Léguas (Roadrunner no original) e Wile E. Coyote, um coiote astuto e ardiloso mas sofrenildo: nunca consegue pegar e papar a ave de pernas longas que zune pelos desertos e pradarias do sudoeste americano.
A dupla foi criada por Chuck Jones e o roteirista Michael Maltese (1908-1981) e estreou em 1949. A caçada do Papa-Léguas pelo Coyote foi retratada em cerca de 50 curtas-metragens, e os dois personagens foram coadjuvantes em três longas: Space Jam (1996), Looney Tunes: De Volta à Ação (2003) e Space Jam: Um Novo Legado (2021). Agora, ganharam um filme para chamar de seu.
Mas Coyote vs. Acme quase não viu a luz do dia. Baseado em um artigo humorístico publicado por Ian Frazier na revista The New Yorker, em 1990, o filme foi escrito por Samy Burch, indicada ao Oscar de roteiro original por Segredos de um Escândalo (2023), e dirigido por Dave Green, de As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras (2016). Realizada em 2022, a produção custou US$ 70 milhões e mistura atores com personagens animados, como o clássico Uma Cilada para Roger Rabbit (1988) e os dois Space Jam.
Em novembro de 2023, após a fusão corporativa que colocou David Zaslav no comando da Warner Bros. Discovery, a empresa resolveu engavetar o filme, que estava totalmente pronto, para declarar os custos como prejuízo e obter um abatimento de US$ 30 milhões em impostos (o tax write-off, como chamam nos EUA), repetindo a decisão polêmica tomada com Batgirl. Após uma grande reação negativa do público e da indústria, o estúdio recuou e permitiu que os produtores de Coyote vs. Acme procurassem uma nova distribuidora. Por US$ 50 milhões, a Ketchup Entertainment comprou os direitos do filme, viabilizando seu lançamento.
O irônico é que esses bastidores estão espelhados na história de Coyote vs. Acme, que satiriza a ganância corporativa e a falta de escrúpulos de grandes conglomerados.

Na trama, Coyote, após décadas sendo eletrocutado, explodido, esmagado por bigornas e arremessado de penhascos nas suas tentativas de capturar o Papa-Léguas, enfim se dá conta que a culpa não é de sua incompetência, mas sim da qualidade dos produtos da Acme Corporation. Então, ele resolve contratar os serviços do escritório de advocacia Avery, Jones & Maltese, localizado em Albuquerque, a maior cidade do Novo México.
O problema é que Kevin Avery (papel de Will Forte) é um advogado acomodado, covarde, derrotista. Acha que seu cliente deve se contentar com um punhado de dólares e um novo par de patins-foguete. Mas Coyote se recusa a assinar um acordo proposto pelo chefão do Jurídico da Acme, Buddy Crane (encarnado por John Cena), que intimida e humilha Avery desde os tempos de faculdade. Ele quer mover um processo milionário de danos pessoais.

Como o título atesta, Coyote vs. Acme é um filme de tribunal com um típica luta de Davi contra Golias, mas trocando o drama pela comédia. Assim como pessoas de carne e osso coabitam o mesmo mundo com personagens de animação (aliás, entre os coadjuvantes estão Pernalonga, Patolino, Gaguinho e Frangolino), o humor físico coexiste com a sátira afiada ao capitalismo, ao consumismo, à burocracia das grandes empresas e às chicanas judiciais. E subvertendo um pouco a alma dos Looney Tunes, dá até para encontrar uma lição de moral: por jamais desistir, Coyote vira um símbolo de resiliência e obstinação.
Por outro lado, Coyote vs. Acme segue à risca as regras estabelecidas por Chuck Jones para os desenhos animados — Coyote só se comunica usando placas de madeira escritas à mão, e o Papa-Léguas só faz bip-bip! — ao mesmo tempo em que, genialmente, as transforma em argumentos e provas tanto para a acusação quanto para a defesa. Por exemplo: se todas as ferramentas e armas devem vir da Acme, Avery aponta o monopólio predatório da empresa; e se Coyote poderia parar a qualquer momento, não fosse um fanático, a Acme usa a tese da assunção de risco.
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