
Na última noite de competição, surgiu o filme mais bonito do 54º Festival de Cinema de Gramado: Nosso Segredo, que foi exibido nesta quinta-feira (20) no Palácio dos Festivais. No sábado (22), o título vai brigar pelos Kikitos da mostra de longas-metragens brasileiros de ficção com Feito Pipa, Pele de Rinoceronte, Chorão: Só os Loucos Sabem, Leite em Pó e Justino: Nos Bastidores do Reino. No dia 27 de agosto, estreia no circuito comercial cinematográfico, incluindo Porto Alegre.
Ambientado em Belo Horizonte, Nosso Segredo acompanha uma família negra — a mãe e seus quatro filhos — que tenta seguir sua rotina e lidar com o luto após a morte do pai. Trata-se do primeiro longa dirigido pela atriz mineira Grace Passô, 46 anos, vencedora do Candango de melhor atriz no Festival de Brasília por Temporada (2018) e do Redentor, no Festival do Rio, por Praça Paris (2017) e O Dia que te Conheci (2023).
No Grande Otelo, da Academia Brasileira de Cinema, ela conquistou o prêmio de melhor curta-metragem, por República, em 2021. E foi quatro vezes indicada nas categorias de atuação: como melhor atriz, por Praça Paris e O Dia que te Conheci, e como coadjuvante, por Levante (2023) e O Filho de Mil Homens (2025).

Grace também escreveu o roteiro de Nosso Segredo, a partir de uma peça de sua autoria, Amores Surdos. A estreia mundial aconteceu em fevereiro, em uma mostra do Festival de Berlim dedicada a primeiros filmes de ficção, a Perspectivas. Na Alemanha, a cineasta comentou com o crítico Rodrigo Fonseca, do Correio da Manhã:
— O "para sempre" para mim são memórias, são afetos comungados, são nossos ancestrais. Os mestres que prepararam o meu mundo para o que virá. A ideia de "para sempre" tem a ver com afeto. A morte é a vida, é "o" assunto da vida. E as vidas negras no nosso país são a maior prova de que o afeto e a admiração entre os integrantes de uma família são o que fazem as pessoas resistirem e seguirem em frente.
Nosso Segredo começa com um diálogo antológico entre o filho mais velho da família enlutada, Gilson (interpretado pelo estreante Robert Frank), um motorista de aplicativo, e seu passageiro octogenário, Marcelo (encarnado por Mateus Aleluia, referência histórica da música brasileira como integrante da banda baiana Os Tincoãs). Os dois personagens falam sobre saudade _ "É uma herança nossa. É uma entidade, né? A gente não vive sem ela", diz Marcelo, que depois brinda Gilson com outra pérola de sabedoria: "Há coisa que a gente sabe, mas não quer saber".
A conversa termina com o passageiro retomando uma história contada pelo motorista, mas agora em um sentido metafórico: "Gilson, o que você tem esquecido no meio da rua?", pergunta Marcelo. "O que você tem largado na faixa de pedestre?"
Aí, ao som da belíssima Caravana (1976), canção composta por Alceu Valença e Geraldo Azevedo, Grace Passô acompanha o caminho de volta para a casa de Gilson. Lá, moram também Suely (vivida por Ju Colombo), a viúva, e seus irmãos: os jovens Guto (papel de Flip) e Grazi (Jéssica Gaspar) e o menino Tutu (o doce Efraim Santos). Há a ainda a tia Anamélia (Marisa Revert) e Sidney (Juan Queiroz), o namorado de Grazi.

Cada um tem seu jeito de esconder sua dor. Gilson foge para o trabalho, Suely mergulha nos afazeres domésticos, Guto vai para a boemia, Grazi se prostra diante da TV e do computador. Vivem no mesmo espaço físico, mas não compartilham o campo emocional: há paredes entre eles. O silêncio ecoa.
Talvez quem fale mais seja o caçula Tutu, que não tem ido à aula e que serve de ponto de vista para o espectador, mesmo que não compreenda claramente as coisas. Mas à tia ele consegue verbalizar o sentimento dos adultos: "Tia, a vida é tão difícil!". O guri também empreende conversas sem um interlocutor aparente, através do encanamento da casa.
Com quem Tutu está falando? O que produz os sons estranhos e pesados que se ouve na casa? Qual é a origem do vazamento que se alastra, fazendo escorrer um líquido alaranjado? Por que a família refuta as tentativas de visita de uma vizinha?
Esses são alguns dos enigmas de Nosso Segredo, que Grace Passô vai ofertando sem pressa, mas com firmeza — que, neste caso, rima com delicadeza. Fazendo jus ao que disse no Festival de Berlim, a diretora lança um olhar muito afetuoso para seus personagens, e o elenco retribui com uma atuação homogênea, "livre de vaidades, de poses ou bravatas e evitando as catarses ocasionais", como resumiu o crítico Bruno Carmelo no site Meio Amargo, à época da Berlinale.

Pelo menos três cenas vão ficar na memória, mas elas não devem ser explicitadas para não privar o leitor do encantamento. Pode-se dizer que a primeira envolve um jardim, uma mangueira, o barro e uma troca de carinho; a segunda retrata um abraço, uma pergunta há muito represada e uma constatação cheia de empatia; e a terceira é a imagem final.
Em todas as cenas do filme, resplandecem todas as outras virtudes de Nosso Segredo. Além do texto saboroso e da coragem de cruzar o realismo cotidiano com a magia do absurdo, é preciso destacar o trabalho da equipe técnica.
O designer de produção Lucas Osório criou uma casa a um só tempo acolhedora, por ser reconhecível em qualquer lar de classe média brasileiro, e amedrontadora, à medida em que espelha o trauma dos personagens. Para tanto, também é fundamental o desenho de som de Tiago Bello.
A diretora de fotografia Wilssa Esser combina calor e melancolia na iluminação e faz movimentos de câmera que tanto sugerem uma presença invisível à espreita quanto buscam a materialidade de um amor interditado. Responsáveis pela montagem, Gabriel Martins e Eva Randolph zelam para que essas cenas se transformem em poesia visual.
E o cinema sensorial proposto em Nosso Segredo é ornamentado pela linda trilha sonora composta por Amaro Freitas, pianista já premiado no tradicional North Sea Jazz Festival, em Roterdã, na Holanda, e duas vezes indicado ao Grammy Latino. No filme, o pernambucano alude à ancestralidade referida por Grace Passô, ao fundir o jazz contemporâneo com matrizes afro-brasileiras. A música é praticamente um personagem místico: conjura uma atmosfera fantástica e dá voz aos não-ditos.
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