
Está aparecendo na aba "Filmes adicionados recentemente" do Amazon Prime Video o título que consagrou o diretor David Lynch: Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), que no dia 12 de setembro vai comemorar os 40 anos da sua estreia.
Veludo Azul valeu a Lynch (1946-2025) indicações ao Oscar de melhor direção e ao Globo de Ouro de melhor roteiro. Foi seu quarto longa-metragem, sucedendo o clássico cult Eraserhead (1977), o drama O Homem Elefante (1980), que concorreu ao Oscar em oito categorias, incluindo melhor filme e direção, e a ficção científica Duna (1984). Essa malfadada adaptação do romance escrito por Frank Herbert foi, nas palavras do próprio cineasta, seu único arrependimento na carreira. Mas sem Duna não haveria Veludo Azul.

Lynch enfrentou inúmeros percalços nas filmagens da ópera espacial e também precisou ceder às vontades do estúdio Universal, reduzindo pela metade seu primeiro corte: as mais de quatro horas tornaram-se duas horas e 17 minutos. Duna foi um retumbante fracasso comercial: custou cerca de US$ 40 milhões e arrecadou somente US$ 31,5 milhões. Assim, o lendário produtor Dino de Laurentiis (1919-2010) desistiu da ideia de dar sequência à saga, mas manteve sua confiança no diretor.
Os dois fecharam um acordo que garantia ao cineasta total liberdade artística e o direito à montagem final, desde que a duração não ultrapassasse duas horas. Em contrapartida, Lynch aceitou um salário reduzido e um orçamento minguado: US$ 6 milhões (dessa vez, não ficou devendo nas bilheterias: Veludo Azul faturou US$ 8,7 milhões). Mais tarde, o diretor declarou:
— Depois de Duna, eu estava tão no fundo do poço que qualquer caminho era para cima! Então, (fazer Veludo Azul) foi pura euforia. E, quando você trabalha com esse tipo de sentimento, pode correr riscos. Pode experimentar.
Com autonomia criativa, David Lynch resgatou o surrealismo sombrio de Eraserhead e consolidou sua assinatura no cinema autoral. O diretor perturba ao revelar a insuspeitada proximidade entre a inocência e a perversão, entre a ingenuidade e a maldade, entre a pureza e a corrupção. Pode-se dizer, portanto, que sem Veludo Azul não teríamos a série Twin Peaks, lançada em 1990, e filmes como Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (1992), Estrada Perdida (1997) e Cidade dos Sonhos (2001).
A história do filme se passa em Lumberton, uma pequena e pacata cidade da Carolina do Norte. O cotidiano inocente das crianças que vão à escola e do homem que rega seu jardim vai ser rompido por alguns acontecimentos estranhos e por um achado macabro: uma orelha humana decepada e já semidevorada por formigas.

Quem encontra a orelha em um terreno baldio é o protagonista de Veludo Azul, o estudante universitário Jeffrey Beaumont, interpretado por Kyle MacLachlan. Seduzido pelo enigma, ele decide investigar seu inusitado achado, abrindo uma porta para o escuro porão da comunidade de Lumberton.
Ao mergulhar nesse submundo, o jovem acaba se envolvendo com uma bela mas decadente cantora de cabaré, Dorothy Vallens (papel que firmou Isabella Rossellini como ícone de sensualidade e mistério) — com quem o bom moço sente um prazer mórbido que jamais alcançaria ao lado da namorada, a comportada Sandy Williams (encarnada por Laura Dern), filha de um policial.

Jeffrey também vai deparar com uma galeria de personagens bizarros, como um traficante de drogas explosivo e sádico, Frank Booth (vivido por Dennis Hopper, em atuação marcante), que usa constantemente uma máscara inaladora. Contribui para o clima opressivo do filme a ambientação noturna, a cenografia em estilo anos 1950 e a música sinistra composta por Angelo Badalamenti (1937-2022), na sua primeira parceria com David Lynch.
No livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, a crítica Angela Errigo afirmou que "a cena na qual Jeffrey, escondido no armário de Dorothy, testemunha Frank estuprar a vítima vestida em um roupão de veludo azul é a principal causa de discussões em torno deste filme, mas também é um exemplo clássico e notável da audácia de Lynch".
À época da estreia nos cinemas de Porto Alegre, em junho de 1987, o jornalista Júlio Mariani (1941-2020) escreveu em Zero Hora que Veludo Azul "mostra que as chamadas pessoas normais não podem resistir à tentação de dar uma espiada no que está acontecendo do outro lado da vida, no mundo dos comportamentos enlouquecidos, perversos, sádicos e aterrorizantes. O medo que o filme provoca é inquietante porque é o medo do que está dentro de nós, e não fora".
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