
A atriz brasileira com a carreira mais consistente em Hollywood nasceu em São Paulo, mas é uma porto-alegrense de coração.
— Sou apaixonada pelo Rio Grande do Sul. Meus melhores amigos são gaúchos — disse Alice Braga, 43 anos, assim que começou a entrevista com Zero Hora sobre a segunda temporada da série Matéria Escura (Dark Matter), lançada na sexta-feira (28) pelo Apple TV. — Ontem eu estava na pré-estreia do novo filme do Jorge Furtado (a comédia Muito Prazer), que é um grande amigo da minha mãe (a atriz Ana Braga, irmã de Sônia Braga). Eu conheço ele desde os meus oito anos de idade.
Foi em Porto Alegre que Alice Braga, quando tinha 14 anos, deu seus primeiros passos na indústria audiovisual. Ela fez um papel coadjuvante no curta-metragem Trampolim (1998), escrito por Rosângela Cortinhas, dirigido por Fiapo Barth e protagonizado pela filha do casal, Julia Barth, em uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre. E foi das mãos de Julia que Alice, no Festival de Gramado de 2023, recebeu o Kikito de Cristal, troféu dedicado a homenagear expoentes latino-americanos do cinema, da TV e do streaming.

Seu trabalho seguinte foi um marco do cinema brasileiro: Cidade de Deus (2002). Na pele de Angélica, Alice mereceu a primeira das nove indicações ao Grande Otelo, o prêmio da Academia Brasileira de Cinema, na categoria de coadjuvante. Como melhor atriz, ela venceu por Cidade Baixa (2005), filme em que vive um triângulo amoroso com os personagens de Wagner Moura e Lázaro Ramos, e concorreu por Cabeça a Prêmio (2009), Muitos Homens num Só (2014) — que rendeu o Calunga no Festival de Recife — e Eduardo & Mônica (2022).

Cidade de Deus e Cidade Baixa levaram Alice Braga à Cidade dos Sonhos. A estreia em uma grande produção de Hollywood foi em 2007, atuando ao lado de Will Smith em Eu Sou a Lenda. Depois, contracenou com Matt Damon e Wagner Moura em Elysium (2013). Seus créditos no cinema incluem duas aventuras baseadas em quadrinhos de super-heróis, Os Novos Mutantes (2020) e O Esquadrão Suicida (2021), o suspense Hypnotic: Ameaça Invisível (2023), com Ben Affleck, e a dublagem de uma personagem em Soul (2020), animação da Pixar ganhadora do Oscar.

No mundo dos seriados, Alice foi a primeira brasileira a protagonizar uma série de grande duração na TV dos Estados Unidos, liderando por cinco temporadas o elenco de A Rainha do Sul (2016-2021). Sua personagem, Teresa Mendoza, é uma mulher que foge do México e constrói um império do tráfico de drogas nos EUA. A atriz também trabalhou em We Are Who We Are (2020), Assassinato no Fim do Mundo (2023) e Homem em Chamas (2026).
Em Matéria Escura, Alice Braga interpreta a psiquiatra Amanda Lucas, que, na primeira temporada, se torna a principal companheira do protagonista, o físico Jason Dessen (papel de Joel Edgerton), enquanto ele viaja pelo multiverso na tentativa de voltar para sua verdadeira família. Na segunda temporada, que terá 10 episódios, um a cada sexta-feira, Amanda vai juntar forças com o neurocientista Ryan Holder (personagem de Jimmi Simpson) para encontrar o caminho de casa.

Lançada pelo Apple TV em 2024, a série é baseada no homônimo livro de ficção científica publicado em 2016 pelo escritor estadunidense Blake Crouch, que assina como criador, produtor executivo, showrunner e roteirista da adaptação. Matéria Escura é definida como uma história sobre o caminho que não foi escolhido. Na primeira temporada, Jason foi sequestrado por um homem armado e mascarado enquanto caminhava pelas ruas de Chicago até a casa onde morava com a esposa, Daniela (Jennifer Connelly), e o filho adolescente, Charlie (Oakes Fegley).
O protagonista é colocado dentro da chamada Caixa e transportado para uma versão alternativa de sua vida. O sequestrador, por sua vez, assume o lugar da vítima: trata-se de um Jason vindo de uma outra realidade, na qual é um cientista brilhante e bilionário, mas arrependido de ter trocado o amor pelo sucesso profissional.
Na entrevista a seguir, Alice Braga fala, sem spoilers, sobre a evolução de sua personagem, destaca as virtudes de Matéria Escura e revela o que faria se pudesse ter acesso à Caixa:
Se você tivesse de convencer alguém a começar a assistir a Matéria Escura, o que diria?
Matéria Escura é uma série muito interessante porque tem muito entretenimento e muita ação, mas também muito engajamento emocional. É o tipo de série que eu gosto de ver, pois eu adoro ficção científica, como Silo, que eu também assisto. Mas eu acho incrível como o Blake Crouch (autor do livro original e showrunner da série) escreve ficção científica de uma forma muito humana. Não é só sobre a coisa da física, carros voando e tudo mais. Ele é um cara que fala sobre as relações humanas e os sentimentos humanos. A série fala muito sobre a vida das pessoas, sobre as possibilidades da vida, sobre os caminhos que a gente toma, sobre as decisões que a gente toma, os "e se" e "se eu tivesse feito isso ou aquilo", sobre arrependimento, sobre amor, sobre escolhas. E agora a segunda temporada vem triplicando a aposta, falando um pouco sobre tecnologia, sobre até que ponto uma ótima criação tecnológica pode afetar as nossas vidas, pro bem e pro mal. A Caixa possibilita muitas coisas positivas, mas outras podem ser perigosas e destrutivas.
Você já pensou no que faria se tivesse acesso à Caixa? Mudaria algo na sua trajetória, escolheria alguma carreira diferente, recomeçaria a vida num lugar diferente, procuraria reencontrar alguma pessoa querida já falecida?
Ah, eu acho que essa coisa de você reencontrar uma pessoa que tinha morrido, como aconteceu com a minha personagem na primeira temporada, é muito bonita. Mas eu acho que não buscaria isso. Acho que eu adoraria viver outra carreira. Falando com você, um jornalista, parece até mentira, mas se eu não fosse atriz, eu adoraria ser uma repórter investigativa, uma repórter de guerra. Esse é um mundo alternativo que eu gostaria de espiar. Ao ler o livro, conversar com o Blake e fazer a série, me dei conta também de como é bonita a jornada do personagem principal, repensando muito sobre as escolhas da vida dele mas ao mesmo tempo percebendo que tudo de que ele precisa já existia. Às vezes, a gente fica elucubrando demais, e na verdade está na nossa frente o que a gente tem que fazer, é trabalhar com o que a gente tem e olhar fundo para dentro de nós.
Você já teve oportunidade de viver uma jornalista investigativa ou de guerra?
Não! Eu estou louca para fazer uma personagem assim. Eu fiz um curta-metragem, Vitória Régia (2026), em que eu era jornalista, mas era um curta. Eu adoraria fazer uma série sobre jornalismo investigativo, porque eu acho que é um universo muito fantástico. Eu amo jornalismo, eu tenho um respeito absoluto porque a sociedade precisa do jornalismo, nós precisamos para nos comunicar, para manter a verdade, para a gente ter acesso à informação. É uma profissão que admiro profundamente.

Na série, a personagem Amanda teve a nacionalidade mudada para brasileira e, também diferentemente do livro original, não desapareceu da trama. Pelo contrário, está ganhando destaque na segunda temporada. Pode falar sobre seu sentimento em relação a isso, sua responsabilidade e suas expectativas?
Foi através dos meus testes que o Blake me escolheu e aí ele falou: "Já que você é brasileira, vamos transformar a Amanda em brasileira". Eu fiquei muito feliz, porque durante muitos anos, sempre eram personagens latinas, mas de outros países, que eu interpretava. O Blake tem uma paixão pelo Brasil, ele tem muitos fãs no Brasil. E ele me contou que uma das perguntas que mais fizeram em relação ao livro foi sobre o que aconteceu com a Amanda. Então, a segunda temporada, ela é quase uma sequência do livro, porque a gente fez o livro inteiro na primeira temporada, e agora os fãs do livro e da primeira temporada têm a possibilidade de ver o que aconteceu com a Amanda. E eu adorei, porque é uma personagem que eu acho que está passando por uma jornada muito bonita, assim como todos os personagens. Ela passou por uma transformação externa muito forte, porque ela abandonou o mundo que ela vivia e entrou no multiverso, nesse mundo da Caixa. Achou um lugar que é, como eu digo, tido como perfeito porque tudo funciona, não tem a crise climática, as pessoas são empáticas. É uma cidade, é um lugar muito que deu certo, mas mesmo assim não é a casa dela, e isso diz muito sobre como a gente também tem que fazer o trabalho interno. Não adianta a gente mudar fisicamente de lugar se a gente não olhar para o nosso interno.
Como você gosta de ficção científica e de cenas de ação, pode falar sobre quais foram os desafios na segunda temporada?
Essa foi uma temporada que teve bastante ação. Sem dar spoiler, posso dizer que há um episódio com o Jason e a Blair (personagem de Amanda Brugel) que vai causar! É sensacional o plano-sequência. A Amanda passa por algumas cenas de ação, mas não tão fortes quanto na primeira temporada, mas passa por algumas aventuras, porque são muitos universos. E existe muita pós-produção, para o público conseguir ver como seria se isso tivesse acontecido no planeta.
O que você pode adiantar sobre como é a relação de Amanda com Jason na segunda temporada?
É uma relação bem interessante porque a gente percebe no fim da primeira temporada que muitos Jasons começaram a existir, por causa da Caixa. Então, na segunda temporada existem algumas possibilidades de reencontros.
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