
A estreia de Insaciável (2026) nos cinemas inspira a lista deste fim de semana: 10 filmes de body horror.
Este subgênero do terror gosta de transformar metáforas em carne. Uma crise de identidade pode virar mutação ou mutilação. Um desejo pode abrir feridas. O culto à beleza pode produzir uma criatura monstruosa. A vida a dois pode deixar de ser uma imagem romântica e se tornar, literalmente, uma coisa grudenta e desagradável.
Em Insaciável, Hana (papel da atriz Midori Francis) é uma jovem estudante de Medicina que come compulsivamente. Os doces que ela devora de forma febril são, ao mesmo tempo, uma fonte de alívio e uma fonte de angústia. A comida nunca está associada a prazer, e a diretora e roteirista Natalie Erika James usa closes, imagens em câmera lenta e efeitos sonoros para transformar o ato de comer em um show de horror, provocando desconforto e nojo.
Além do transtorno alimentar, Hana sofre de dismorfia corporal. Como dietas tradicionais e malhação não estão ajudando a protagonista a reduzir seu peso e atingir um padrão estético, ela recorre a pílulas milagrosas que têm severos efeitos colaterais. Se A Substância (2024) critica a obsessão pela juventude e A Meia-Irmã Feia (2025) mira a obsessão pela beleza, Insaciável aborda a obsessão pela magreza. Talvez seja o primeiro filme a fazer um retrato da Era Ozempic, apontando o desespero contemporâneo de pessoas que sequer são obesas por métodos milagrosos e rápidos de emagrecimento em um contexto no qual o corpo gordo é visto como sinônimo de doença, derrota ou até falha moral.
O horror corporal já rendeu filmes sombriamente sedutores, como A Pele que Habito (2011), do espanhol Pedro Almodóvar, mas também filmes puramente repulsivos, como A Centopeia Humana (2009), do holandês Tom Six, ambos atualmente condenados ao limbo digital. O mestre do subgênero é o cineasta canadense David Cronenberg, que três dos seus títulos mais icônicos disponíveis no streaming: A Mosca (1986), Crash: Estranhos Prazeres (1996) e Crimes do Futuro (2022).
Cronenberg começou a consolidar seu nome no body horror com Calafrios (1975). Na trama, um parasita geneticamente modificado transforma moradores de um prédio em maníacos sexuais. Em Enraivecida na Fúria do Sexo (1977), uma mulher, após um acidente, desenvolve um novo órgão debaixo do braço e passa a ter uma sede incontrolável por sangue humano. Em Scanners: Sua Mente Pode Destruir (1981), pessoas com poderes telecinéticos extremos conseguem explodir a cabeça dos outros. Em Videodrome (1983), o dono de um canal de TV a cabo é exposto a um programa pirata dedicado a tortura e assassinato e acaba desenvolvendo um tumor cerebral e fundindo seu corpo com aparelhos eletrônicos. Em Gêmeos: Mórbida Semelhança (1988), Jeremy Irons interpreta irmãos ginecologistas brilhantes mas lelés da cuca que criam instrumentos cirúrgicos bizarros.

Se Cronenberg é o papa, a cineasta francesa Julia Ducournau é sua herdeira. Em uma entrevista, ela disse: "Gosto de usar os corpos dos meus personagens para falar sobre a sua psique. O que adoro na gramática do terror corporal é que, se você desligar o som da TV e assistir ao filme, não só ainda entende o enredo, como também entende o que está acontecendo dentro do personagem e como ele se sente, porque é retratado em sua pele e em seu corpo".
Ducournau adora descarnar seus personagens para chegar a seu âmago e, por consequência, tentar descobrir o que significa ser humano: alguém que abriga e que desperta sentimentos conflitantes, como amor e ódio, alguém que convive com a eterna disputa entre a razão e a emoção.
Uma pena que esteja fora de catálogo no streaming seu primeiro longa, Grave (Raw, 2016), sobre uma vegetariana que, depois de entrar na faculdade de Veterinária, enfrenta trotes brutais e acaba se tornando adepta do canibalismo. Mas dá para ver Titane (2021) e Alpha (2025).
Confira 10 filmes de horror corporal disponíveis no streaming (e clique nos links se quiser saber mais):
1) O Enigma de Outro Mundo (1982)

De John Carpenter. Na Antártida, um grupo isolado de cientistas encontra os restos congelados de um organismo alienígena. Quando a criatura assume a forma de um dos cachorros da base de pesquisas, os pesquisadores descobrem que ela pode simular a aparência de qualquer ser vivo. Elaboradas com efeitos práticos, as cenas de transformação e mutilação física impressionam. Kurt Russell é o principal nome do elenco. (Aluguel em Amazon Prime Video)
2) A Mosca (1986)

De David Cronenberg. Neste filme ganhador do Oscar de melhor maquiagem, Jeff Goldblum interpreta um cientista que testa em si mesmo uma máquina de teletransporte e, sem querer, acaba fundindo o seu DNA com o de uma mosca. Daí, o protagonista começa a sofrer uma mutação e uma decomposição corporal lenta e dolorosa. A cada unha que cai, a cada secreção que aparece, resta menos homem e mais criatura. (Disney+)
3) Hellraiser: Renascido do Inferno (1987)

De Clive Barker. O hedonista Frank (Sean Chapman) compra um cubo mágico e abre a porta de uma dimensão torturante. A caixa enigmática, os cenobitas, a pele rasgada e os corpos reconstruídos fazem do filme uma fantasia sadomasoquista em que prazer e dor se confundem até se tornarem indissociáveis. (BOOH!, no Amazon Prime Video)
4) Crash: Estranhos Prazeres (1996)

De David Cronenberg. Os personagens encarnados por James Spader, Holly Hunter e Deborah Kara Unger circulam por um universo em que acidentes de carro, cicatrizes e mutilações se tornam estímulos sexuais. Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, este é um filme sobre o humano atravessado pela máquina e também sobre o tédio de uma modernidade tão anestesiada que precisa flertar com a morte para recuperar qualquer vestígio de sensação. (Diamond Films+, no Amazon Prime Video)
5) Titane (2021)

De Julia Ducournau. Quando criança, Alexia, após um acidente de carro, precisou colocar uma placa de titânio no crânio. Na vida adulta, a protagonista encarnada por Agathe Rousselle é uma dançarina que se exibe em salões de automóveis e também uma serial killer que transa com um Cadillac. Ela inclusive engravida: o óleo preto que escorre de sua vagina e de seu seio não deixa dúvida sobre a paternidade do bebê. O filme venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. (MUBI)
6) Crimes do Futuro (2022)

De David Cronenberg. No futuro, o avanço da biotecnologia fez sumirem as doenças infecciosas e a dor física. Nesse cenário, a cirurgia virou o novo sexo: o prazer de perfurar ou ser perfurado faz lembrar de como na vida estamos sempre procurando suprir algo que nos falta (no caso, a dor). Na trama de Crimes do Futuro, Viggo Mortensen interpreta um artista da bizarrice: na companhia da personagem vivida por Léa Seydoux, ele faz performances públicas nas quais são extirpados, sem anestesia, os novos órgãos que seu corpo passou a produzir como resultado de uma mutação genética. (MUBI)
7) A Substância (2024)

De Coralie Fargeat. Vencedor do Oscar de maquiagem e cabelos e indicado nas categorias de melhor filme, direção, atriz (Demi Moore) e roteiro original, conta a história da apresentadora de um popular programa de ginástica na TV que é demitida no dia do seu aniversário de 50 anos. Para tentar recuperar o estrelato, ela compra uma substância milagrosa que promete criar uma nova e melhorada versão de si mesma. Com cenas de agulhas na pele, deformações ósseas e secreções e um senso de humor grotesco, a diretora mostra como os corpos das mulheres são objetificados e vendidos antes de serem descartados. (HBO Max e MUBI)
8) Alpha (2025)

De Julia Ducournau. Alpha (papel de Mélissa Boros) é uma adolescente de 13 anos em um mundo marcado por uma epidemia fictícia que remete ao medo social da aids nos anos 1980 e 1990. A doença sanguínea letal transforma lentamente o tecido humano vivo em mármore, endurecendo os infectados até que eles virem pó. No elenco, Tahar Rahim e Golshifteh Farahani. (MUBI)
9) Juntos (2025)

De Michael Shanks. Marido e esposa na vida real, Dave Franco e Alison Brie interpretam um casal em crise que se muda para uma casa isolada. Depois que eles se perdem durante um passeio, deixam de ter sentido figurado expressões como "eles não se desgrudam" e relacionamentos nos quais, por um excesso de proximidade, não se sabe onde termina um e começa o outro. (Amazon Prime Video)
10) A Meia-Irmã Feia (2025)

De Emilie Blichfeldt. Indicado ao Oscar de maquiagem e cabelos, reconta a fábula de Cinderela pelos olhos de uma de suas irmãs malvadas. Encarnada por Leah Myren, Elvira é mesquinha, invejosa e até sádica. Mas essa garota também sofre. Em um mundo obcecado pela beleza, ela se acha feia e acima do peso que a sua mãe considera ideal. Para ter chance de atrair o príncipe, a protagonista de A Meia-Irmã Feia se submete a cirurgias dolorosas e dietas muito excêntricas. (MUBI)
* Colaborou João Vítor Debiasi
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