
Nesta sexta-feira, 11 de setembro, o mundo vai lembrar os 25 anos dos atentados terroristas que mudaram profundamente a geopolítica, a segurança global, a vida cotidiana e também a indústria do cinema e da TV.
Os ataques da Al-Qaeda ao World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Washington, em 11 de setembro de 2001, tiveram impacto imediato sobre Hollywood, tão acostumada a usar as Torres Gêmeas como cenário e a produzir filmes-catástrofe. De cara, foi tirado de circulação um trailer de Homem-Aranha (2002) — em uma das cenas, o super-herói construía uma teia no WTC. Em seguida, as exibições de Armageddon (1998) na televisão suprimiram as cenas nas quais destroços de um asteroide gigante atingiam o prédio que era símbolo do poderio financeiro dos Estados Unidos.
O filme Efeito Colateral (2002), estrelado por Arnold Schwarzenegger e com um ato de terrorismo contra um edifício de Los Angeles, teve a estreia adiada, assim como o seriado 24 Horas (2001-2010), que logo no primeiro episódio mostra um avião comercial sendo explodido por uma bomba. Aliás, o agente Jack Bauer (papel de Kiefer Sutherland) acabou personificando o sentimento americano pós-11 de Setembro. A cada temporada, o seriado oferecia ao país a chance de evitar uma tragédia semelhante. E a cada temporada 24 Horas bebia da cultura do medo que marcou os governos de George W. Bush, entre 2001 e 2009, e validava a guerra ao terror.
O cinema de ficção decretou uma espécie de quarentena após os atentados. A ação comandada pelo saudita Osama bin Laden (1957-2011) provocou uma estranha sensação: a de que todo aquele terror já havia sido visto à exaustão em um contexto mais seguro, o dos filmes como Inferno na Torre (1974) ou Independence Day (1996). Assim, os primeiros títulos a abordarem o ataque terrorista e suas consequências foram documentários, como 9/11, lançado em 2002 e atualmente indisponível no streaming.

Com narração do ator Robert de Niro e batizado da forma como os americanos usam as datas (o mês vem antes do dia), o documentário dos irmãos franceses Gedeon Naudet e Jules Naudet é um registro do inferno que Manhattan virou no 11 de Setembro. Os diretores acompanhavam a rotina de um novato em um quartel dos bombeiros a apenas sete quadras das Torres Gêmeas. Jules foi quem filmou o choque do primeiro avião contra um dos edifícios — é a única imagem conhecida desse momento. Depois, os dois irmãos ingressaram com os bombeiros nos prédios em chamas e acompanharam o desesperado trabalho de resgate às vítimas, mas sem mostrar cadáveres nos escombros ou as pessoas que se atiravam do edifício.
Entre as raras ficções da primeira hora, está A Última Noite (2002), de Spike Lee. Apesar de lançar filmes como Guerra dos Mundos (2005), de Steven Spielberg, que funciona como uma alegoria do 11 de Setembro e do trauma de uma nação, Hollywood demorou cinco anos para se sentir apta a faturar em cima do 11 de Setembro. O intervalo para transformar a realidade em obra ficcional, aparentemente excessivo em uma indústria sempre atenta a fatos marcantes e temas polêmicos, foi necessário pra expirar a autocensura e reabrir a ferida, mas adotando um tom respeitoso e realçando o caráter de sagrado.
A seguir, confira 11 filmes para ver nos 25 anos do 11 de Setembro.
1) 11 de Setembro (2002)

De vários diretores. Nesta antologia de curtas-metragens, 11 cineastas de 11 países apresentam sua visão dos atentados em 11 minutos, 9 segundos e um fotograma — em referência à data 11/09/01. Entre os diretores, estão a iraniana Samira Makhmalbaf, a indiana Mira Nair, o israelense Amos Gitai e o egípcio Youssef Chahine. O curta do francês Claude Lelouch narra uma comovente e original história de amor entre uma surda e um guia de turismo em Nova York, no dia da tragédia. O japonês Shohei Imamura ambientou seu filme na Segunda Guerra Mundial, para ligar o fanatismo dos militares de seu país, que são os inventores dos camicases, ao extremismo islâmico. O contundente epílogo estampa: "Não existe guerra santa". O filme do inglês Ken Loach é sobre um chileno em Londres que escreve uma carta às "queridas mães, pais e entes queridos daqueles que morreram em Nova York" e relembra que os seus entes queridos também foram assassinados num 11 de setembro: o de 1973, no golpe militar apoiado pela CIA que derrubou o presidente socialista Salvador Allende.
O curta do diretor mexicano Alejandro González-Iñárritu perturba: com a tela preta, ele intercala uma oração muçulmana, noticiários de rádio, testemunhos, sirenes, exclamações de espanto e recados em secretárias eletrônicas deixados pelas vítimas. Em imagens-relâmpago, aparecem pessoas se atirando do World Trade Center. O americano Sean Penn comove: Ernest Borgnine encarna um viúvo nova-iorquino em um apartamento sob a sombra das torres gêmeas, que impede o desabrochar das flores da mulher amada, com quem ainda conversa através dos vestidos que deita sobre a cama. (Indisponível no streaming, mas lançado em DVD no Brasil pela Europa Filmes)
2) A Última Noite (2002)

De Spike Lee. Baseado em um romance de David Benioff publicado antes do 11 de Setembro, é o primeiro filme a mostrar o Ground Zero: logo na abertura, aparecem os holofotes que simulavam o World Trade Center, com um lamento islâmico na trilha sonora.
A Última Noite mostra as derradeiras 24 horas de liberdade de um traficante de drogas condenado a sete anos de prisão e interpretado por Edward Norton. Ele personifica a perda da ilusão da invulnerabilidade, o medo pelo futuro de Nova York e o desejo de ficar perto de quem ama: seu pai (papel de Brian Cox), sua namorada (vivida por Rosario Dawson) e seus amigos (personagens de Barry Pepper e Phillip Seymour Hoffman). (Disney+)
3) Fahrenheit 11 de Setembro (2004)

De Michael Moore. O diretor americano lançou a pedra fundamental de Fahreinheit 11 de Setembro no dia em que recebeu o Oscar de melhor documentário por Tiros em Columbine, em março de 2003. No discurso de agradecimento, ele atacou o presidente George W. Bush, que três dias antes havia determinado a invasão do Iraque pelos Estados Unidos: "Nós, documentaristas, não gostamos de ficção. Somos contra eleições fictícias que levam à presidência um homem que faz guerra com razões fictícias".
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, o filme traça as relações perigosas entre os negócios da família Bush e milionários sauditas como Osama bin Laden. Há revelações embasbacantes, provocações capciosas e manipulações — tanto da imagem quanto da emoção, ora com altíssimo espírito cômico, ora com sentimentalismo rasteiro. O título vem de um clássico da literatura de ficção científica, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Na trama desse romance ambientado em um futuro totalitário, os livros são proibidos e queimados. Moore acreditava que o governo dos EUA, com a conivência da imprensa, também estava "queimando" o conhecimento, omitindo ou alterando informações. Por exemplo: em 6 de agosto de 2001, o presidente Bush recebeu um relatório da CIA que alertava sobre um iminente ataque terrorista por Bin Laden. Ninguém deu bola, e 36 dias depois o World Trade Center e o Pentágono foram alvo dos aviões sequestrados. (Indisponível no streaming, mas lançado em DVD pela Europa Filmes)
4) As Torres Gêmeas (2006)

De Oliver Stone. O drama se baseia na história verídica dos policiais portuários John McLoughlin e Will Jimeno (interpretados por Nicolas Cage, em desempenho correto, e Michael Peña, com improváveis traços cômicos), que ficaram soterrados sob as carcaças do WTC. Suas esposas são vividas por Maria Bello e Maggie Gyllenhaal.
Diretor com gosto por teorias conspiratórias (vide JFK) e crítico habitual da política externa dos EUA (como em Platoon e Nascido a 4 de Julho), Stone evita o debate e a investigação em As Torres Gêmeas. Prefere a carga emotiva. Mas exagera no tom patriótico e dá contornos de Guerra Santa ao fazer um fuzileiro naval (Michael Shannon) surgir como Jesus Cristo no delírio de Jimeno, por exemplo. (Aluguel em Amazon Prime Video, Google Play e YouTube)
5) Voo United 93 (2006)

De Paul Greengrass. No dia em que a Terra parou, eles não ficaram inertes. Enquanto as autoridades dos EUA oscilavam entre a indecisão e a confusão, os passageiros do voo 93 da United Airlines viraram "os primeiros habitantes do mundo pós-11 de Setembro", como bem definiu o diretor inglês. Confrontadas com seu terrível destino (o alvo, especula-se, era o Congresso), 40 pessoas comuns enfrentaram os sequestradores da Al-Qaeda no céu da Pensilvânia.
Como fizera em Domingo Sangrento (2002), sobre o massacre de manifestantes católicos por soldados ingleses na Irlanda do Norte, em 1972, Greengrass adotou o gênero do docudrama em Voo United 93 — que disputou o Oscar nas categorias de melhor direção e melhor edição. A câmera digital está sempre na mão, e os atores eram desconhecidos. A reconstituição é impactante e realista — incluindo pilotos e comissárias de bordo no papel de tripulantes, e controladores de tráfego aéreo e militares repetindo em cena seu trabalho no 11 de Setembro. (Aluguel em Amazon Prime Video, Google Play e YouTube)
6) Reine Sobre Mim (2007)

De Mike Binder. O ator Adam Sandler interpreta Charlie Fineman, homem que vive deprimido e solitário após perder a família no ataque a Nova York.
Um dia, ele reencontra um antigo colega de faculdade (Don Cheadle), por sua vez sobrecarregado pelas responsabilidades domésticas e profissionais. Para os dois, a retomada da amizade e a lembrança dos bons momentos do passado será um estímulo para dar um novo sentido a suas vidas. (Netflix)
7) Tão Forte e Tão Perto (2011)

De Stephen Daldry. É a adaptação do romance Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, do escritor Jonathan Safran Foer. Na trama, um guri (papel de Thomas Horn) busca achar uma mensagem em uma chave encontrada nos pertences do pai (Tom Hanks), que morreu na tragédia do WTC.
Tão Forte e Tão Perto concorreu ao Oscar nas categorias de melhor filme e ator coadjuvante (Max von Sydow) e também traz no elenco Sandra Bullock (a mãe viúva) e Viola Davis. (Aluguel em Amazon Prime Video, Google Play e YouTube)
8) A Hora Mais Escura (2012)

De Kathryn Bigelow. Concorreu ao Oscar nas categorias de melhor filme, melhor atriz (Jessica Chastain), roteiro original, edição e edição de som (a única premiada). Em nova parceria com o roteirista Mark Boal, depois do oscarizado Guerra ao Terror (2008), a diretora resume em duas horas e meia os 10 anos da caçada que culminou na execução do terrorista Osama bin Laden por uma tropa de elite da marinha dos EUA, em maio de 2011.
A Hora Mais Escura reflete dois momentos distintos da política dos EUA: a força bruta da era George W. Bush e a gestão estratégica de Barack Obama. No começo do filme, na Arábia Saudita, o agente Dan (Jason Clarke) tortura um prisioneiro que, acredita, tem pistas sobre o paradeiro do líder da Al-Qaeda. Mais adiante, entra em campo a analista da CIA Maya (Jessica Chastain), que aposta na tecnologia, no cruzamento de dados e na intuição. (Claro TV+)
9) O Relutante Fundamentalista (2012)

De Mira Nair. Trata-se da adaptação da cineasta indiana para o romance O Fundamentalista Relutante, do paquistanês Mohsin Hamid. O protagonista, Changez, é encarnado por Riz Ahmed, ator britânico e muçulmano.
Em um café de Lahore, no Paquistão, ele narra a um jornalista dos EUA (Liev Schreiber) a história de como seus sonhos de prosperidade em Wall Street e de casamento foram profundamente alterados pelo desmoronamento das Torres Gêmeas. No elenco, Kiefer Sutherland e Kate Hudson. (Aluguel no Apple TV)
10) O Relatório (2019)

De Scott Z. Burns. Baseado em fatos, é sobre os esforços de um assessor parlamentar (personagem de Adam Driver) para denunciar um programa de tortura implementado pela CIA no Oriente Médio pós-11 de Setembro.
O filme alterna passado e presente ao retratar os seis anos da batalha de Daniel J. Jones para divulgar um documento em que revelava as técnicas adotadas na Guerra do Iraque. Contratado por um comitê bipartidário para analisar centenas de páginas, ele é trancado numa sala sem acesso a internet ou privado de entrevistas com profissionais que atuaram no programa. Sua única aliada é a senadora Dianne Feinstein (Annette Bening, indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante). (Paramount+)
11) O Mauritano (2021)

De Kevin Macdonald. O filme conta a história real de Mohamedou Ould Slahi (encarnado por Tahar Rahim). Nascido na Mauritânia, uma república islâmica no nordeste da África, ele era um estudante de engenharia elétrica na Alemanha que acabou injustamente enredado nas investigações sobre o 11 de Setembro. Ficou preso durante 14 anos na famigerada base de Guantánamo, onde sofreu torturas.
Jodie Foster ganhou o Globo de Ouro de atriz coadjuvante na pele da advogada de defesa de Slahi, e Benedict Cumberbatch encarna o oficial do exército designado para fazer a acusação. (Amazon Prime Video)
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