
O 54º Festival de Cinema de Gramado mal começou e já tem filme favorito ao Kikito. Vale frisar o emprego do singular no nome do prêmio, porque a primeira noite de competição no Palácio dos Festivais, neste sábado (15), quando foram exibidos Feito Pipa, uma ficção do diretor cearense Allan Deberton, e O Projeto, documentário assinado pela afro-brasileira Sabrina Fidalgo e pelo suíço Yvan Rodic, fez lembrar uma queixa do mestre Eduardo Coutinho (1933-2014).
Em 2002, quando o festival instituiu a categoria de longas-metragens documentais — interrompida em 2010 e retomada em 2022 —, Coutinho, ao receber o troféu por Edifício Master, pediu igualdade em relação à ficção. Por que as sessões não podiam ser no horário nobre, o da noite? E por que limitar a premiação a um único Kikito?
— Documentário não é uma força da natureza, ele se faz. Precisa de fotógrafo, montador e até roteirista — observou o diretor de clássicos como Cabra Marcado para Morrer (1984) e Jogo de Cena (2007).
Compreende-se que possa haver restrições orçamentárias para entregar mais prêmios na categoria, mas por que os documentários não podem concorrer de igual para igual com as ficções? Ainda mais nos dias de hoje, em que muitos filmes são híbridos ou fazem um movimento pendular entre o ficcional e o não ficcional, como As Mortes de Dick Johnson (2020), de Kirsten Johnson, Flee: Nenhum Lugar para Chamar de Lar (2021), de Jonas Poher Rasmussen, Mato Seco em Chamas (2022), de Adirley Queirós e Joana Pimenta, e Sem Ursos (2022), de Jafar Panahi.
— Pretendo chegar um dia a Gramado com um filme que seja tão misturado entre ficção e documentário que ninguém consiga enquadrar em um gênero. Acho tão obsoleta essa separação. Filme é filme — apontou no palco do Palácio dos Festivais, em 2005, Mara Mourão, diretora do documentário Doutores da Alegria, que dividiu com Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel, o Prêmio Especial do Júri concedido na categoria documental (o vencedor foi Soy Cuba: O Mamute Siberiano, de Vicente Ferraz).
Um ano antes, em 2004, quando o diretor Sergio Sanz (1941-2019) competiu com o documentário Soldado de Deus, ele declarou:
— A única diferença que vejo entre filmes está na metragem, ou seja, tem curta e tem longa. Só. O resto, tudo é filme.

Duas décadas depois, Feito Pipa, um drama apenas bonitinho e com problemas de script e de ritmo, pode disputar praticamente todos os 12 Kikitos costumeiros na competição de longas ficcionais: melhor filme, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro, fotografia, montagem, direção de arte, desenho de som e trilha musical.
Na trama dirigida por Allan Deberton — mesmo cineasta de Pacarrete (2019), ganhador de oito troféus no Festival de Gramado —, o promissor Yuri Gomes interpreta Gugu, um guri do interior do Ceará que sonha em ser jogador de futebol e vive com a avó, Dilma (a veterana Teca Pereira). Quando ela começa a apresentar sinais de Alzheimer, recrudesce o conflito do menino com o pai (papel de Lázaro Ramos), que tem problemas para lidar com a sexualidade do filho — vítima de bullying na escola, onde é chamado de "donzela" por um colega de aula.

Enquanto isso, O Projeto só pode almejar um Kikito, o de melhor documentário, mesmo que sobrem virtudes na direção e no roteiro de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic, na fotografia de Julia Zakia, na montagem de André Bonfim e na trilha sonora composta por Plínio Profeta.
Mas O Projeto não coloca o Festival de Gramado em uma saia justa apenas institucional. O filme também força a elite branca a deixar de ser ignorante sobre a herança nefasta dos séculos de colonialismo, sobre os privilégios da branquitude, sobre o racismo estrutural e sobre a divisão racial de classe social e do espaço urbano.

Com estreia nos cinemas marcada para 19 de novembro (véspera do Dia da Consciência Negra), O Projeto é o primeiro longa-metragem dirigido pela carioca Fidalgo, 44 anos, premiada no Festival de Brasília pelo curta Alfazema (2019) e autora também de Rainha (2016) e Black Joy (2023), e a primeira experiência cinematográfica do suíço Rodic, 47 anos, conhecido como FaceHunter — o fotógrafo viaja o mundo retratando pessoas comuns, com foco em estilo e moda urbana.
A história pessoal de Rodic, filho de um imigrante iugoslavo radicado na Suíça, ilustra alguns temas do documentário, como a xenofobia. E como homem branco e europeu, um atraso de duas horas seu para uma entrevista acaba detonando uma crítica feroz do escritor Anderson França.

Mas o protagonismo é todo de Sabrina Fidalgo. Filha da modelo, atriz e produtora teatral Alzira Fidalgo (1949-2011) e do dramaturgo Ubirajara Fidalgo (1949-1986), cocriador do Teatro Profissional do Negro, a cineasta abre o documentário com um close em seu próprio rosto. Ela está com um prendedor de roupa no nariz e conta que na infância e na adolescência fazia isso para tentar se encaixar nos padrões eurocêntricos de beleza.
A partir daí, Fidalgo empreende uma jornada por suas memórias e pelo passado de sua família enquanto também visita países como Nigéria, Argentina, Portugal, Alemanha e França, com direito a uma visita a Nova Firburgo, município do Rio Janeiro oficialmente reconhecido como "a Suíça Brasileira". Neste "road movie decolonial quente como lava de vulcão", conforme a definição apaixonada do crítico carioca Rodrigo Fonseca em texto publicado no site do Correio do Manhã, ela se propõe a derrubar o "mito do fim do projeto do colonialismo", mostrando como pensamentos e práticas de 600 anos atrás ainda moldam as relações no mundo de hoje.
A arquiteta paulista Joice Berth, por exemplo, compara o "assassinato sistemático de corpos negros pelas forças policiais", nas perfierias, ao movimento eugenista. Também paulista, a filósofa e escritora Djamila Ribeiro sintetiza verdades históricas ("A escravidão foi a base da economia do Brasil durante quase quatro séculos"), traumas raciais ("Não saber de onde a gente vem dificulta a construção de nossa origem") e impasses sociais ("O problema da branquitude é que a discussão sobre racismo está com os negros").
Na viagem a Buenos Aires, O Projeto reflete sobre o mito da "Argentina branca" e sobre a importância da "identidade marrom". Na Nigéria, fala-se sobre a exploração contínua da África, das narrativas estereotipadas e das tentativas de embranquecimento pelas mulheres de pele escura. Na Alemanha, o filme expõe a desvalorização, pelos europeus, do conhecimento e da formação adquiridos nos países da América do Sul.
Em Portugal, a artista e escritora Grada Kilomba aponta as três grandes ignorâncias da sociedade ocidental. São três grandes barreiras para a descolonização e a redução dos abismos sociais e econômicos. São três grandes constatações sobre a falta crônica de letramento racial, a recusa da branquitude em entender como se perpetuam a mecânica e os efeitos do colonialismo e do racismo e o chamado conforto epistêmico de quem não tem de lutar diariamente pela sobrevivência nem é alvo constante de menosprezo, humilhação, desconfiança e vigilância: "Não sabe, não quer saber e não precisa saber".
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter
Assista aos vídeos Dica do Ticiano no YouTube: clique aqui
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano





