
— Foi uma noite perfeita.
Com essas quatro palavras, o cineasta Renato Dornelles resumiu o que significou para ele e sua parceira de obras audiovisuais, Tatiana Sager, a sexta-feira (21) no Palácio dos Festivais. O documentário Filhas da Lua, dirigido por Tatiana e coproduzido por Dornelles, ganhou o Kikito de melhor filme na Mostra de Longas Gaúchos do 54º Festival de Cinema de Gramado, promovida pela Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) e pelo Instituto Estadual de Cinema (Iecine). Também levou o prêmio de montagem, assinada por Gabriel Sager Rodrigues, filho da diretora, e o troféu do Júri Popular.
Antes de a premiação começar, a dupla já havia sido celebrada com a entrega de uma homenagem do Iecine. Tatiana e Dornelles receberam uma placa comemorativa e R$ 10 mil por serem escolhidos para o Prêmio Destaque da instituição, que nesta sexta também laureou a atriz Silvia Duarte com o troféu Leonardo Machado, os cineastas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon na categoria Inovação e a produtora Gisele Hiltl no Prêmio Legado.

Tatiana Sager e Renato Dornelles se destacam por apresentar um olhar sensível, revelador e contundente em seus documentários sobre o sistema carcerário brasileiro, que expõem falhas nas engrenagens, denunciam a política do aprisionamento em massa e dão rosto e voz a personagens marginalizados pela sociedade. Filhas da Lua dá sequência ao trabalho realizado em Central: O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil (2017), em Olha pra Elas (2023) e na série Retratos do Cárcere (2020).
O filme premiado em Gramado acompanha a rotina, os laços de afeto e a luta de quatro travestis para reconstruir suas vidas após passarem pelo sistema carcerário. As quatro personagens são Dandara de Brum Borges, Fabíula Yasmin Rezende de Souza, Rafaela Hammel e Rubby Moreira. Filhas da Lua aborda a transfobia e os desafios enfrentados tanto dentro quanto fora da prisão, como a falta de acolhimento e de oportunidades.
— Quando a gente fica bastante preso encarcerada, a gente passa a não enxergar mais o lado de fora. A gente quer muito a liberdade. Mas quando chega a finaleira, o maior medo é sobre o lado de fora — diz uma das entrevistadas. — A gente não sabe o que espera a gente lá fora, se eu for poder passar naquele lugar onde houver um monte de pessoas masculinas, se eu não vou ser agredida, cuspida, apedrejada.

O documentário é codirigido por Li Rassier de Andrade, um homem trans. Ao posarem para as fotos no palco do Palácio dos Festivais, após o anúncio do triunfo no Júri Popular, integrantes da equipe de Filhas da Lua desfraldaram a bandeira do orgulho trans. Na hora do Kikito de melhor filme, Nathalia Andrade França, amiga de Rubby e personagem de um novo documentário de Tatiana Sager, chamado Esquinas Coloridas, foi ao microfone e bradou:
— Viva as travestis, viva as gays, viva os heteros, viva a diversidade.
Já Tatiana Sager expressou surpresa genuína:
— Gente, é sem explicação. Eu juro que não esperava. Já foi muito incrível ser selecionado. Mas ganhar como melhor filme...
A surpresa tinha uma explicação. Afinal, Filhas da Lua conquistou o principal Kikito, mas, em número de prêmios, não foi o campeão da noite. Até aquele momento, a cerimônia desenhava uma vitória esmagadora de outro concorrente: parecia que A História Mais Triste do Mundo iria se tornar o filme mais feliz de Gramado.

A adaptação do diretor e roteirista Hique Montanari para o livro infantojuvenil do psicanalista Mário Corso ganhou seis Kikitos na Mostra Gaúcha: direção, ator (Arthur Seidel), roteiro (assinado pelo próprio Montanari), fotografia (Juarez Pavelak), desenho de som (Gabriela Bervian) e trilha musical (João Vitor Costa Dias).
Para driblar restrições orçamentárias, o filme combina cenas com atores, teatro de bonecos e técnicas de animação ao contar a história de Marco, um menino de 10 anos que é vendido pelos próprios pais a um circo e passa a enfrentar uma jornada de vicissitudes e amadurecimento.
No discurso de apresentação do longa, na terça-feira (18), Mário Corso comentou:
— Esta história é sobre não mentir para as crianças. O mundo é duro. Muitas das depressões adolescentes decorrem de crescer sem ser preparado para as dificuldades e as frustrações.
Tanto Filhas da Lua quanto A História Mais Triste do Mundo e os outros três filmes da competição — o terror Remanente: Voltagem, de Kapel Furman, e os documentários Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido, de Luciane Fagundes, e Morro da Cruz: Memória Popular, de Crystom Afronário — terão sessões em Porto Alegre a partir do dia 4 de setembro. As exibições serão na Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana.
Todos os premiados da Mostra Gaúcha
- Melhor longa-metragem gaúcho: Filhas da Lua, de Tatiana Sager
- Direção: Hique Montanari, por A História Mais Triste do Mundo
- Roteiro: Hique Montanari, por A História Mais Triste do Mundo
- Ator: Arthur Seidel, por A História Mais Triste do Mundo
- Atriz: Áurea Baptista, por Remanente: Voltagem
- Fotografia: Juarez Pavelak, por A História Mais Triste do Mundo
- Montagem: Gabriel Sager Rodrigues, por Filhas da Lua
- Direção de arte: Tiago Retamal, por Remanente: Voltagem
- Trilha musical: João Vitor Costa Dias, por A História Mais Triste do Mundo
- Desenho de som: Gabriela Bervian, por A História Mais Triste do Mundo
- Júri Popular: Filhas da Lua




