
Nos 50 anos do assassinato de Ângela Diniz (1944-1976), surge uma nova produção sobre um dos mais emblemáticos casos de violência contra a mulher no Brasil, ocorrido quando o crime de feminicídio ainda não tinha esse nome no país. Trata-se do filme Pele de Rinoceronte (RJ, 2026), um dos seis títulos que brigam pelos Kikitos da mostra de longas-metragens brasileiros de ficção do 54º Festival de Cinema de Gramado, exibido na noite de domingo (16) no Palácio dos Festivais. Os outros cinco são Feito Pipa (CE), apresentado no sábado (15), Chorão: Só os Loucos Sabem (SP), cartaz desta segunda-feira (17), Leite em Pó (MG/SP/RN), Justino: Nos Bastidores do Reino (DF) e Nosso Segredo (MG).
A socialite mineira Ângela Diniz foi assassinada no dia 30 de dezembro de 1976, aos 32 anos, em uma casa na Praia dos Ossos, em Búzios (RJ). Ela foi vítima de quatro tiros disparados por seu companheiro, Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, inconformado porque ela não queria mais continuar com ele.

O julgamento do caso aconteceu em 1979. Doca Street foi representado pelo renomado advogado Evandro Lins e Silva, que usou como tese a legítima defesa da honra. Para convencer o júri, afirmou que Ângela era uma "mulher fatal", capaz de levar qualquer homem à loucura. Na época, matar "por amor" ou em descontrole "sob forte emoção" eram argumentos aceitos pelos jurados. Doca acabou condenado a apenas dois anos de prisão, que respondeu em liberdade.
A sentença branda, porém, mobilizou o movimento feminista. Graças aos protestos — vem daí o slogan "Quem ama não mata" —, ele foi levado novamente a julgamento em 1981. Neste segundo júri, foi condenado a 15 anos de prisão por homicídio. Cumpriu apenas quatro em regime fechado. Depois, progrediu para o semiaberto. Doca Street morreu em 2020, aos 86 anos, após uma parada cardíaca. Ele deixou três filhos, 10 netos e uma bisneta.

No mesmo ano de 2020, a história de Ângela e Doca foi recontada pelo podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, que serviu de base para a minissérie ficcional da HBO Max Ângela Diniz: Assassinada e Condenada (2025), escrita por Elena Soárez, dirigida por Andrucha Waddington e estrelada por Marjorie Estiano, na pele da socialite, e Emílio Dantas, como o assassino. Antes, em 2023, estreou nos cinemas Angela, parceria da roteirista Duda de Almeida com o diretor Hugo Prata que traz Isis Valverde e Gabriel Braga Nunes nos papéis principais. Atualmente disponível no Amazon Prime Video, este filme também concorreu no Festival de Gramado, de onde não levou nada, a não ser a recepção negativa da plateia.
Angela concentra-se demais no antes e muito pouco no depois do crime. Opta pelo epidérmico (há várias cenas de sexo e de violência) e abre mão da profundidade: toda a discussão na Justiça e na sociedade que o caso provocou fica relegada a poucas frases nos créditos de encerramento. E o final tem um momento tão constrangedor que pode resultar em humor involuntário: quando a protagonista é assassinada, a montagem do filme acrescenta cenas de outras três personagens femininas (a mãe de Ângela, sua melhor amiga e Adelita, a ex de Doca) que "sentem" a sua morte.

Pele de Rinoceronte começa depois do crime, nunca chega a ser embaraçoso e até recebeu aplausos em cena aberta, durante a projeção. Aliás, pelo menos dois críticos elogiaram bastante: Rodrigo Fonseca, no Correio da Manhã (RJ), e Paulo Henrique Silva, em O Tempo (MG). Mas, para mim, o filme é outra decepção.
Com roteiro da argentina Josefina Trotta, cocriadora da série Manhãs de Setembro (2021-2022), Pele de Rinoceronte marca a estreia como diretor de longas do produtor Marcello Ludwig Maia, carioca que tem 30 anos de experiência — seus créditos incluem Amarelo Manga (2002), Febre do Rato (2011) e Pérola (2022). O título, um tanto hermético, mas também instigante, foi extraído do poema As Cismas do Destino, do paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914). Segundo entrevistas, no contexto do filme simboliza a carcaça grossa e a resiliência que as mulheres precisam desenvolver para enfrentar e sobreviver à violência de gênero, ao machismo estrutural e à opressão social.
Um letreiro no início do filme informa que estamos no Rio de Janeiro e em 1976, mas essas talvez sejam as únicas referências explícitas ao caso Ângela Diniz. A praia onde houve o assassinato foi rebatizada de Ponta das Pedras, enquanto Ângela e Doca — encarnados por Camila Lucciola e Alex Nader em breves cenas de flashback — jamais são chamados pelos nomes: são "a vítima", "o réu", "ela", "ele". Na verdade, sequer são os personagens principais.
Entende-se a proposta do anonimato: o que aconteceu com Ângela Diniz poderia ter acontecido com qualquer mulher. Pode acontecer com qualquer mulher. Como disse Camila Lucciola em conversa com a atriz gaúcha Catharina Conte no Tapete Vermelho, "infelizmente mulheres muito livres não têm finais muito felizes". Como lembrou outra integrante do elenco de Pele de Rinoceronte, Naruna Costa, no palco do Palácio dos Festivais, os episódios de feminicídio no Brasil vêm aumentando.

Atriz da série Irmandade (2019-) e do filme Salve Geral: Irmandade (2026), Naruna interpreta Maria Thereza, uma advogada casada com o personagem de Irandhir Santos, Gregório, o responsável pela acusação no julgamento do crime. Ela divide o protagonismo do filme com Débora Falabella, que vive Helena Ferraz, uma repórter policial do fictício Diário do Rio.
Essas duas narrativas correm em paralelo. Na abertura do filme, Helena aparece como uma jornalista insensível diante do corpo, encontrado em um matagal, de uma mulher assassinada. Seu negócio é o sensacionalismo: que pingue sangue quando alguém espremer o jornal.

É óbvio que Helena passará por uma transformação ao investigar a história de "Ângela", mas o filme apressa esse processo dramático.
Ela mantém um caso amoroso com o chefe do jornal, Mauro (Augusto Madeira). Na primeira vez que assistimos à interação entre os dois personagens, um momento romântico vira uma situação de ameaça e agressão. A repórter quase é estuprada, leva um tapa no rosto e expulsa o homem de seu apartamento. Assim, as cenas seguintes de Helena com Mauro se tornam apenas reiterativas sobre a natureza tóxica daquele relacionamento.
Reiterativas e didáticas. Como se não confiasse na capacidade de observação do espectador, o filme mostra-se muito dependente da palavra. Os diálogos explicam tintim por tintim, como quando Helena rebate um ataque verbal de Mauro:
— Você força o sexo, você me bate, você invade o meu quarto e eu é que sou maluca?
A subordinação ao texto é maior ainda no núcleo de Maria Thereza e Gregório. Nas suas cenas, o casal tem longos diálogos nos quais discute as estratégias jurídicas e analisa o comportamento da sociedade.
Gregório, por exemplo, aponta que o chamado crime passional "gera empatia":
— Qualquer um se identifica com homem desprezado pela mulher.
Maria Thereza, por sua vez, reforça que abandono, desamor ou traição jamais justificam ser morta:
— A vítima não é culpada.
No monólogo que gerou aplausos no Palácio dos Festivais, a personagem discursa:
— Vocês nos reprimem. Vocês nos silenciam. Vocês nos violentam. Vocês nos matam.
Soam fortes muitas das frases declamadas em Pele de Rinoceronte, e o tema do feminicídio é urgente. Mas o filme não diz nada que já não tenha sido dito em inúmeras reportagens e obras documentais e diariamente nas redes sociais. Talvez funcione como uma cartilha resumida e dramatizada de defesa da mulher. Do ponto de vista artístico, não me pareceu credenciado para ganhar Kikitos.
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