
Prever os vencedores do Festival de Cinema de Gramado, que serão conhecidos a partir das 20h deste sábado (22), é muito mais difícil do que apostar no Oscar.
Primeiro porque o troféu da Academia de Hollywood é precedido por premiações como o Globo de Ouro, o Bafta e o The Actor, que permitem tirar um termômetro.
Segundo porque as decisões em Gramado são tomadas por um júri que muda a cada ano todos os seus integrantes, ou seja, não tem uma "cara".
E terceiro porque cada time de jurados pensa e age de seu próprio jeito. Às vezes, entendem que o melhor filme deve conquistar o maior número possível de Kikitos. Em outras, opta-se por distribuir os prêmios (o que, não raro, gera injustiças ou até bizarrices e passa a impressão de que se quis agradar todo mundo).
Na 54ª edição do Festival de Gramado, o júri dos longas-metragens brasileiros é formado pelo cineasta Fabio Meira, diretor de As Duas Irenes (2017) e Tia Virgínia (2023), ambos premiados na Serra Gaúcha; os atores Marcelo Serrado (Kikito de melhor ator por Noite de São João, em 2003), Helena Ranaldi e Cris Vianna e a professora e pesquisadora Kênia Freitas.
Adivinhar quem vai ganhar o principal Kikito é complicado porque neste ano não dá para dizer que haja um franco favorito (como foi em 2024 com Oeste Outra Vez) ou uma disputa polarizada (como em 2023, com Marte Um e Noites Alienígenas). Acho que dos seis concorrentes, quatro chegam à noite de premiação, no Palácio dos Festivais, com reais chances de vitória: Feito Pipa, de Allan Deberton, Leite em Pó, de Carlos Segundo, Justino: Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte, e Nosso Segredo, de Grace Passô.
Completam a lista Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, e Chorão: Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Felipe Novaes. Ambos não devem sair de mãos abanando.
Confira, a seguir, não as minhas apostas, mas a minha torcida em cada categoria:
Melhor filme e melhor direção

Nas duas categorias, meu coração está dividido entre Leite em Pó e Nosso Segredo. Foram os dois títulos mais autorais, mais imprevisíveis e mais arriscados em um festival marcado por narrativas convencionais.

Neste júri de mim mesmo, eu me renderia à acomodação dos Kikitos: premiaria Nosso Segredo como melhor filme, pela coragem de cruzar o realismo cotidiano com a magia do absurdo e pela coesão artística; e Carlos Segundo, de Leite em Pó, como melhor diretor, por abrir uma estrada na qual nunca se sabe o que vem pela frente, convidando os personagens e os espectadores a olharem para trás, em busca daquilo que deixamos passar, daquilo que nos trouxe até aqui e daquilo que deixamos de ser.
Melhor ator

É uma das categorias mais concorridas deste ano. O menino Yuri Gomes arrasa como Gugu, o guri queer de Feito Pipa que é vítima de bullying na escola, no interior do Ceará, por causa da sua sexualidade, que também não é aceita pelo pai. Em Chorão: Só os Loucos Sabem, José Loreto faz a gente enxergar o vocalista da banda Charlie Brown Jr, com sua dualidade dilacerante. Vinícius de Oliveira soube encarnar o luto desconcertante e a alma ora covarde, ora impulsiva do protagonista de Leite em Pó. E Christian Malheiros se entrega com paixão no papel do pastor de igreja neopentecostal que tem sua história real contada em Justino. Votaria em Yuri Gomes, que é o mais inexperiente mas tem o papel mais difícil. Só que a tendência é Loreto ganhar.
Melhor atriz

Embora não goste muito do filme, tenho de reconhecer a atuação de Naruna Costa em Pele de Rinoceronte. A atriz imprime força, verdade e revolta a cada palavra ao interpretar a advogada Maria Thereza, que monta com o marido a estratégia de acusação em um caso de feminicídio (quando o crime nem tinha esse nome no Brasil).
Ator coadjuvante
Com a postura e a lábia do pastor Azevedo em Justino: Nos Bastidores do Reino, Caio Blat magnetiza e ao mesmo tempo assusta. Ele usa seu poder de sedução para manipular seus seguidores e faz chover dinheiro para sua igreja.
Atriz coadjuvante
Onna Silva não tem muitos minutos de cena em Justino, mas aproveita cada instante na pele da travesti Danuza, que se dedica inteiramente a socorrer e acolher vítimas da epidemia de aids na Nova York dos anos 1980 e 1990.
Roteiro
O script de Carlos Segundo e Rafael Copel em Leite em Pó desnorteou a plateia do Festival de Gramado com suas curvas sinuosas, ainda que percorridas em baixa velocidade, e seu destino incerto. A cada passo do protagonista em sua jornada errática, a cada personagem que ele conhece, o caminho se bifurca. Pode desembocar em uma paisagem insólita ou reconfortante, em um lugar de dor ou de humor, em um cenário de tesão ou de tragédia.
Fotografia

Em Nosso Segredo, a diretora de fotografia Wilssa Esser combina calor e melancolia na iluminação e faz movimentos de câmera que tanto sugerem uma presença invisível à espreita quanto buscam a materialidade de um amor interditado.
Montagem
Gabriel Martins e Eva Randolph zelam para que as cenas filmadas por Wilssa Esser em Nosso Segredo se transformem em poesia visual.
Direção de arte
Em Nosso Segredo, o designer de produção Lucas Osório criou uma casa a um só tempo acolhedora, por ser reconhecível em qualquer lar de classe média brasileiro, e amedrontadora, à medida em que espelha o trauma dos personagens.
Desenho de som
O trabalho de Tiago Bello é fundamental em Nosso Segredo. Os sons estranhos na casa ajudam a traduzir as dores emocionais da família de personagens.
Trilha sonora
O cinema sensorial proposto em Nosso Segredo é ornamentado pela linda trilha sonora composta por Amaro Freitas. O pianista alude à ancestralidade referida pela diretora Grace Passô ao fundir o jazz contemporâneo com matrizes afro-brasileiras. A música é praticamente um personagem místico: conjura uma atmosfera fantástica e dá voz aos não-ditos.
Prêmio Especial do Júri
Eu concederia um prêmio coletivo ao elenco de Nosso Segredo, por sua harmonia arrebatadora.
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