
O predomínio de produções dos Estados Unidos nos cinemas brasileiros não prejudica apenas a indústria nacional. Também restringe o acesso do público a filmes como o lindo drama francês O Apego (L'Attachement, 2024), que estreou na quinta-feira (27) em Porto Alegre, onde só pode ser visto na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana. E apenas nas sessões das 15h, nesta terça-feira (1º) e na quarta (2) — a partir de quinta (3), o horário pode mudar.
O Apego é o quinto longa-metragem da diretora Carine Tardieu, a mesma de Feito Gente Grande (2012) e Os Jovens Amantes (2021). No César, a premiação da Academia Francesa de Cinema, venceu as categorias de melhor filme, atriz coadjuvante (Vimala Pons) e roteiro adaptado, por Tardieu, Raphaële Moussafir e Agnès Feuvre, a partir de romance escrito por Alice Ferney. Também concorria aos troféus de direção, ator (Pio Marmaï), atriz (Valeria Bruni Tedechi), fotografia (Elin Kirschfink) e edição (Christel Dewynter).

O filme se passa na cidade de Rennes, onde Valeria Bruni Tedeschi interpreta Sandra, uma mulher solteira, independente e dona de uma livraria dedicada a obras feministas. Sua vida muda inesperada e radicalmente quando abre a porta para um casal de vizinhos, Alex (Pio Marmaï) e Cécile (Melissa Barbaud). Eles pedem que Sandra cuide do filho de cinco anos, Elliott (papel do encantador César Botti), porque precisam ir às pressas para a maternidade de um hospital.
Devido a complicações no parto da menina Lucille, a mãe morre. Então, Alex acaba precisando se socorrer da ajuda da vizinha na criação das duas crianças. A doçura, a curiosidade e a sinceridade de Elliott desarmam Sandra, que se vê surpreendida pela descoberta do afeto.

No material de divulgação de O Apego, a diretora Carine Tardieu comentou: "Me interessei pela ideia de retratar uma mulher moderna, que não era submetida aos ditames do patriarcado, que reivindica sua independência e assume uma vida de solteira sem precisar se justificar. Uma mulher relativamente livre, enfim. Mas que, subitamente, é abalada pelo afeto de um menino e de seu padrasto enlutados. Eu gostei da ideia de uma mulher que, a princípio, não tinha qualquer interesse por crianças acabar se apegando".
A relação entre Sandra e Elliott não é a única acompanhada por Tardieu, mas convém não revelar todas as ligações afetivas que se formam no filme. Com delicadeza, sem pesar a mão nos momentos dramáticos nem adotar uma leveza excessiva, a cineasta francesa retrata as reconfigurações familiares contemporâneas e as vulnerabilidades emocionais dos adultos, não raro perdidos em relação a seus próprios sentimentos, a seus próprios desejos e a suas próprias convicções. Os personagens são gente como a gente: carentes e incoerentes, contraditórios e inconstantes.

Ao espectador brasileiro, a trilha sonora reserva um presente: o final do filme emprega a gravação da cantora Maria Creuza para Você Abusou (1971), música da dupla baiana Antônio Carlos & Jocafi que rapidamente se tornou um fenômeno internacional. Aliás, em 1972 o cantor francês Michel Fugain pegou a melodia e mudou a letra, trocando o tema da desilusão amorosa por versos sobre liberdade e resiliência. A canção Fais Comme l'Oiseau acabou adotada como hino informal do Partido Socialista daquele país.
Durante uma turnê pela Europa, Antônio Carlos e Jocafi foram surpreendidos ao ouvir Fais Comme l'Oiseau tocando no rádio. Eles processaram o artista francês por plágio e saíram vitoriosos no tribunal de Paris. Todo o dinheiro acumulado de direitos autorais que iria para Fugain foi retido e transferido retroativamente para os brasileiros, que também ganharam uma indenização e viram seus nomes acrescentados nos créditos da canção francesa.
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