
Ainda estou digerindo. Fiquei perdido. Não sei se gostei ou não, mas gostei de assistir.
Comentários assim, a maioria em tom elogioso, marcaram o final da sessão do filme Leite em Pó no 54º Festival de Cinema de Gramado, na noite de terça-feira (18).
Este foi o quarto concorrente da mostra de longas-metragens brasileiros de ficção exibido no Palácio dos Festivais. Antes vieram Feito Pipa, de Allan Deberton, Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, e Chorão: Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Felipe Novaes. Nesta quarta-feira (19) e na quinta (20), Justino: Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte, e Nosso Segredo, de Grace Passô, encerram a competição. Os Kikitos serão entregues no sábado (22) à noite.
Rodado em Natal, capital do Rio Grande do Norte, Leite em Pó é o segundo longa-metragem dirigido por Carlos Segundo — mas o primeiro feito com uma estrutura de produção industrial, equipe completa e orçamento digno. Fendas (2019), um drama experimental focado em física quântica e espectros sonoros, foi realizado de forma totalmente independente, em um "esquema de guerrilha".
Entre um filme e o outro, Segundo assinou os curtas De Vez em Quando Eu Ardo (2020), Sideral (2021) — selecionado para os festivais de Berlim e de Cannes —, Big Bang (2022), que foi premiado em Locarno e no Grande Otelo, e Meu Amigo Satanás (2025).

O protagonista de Leite em Pó é Vinícius de Oliveira, o eterno menino Josué de Central do Brasil (1998) — 10 anos depois, ele voltou a trabalhar com o diretor Walter Salles em Linha de Passe (2008). O elenco também conta com Rejane Faria, Priscilla Vilela, Titina Medeiros (que morreu em janeiro de 2026, aos 48 anos) e os veteranos Antonio Pitanga e Zezita Matos.
Na trama escrita por Carlos Segundo em parceria com Rafael Copel, Vinícius interpreta um sujeito que atende e/ou se apresenta ora como Vicente, ora como Paulista, ora como Vic Williams. Ele mora com a avó e faz bicos como garçom enquanto sua carreira de cantor não deslancha. Bem, dificilmente vai decolar: quase ninguém assiste a seus shows em um barzinho e menos do que ninguém compra seu CD, no qual enfileira covers — de gosto muito duvidoso — de sucessos do rock brasileiro dos anos 1980, como Por que a Gente É Assim? (Barão Vermelho), Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (Titãs) e Tédio (Biquíni Cavadão).

Um suicídio faz a vida de Vicente entrar em parafuso. Enlutado, ele sofre pra caramba e toma decisões esdrúxulas. Logo se vê obrigado a arranjar um novo jeito de ganhar dinheiro — acaba se tornando vendedor em um negócio inusitado, mas que se conecta com dois dos principais temas do filme: a identidade e a memória.
Vicente, como mais ou menos diz sua avó, ainda não é o homem que poderia ser. Falta-lhe coragem, tanto de ir à luta quanto de olhar para dentro. E a descoberta de um diário misterioso, que chega às mãos do protagonista em um envelope sem remetente, vai ligar a história ao letreiro do início do filme, que informa sobre a passagem de aproximadamente 50 mil soldados dos Estados Unidos pelas bases militares de Natal durante a Segunda Guerra Mundial.
Depois de narrativas mais convencionais — aí incluído o filme de abertura, Antártida, exibido fora de competição —, Leite em Pó deu um sopro bem-vindo de autoralidade, imprevisibilidade e risco no Festival de Gramado. Desnorteou a plateia com suas curvas sinuosas, ainda que percorridas em baixa velocidade, e seu destino incerto. A cada passo de Vicente em sua jornada errática, a cada personagem que ele conhece, o caminho se bifurca. Pode desembocar em uma paisagem insólita ou reconfortante, em um lugar de dor ou de humor, em um cenário de tesão ou de tragédia.
Nessa estrada, nunca sabemos exatamente o que vem pela frente. Portanto, eis um filme que convida os personagens e os espectadores a olharem para trás, em busca daquilo que deixamos passar, daquilo que nos trouxe até aqui e daquilo que deixamos de ser.
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