
Em cartaz a partir desta quinta-feira (6) nos cinemas brasileiros, Insaciável (Saccharine, 2026) forma uma espécie de trilogia informal com A Substância (2024) e A Meia-Irmã Feia (2025).
Os três filmes são filiados a um subgênero do terror, o chamado body horror, que tem como mestre o cineasta canadense David Cronenberg, autor de A Mosca (1986), Crash: Estranhos Prazeres (1996) e Crimes do Futuro (2022), e que já valeu à diretora francesa Julia Ducournau a Palma de Ouro no Festival de Cannes, por Titane (2021).
O horror corporal gosta de transformar metáforas em carne. Uma crise de identidade pode virar mutação ou mutilação. Um desejo pode abrir feridas. O culto à beleza pode produzir uma criatura monstruosa. A vida a dois pode deixar de ser uma imagem romântica e se tornar, literalmente, uma coisa grudenta e desagradável, como visto no recente Juntos (2025), de Michael Shanks.

Os três títulos foram escritos e dirigidos por mulheres. A francesa Coralie Fargeat assina A Substância, a norueguesa Emilie Blichfeldt realizou A Meia-Irmã Feia, e Insaciável é o terceiro longa-metragem da diretora e roteirista Natalie Erika James, uma estadunidense de 36 anos radicada na Austrália. Antes, ela fez Relíquia Macabra (2020) e Apartamento 7A (2024), um prelúdio do clássico O Bebê de Rosemary (1968).
As três tramas empregam o body horror para falar sobre a opressão estética. Vivemos em um mundo que valoriza doentiamente a aparência e que tortura física e psicologicamente as mulheres. A sociedade se sente muito confortável em julgar os corpos femininos. Mulheres estão sempre sendo cobradas: quando engravidam, se sentem obrigadas a recuperar rapidamente a forma anterior; quando envelhecem, podem ser desprezadas e cair no ostracismo, mas se resolvem fazer cirurgia plástica pra parecerem jovens, acabam atacadas.

Se A Substância critica a obsessão pela juventude e A Meia-Irmã Feia mira a obsessão pela beleza, Insaciável aborda a obsessão pela magreza. Talvez seja o primeiro filme a fazer um retrato da Era Ozempic, apontando o desespero contemporâneo de pessoas que sequer são obesas por métodos milagrosos e rápidos de emagrecimento em um contexto no qual o corpo gordo é visto como sinônimo de doença, derrota ou até falha moral.
A protagonista de Insaciável é Midori Francis, atriz que fez a médica Mika Yasuda em 38 episódios da série Grey's Anatomy, entre 2022 e 2024. No filme, ela interpreta Hana, uma jovem estudante de Medicina que vive uma relação conturbada com a comida e com o seu peso: tem transtorno alimentar e dismorfia corporal.
Hana come compulsivamente, um distúrbio derivado de um ambiente familiar traumatizante. Os doces que ela devora de forma febril são, ao mesmo tempo, uma fonte de alívio e uma fonte de angústia. A comida nunca está associada a prazer, e Insaciável usa closes, imagens em câmera lenta e efeitos sonoros para transformar o ato de comer em um show de horror, provocando desconforto e nojo.
Um grande gatilho para a obsessão de Hana em perder peso é a personagem Alanya (papel de Madeleine Madden). Atlética e esbelta, Alanya é psicóloga e treinadora na academia que Hana frequenta. A protagonista tem uma paixão secreta pela instrutora. Mais do que isso: não quer apenas estar com ela, mas ser como ela, conforme diz uma colega de faculdade que é a melhor amiga de Hana, Josie, interpretada por Danielle Macdonald.
Josie serve de contraponto para Hana. Ela também está bem acima do peso que a sociedade considera "adequado", mas Josie é uma mulher feliz consigo mesma e autoconfiante, enquanto Hana vive se sentindo frustrada e culpada.

Como dietas tradicionais e a malhação não dão resultado, Hana recorre às pílulas milagrosas que uma amiga dos tempos do Ensino Médio, Melissa, apresentou para ela durante um encontro fortuito em um bar. Tomando essa droga, Hana pode comer o que quiser e o quanto quiser que mesmo assim vai emagrecer.
Mas há um preço alto a pagar, claro. Um preço alto e duplo. Em primeiro lugar, a pílula é caríssima. Em segundo lugar... Bem, apesar de o filme revelar muito cedo, vou deixar para o espectador descobrir por si próprio do que é feita essa pílula e quais são os efeitos colaterais. Só vou fechar o texto repetindo um alerta que Josie faz para Hana: "Você usa gorda como xingamento e acha que basta chegar ao peso ideal para seus problemas acabarem". Mudar o corpo não garante a resolução de dores emocionais. Perder peso não cura traumas, e nenhuma balança e nenhum espelho são capazes de saciar a voracidade de um vazio existencial.
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