
Os documentários de true crime da Netflix reforçam uma máxima cunhada pelo escritor Mark Twain (1835-1910): a verdade é mais estranha do que a ficção, porque não precisa se ater às possibilidades, não precisa fazer sentido. A vida real pode ser mais improvável e até inverossímil.
Dito isso, pode ficar sossegado: esta coluna vai evitar spoilers das histórias de crimes reais contadas em seis obras documentais da plataforma de streaming. Eu quero que você fique espantado como aconteceu comigo.
Começo a seleção com duas minisséries que, aparentemente, não têm muito em comum, fora o fato de terem sido produzidas em países vizinhos na América do Sul. Clique nos links se quiser saber mais.
1) Bandidos na TV (2019)

Minissérie em sete episódios dirigida por Daniel Bogado. Conta a história do apresentador de TV Wallace Souza, que se elegeu três vezes deputado estadual no Amazonas, em 1998, em 2002 e em 2006, graças a sua suposta luta contra o tráfico de drogas, carro-chefe de um programa que misturava assistencialismo com noticiário policial, o Canal Livre.
O emprego da palavra suposta é porque, segundo um delator, Wallace comandava uma organização criminosa: o apresentador foi acusado de encomendar assassinatos para que a equipe do Canal Livre chegasse antes da concorrência ao local do crime. Bandidos na TV equilibra os depoimentos e as evidências dos que defendem e dos que acusam Wallace.
2) Quem Matou María Marta? (2020)

Minissérie em quatro episódios dirigida por Alejandro Hartmann. É sobre um dos casos mais rumorosos e mais controversos da crônica policial argentina. Na abertura do primeiro capítulo, diz-se que recebeu dos jornais e das TVs mais atenção do que os julgamentos das juntas militares da ditadura, nos anos 1980.
Quando o documentário começa, o viúvo (o ex-investidor da bolsa de valores Carlos Carrascosa, hoje com 81 anos), familiares e amigos reconstituem a primeira versão da morte da socióloga María Marta García Belsunce, que era vice-presidente de uma fundação dedicada a crianças desaparecidas. Segundo esses relatos, ela havia sofrido uma espécie de acidente doméstico em 27 de outubro de 2002, aos 50 anos. Não demora a entendermos que não foi acidente, nem suicídio: alguém matou María Marta.
Quem? E por quê? Este é o grande enigma, que envolve os parentes, os médicos que tentaram prestar socorro e vizinhos do condomínio de casas onde a vítima e o marido moravam: o Carmel Country Club, um éden com campos de golfe, quadras de tênis e forte esquema de segurança a 50 quilômetros de Buenos Aires.
Bandidos na TV e Quem Matou María Marta? são semelhantes porque os casos retratados provocaram comoção na imprensa e dividiram a opinião pública. As duas histórias têm uma sucessão de reviravoltas, contradições desconcertantes e ramificações que acabam pintando um retrato de cada país. Os crimes são absolutamente distintos, mas os dois documentários mostram como as pessoas podem ser ambíguas, como os laços familiares pesam, como uma investigação deve prestar atenção tanto aos mínimos detalhes quanto ao quadro geral, como a polícia e a Justiça cometem tropeços, como o poder (seja pelo dinheiro, seja pela violência) compra o silêncio, como a verdade é algo subjetivo e como algumas perguntas nunca serão respondidas.
3) Don't F**k with Cats: Uma Caçada Online (2019)

Minissérie em três episódios dirigida por Mark Lewis. Em 2010, uma pessoa chocou as redes sociais ao postar vídeos em que aparece assassinando filhotes de gato. O documentário reflete sobre a tal da indignação seletiva: gatinhos, ao que parece, podem comover mais do que humanos.
Don't F**k with Cats também retrata bem a fome de fama instantânea, que leva algumas pessoas a escolher como porta de entrada a bizarrice ou mesmo a perversidade. E mostra como, hoje em dia, tudo o que fazemos deixa rastros digitais, deixa pegadas que podem ser seguidas mesmo que por detetives amadores.
4) O Golpista do Tinder (2022)

Documentário dirigido por Felicity Morris. A produção começa contando a história da norueguesa Cecilie Fjellhoy, uma loira sorridente com experiência no Tinder: no seu celular, ela mostra que, em sete anos de uso, houve 1.024 matches no aplicativo de paquera. Exibindo suas fotos do perfil, que evitam a exposição corporal, Cecilie frisa que está em busca de um amor profundo e duradouro, ainda que faça essa procura em um aplicativo que simboliza a instantaneidade e a futilidade. O Tinder é uma prateleira, como já disse alguém. O consumismo subjuga o romantismo, e escolhemos uma pessoa como se fosse uma mercadoria: queremos que ela venha sem defeitos. Se vier com dinheiro, melhor ainda.
Bem, aos 20 e tantos anos, Simon Leviev parecia ser o príncipe encantado dos contos de fadas. Filho de um bilionário russo-israelense do ramo dos diamantes, após um breve primeiro encontro em um hotel de alta classe em Londres, onde Cecilie morava, ele mandou um Rolls-Royce buscar a moça pra viajar de avião particular até a capital da Bulgária, onde ele tinha negócios a fazer.
O Golpista do Tinder é um documentário em tom de suspense eletrizante. Reviravoltas pontuam a trama até o final, que mistura um sabor de vingança a um travo amargo: rende uma boa discussão sobre o machismo estrutural e a misoginia. E a história evidencia como estamos sujeitos aos riscos do culto à imagem e da sedução da ostentação. O dinheiro compra nossa confiança: se alguém parece pobre, suspeitamos; se alguém parece rico, pode acabar nos deixando pobres.
5) Segredos e Crimes de Jimmy Savile (2022)

Minissérie em dois episódios dirigida por Rowan Deacon. Para justificar a presença na lista de documentários que parecem inacreditáveis, preciso dar mais detalhes sobre a história do DJ que se transformou em um dos mais famosos apresentadores de TV na BBC, no Reino Unido. Entre as atrações que comandou, estavam o musical Top of the Pops (1964-2006) e um programa infantil exibido durante quase 20 anos no qual se dedicava a realizar desejos enviados por crianças via correio. Jimmy Savile (1926-2011) tornou-se amigo da família real britânica e virou Sir, a mais alta honraria da Coroa. Pesaram a seu favor a influência da então primeira-ministra Margaret Thatcher e o trabalho de caridade, como a arrecadação de fundos para um hospital. Em todos os ambientes, fossem estúdios de TV, fossem dependências hospitalares, Jimmy praticava abuso sexual de crianças, adolescentes e mulheres jovens. Mas seus crimes só foram devidamente investigados depois que ele morreu.
Enquanto viveu, Jimmy Savile mantinha a persona monstruosa sob uma fachada de homem bem-sucedido nos negócios e com espírito comunitário. Era um Lobo Mau em pele de cordeiro. Jimmy foi protegido sob o escudo de "cidadão de bem". Nesse sentido, Segredos e Crimes de Jimmy Savile serve de alerta sobre como o sucesso e a popularidade podem nos iludir, desviar nosso olhar, sobre como autoridades e pessoas próximas podem ser omissas. Rumores sobre o nocivo comportamento sexual de Jimmy sempre existiram, mas eram rapidamente varridos.
O pior é que, como as imagens de arquivo revelam, volta e meia ele dava pistas fortes. Ainda que em tom de piada, descrevia agressões a garotas, por exemplo. Em diversas aparições na TV, Jimmy brincava: "Meu julgamento está marcado para a próxima quinta-feira". Era a formação católica falando alto: Jimmy acreditava piamente no Juízo Final. Talvez tivesse um peso na consciência. No seu entendimento, as ações de caridade contrabalançariam os atos de crueldade.
6) Amor Tóxico (2026)

Documentário dirigido por Alexandra Lacey. Reconstitui a investigação de um crime cibernético. A coleta de rastros digitais e a revisão minuciosa dos arquivos de áudio da polícia e das imagens captadas pelas câmeras corporais expõem jogos psicológicos, mentiras complexas e reviravoltas chocantes.
A história de Amor Tóxico ocorreu em 2016, nos Estados Unidos, e ficou conhecida como "o caso Craigslist de Anaheim". Anaheim é uma cidade na Califórnia com cerca de 340 mil habitantes, e Craigslist é um site de anúncios classificados onde se oferta de tudo — até realizar a fantasia sexual da simulação de estupro. Os personagens principais são Ian Diaz, um agente federal de Justiça, sua esposa, Angela, e a ex-noiva dele, Michelle Hadley. Também há depoimentos do investigador Jason Higley e de amigos e ex-amigos dos três envolvidos.
Angela havia se mudado para o apartamento do Ian após um romance relâmpago. Grávida de gêmeos, ela passou a ser alvo de e-mails cada vez mais ameaçadores. "Você roubou a minha vida. Boa sorte ao voltar para o condomínio", dizia uma das primeiras mensagens. "Vamos levar seu filho e assistir à morte dele", afirmava outra. Muitas vezes acompanhados por imagens de fetos abortados ou corpos decapitados, os e-mails eram assinados por um pseudônimo que fazia referência a Lilith, figura mítica que seria a suposta primeira esposa de Adão. A suspeita logo recai sobre Michelle.
Daqui em diante, paro com os detalhes, porque a partir daí Amor Tóxico começa a desvendar o que um entrevistado chama de "caso monstruoso". O tratamento sóbrio do documentário torna tudo ainda mais horripilante: assistimos, incrédulos, a uma sucessão de atos abjetos. É sempre impressionante constatar do que o ser humano é capaz. Também é sempre impressionante observar como nossas percepções são contaminadas, como narrativas podem manipular, como preconceitos e estereótipos estão enraizados na sociedade.
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