
Um filme que se passa em um dos invernos mais frios da Antártida, mas que foi feito no Rio de Janeiro, sob um calor de 30ºC na cidade. Este é Antártida (2026), uma tentativa de suspense estrelada por Andrea Beltrão, Lázaro Ramos, Marina Ruy Barbosa e Leandra Leal que abriu nesta sexta-feira (14) o 54º Festival de Cinema de Gramado.
A programação da abertura oficial começou por volta das 15h, na Rua Coberta, com o concerto da Orquestra Sinfônica de Gramado, que teve participação de três cantores. Neste ano, achei o repertório bem equivocado.
Gramado é um festival de filmes brasileiros, mas nenhuma das músicas cantadas foi em português. Teve The Best, um sucesso de Tina Turner, teve Dancing Queen, do Abba, teve I Will Survive, de Gloria Gaynor...

Outro ponto negativo: as músicas executadas até embalaram cenas clássicas de filmes, como Bohemian Rhapsody, do Queen, mas não foram feitas para o cinema. Se a ideia era fazer um concerto pop, por que não fazer uma seleção com base na lista de canções originais que ganharam o Oscar?
Por fim, acho que a própria orquestra acabou ficando em segundo plano. A apresentação valorizou mais os cantores, o guitarrista e um trio de dançarinos. Havia até um DJ.
Qual é a trama do filme "Antártida"?
Antártida é escrito por Cláudia Jouvin, roteirista de Morto Não Fala (2018) e da minissérie Dias Perfeitos (2025), e dirigido por Bruno Safadi, das séries Aruanas (2019-2021) e Jogada de Risco (2026). Grande parte da equipe passou pelo Tapete Vermelho, onde Marina Ruy Barbosa causou frisson, por causa do vestido e do salto, e deixou a marca de suas mãos na Calçada da Fama. Andrea Beltrão, que faz o papel principal, não pôde vir, porque sofreu uma cirurgia no pé recentemente, então a atriz mandou um vídeo que foi exibido na tela do Palácio dos Festivais.
Com estreia nos cinemas marcada para o dia 17 de setembro, Antártida teve sessão hors-concours em Gramado, ou seja, não disputa os Kikitos que vão ser entregues na noite de 22 de agosto. A competição começa de fato neste sábado (15), com a ficção Feito Pipa (CE), de Allan Deberton, e o documentário O Projeto (SP), de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic.

Em Antártida, Marina Ruy Barbosa interpreta Inês, uma jovem cientista que se junta a militares da Marinha na fictícia Estação Comandante Diniz, onde vão ficar isolados por um bom tempo. Quando pisa na Antártida, a personagem diz uma frase que soa como uma autoironia da produção: "De perto, nem parece de verdade".
Pois a Antártida do filme é mesmo de mentira. Como filmar no continente do Extremo Sul seria inviável, tanto pelo custo financeiro quanto pelas condições climáticas, a Globo Filmes construiu um estúdio de produção virtual, com 1,5 mil metros quadrados, onde foi empregada a tecnologia chamada de Unreal. A combinação da computação gráfica com imagens reais captadas na Patagônia e recursos tradicionais do cinema permitiu simular a paisagem gelada, incluindo suas nevascas e sua ventania. Tudo é bastante crível.

Se do ponto de vista técnico Antártida merece aplausos, o filme fica devendo na sua mistura de suspense policial com drama sobre a violência contra a mulher.
Na trama, Inês, que se formou em Glaciologia nos Estados Unidos, quer demonstrar sua inteligência e sua competência, só que logo na primeira noite toma um porre homérico que pareceu incongruente. Ela dança com um, dança com outro e flerta descaradamente com um terceiro. Apesar de ser um salto abrupto no desenho da personagem, dá para entender a intenção do roteiro: reforçar que nenhuma conduta, roupa, atitude, uso de álcool ou circunstância justifica a violência sexual contra uma mulher. E é isso o que o acontece com Inês, vítima de estupro do lado de fora da base.

Como estava inconsciente, Inês não sabe quem a atacou. Então, todos os homens se tornam suspeitos na investigação conduzida pela subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão). E não importa se a patente é alta: pode ter sido o comandante Barros (papel de Antonio Calloni) ou o capitão Vicente (Lázaro Ramos) que se enfurnou na base porque quer convencer a ex-esposa, Marina (Leandra Leal), a voltar para ele. Nem que seja na base da intimidação física e do gaslighting.
A dinâmica dessa dupla é verossímil, mas em outros momentos falta naturalidade a Antártida quando vai falar sobre a opressão cotidiana sofrida pelas mulheres. Os diálogos são didáticos demais, e quando resolve dar um descanso para a palavra, o filme investe em imagens que são clichês, como a das mãos dadas para representar a solidariedade feminina.

A investigação, por sua vez, demora a engrenar e tem conveniências difíceis de engolir. Por exemplo, por que só bem mais tarde Elisabeth se dá conta de pedir para ver as imagens das câmeras de segurança? Essa é uma ação básica, né?
O pior é que Antártida quer vender a ideia de que todos os homens são suspeitos, e de fato qualquer homem pode ser um estuprador, mas basta um pouquinho de noção para o espectador descartar rapidamente muitas hipóteses. Não vou dar spoilers, mas logo no início do filme já sabemos que o culpado não vai ser o fulano, nem o beltrano e nem o sicrano. E depois que a imagem da câmera de segurança faz uma revelação, Antártida continua subestimando a capacidade de observação e dedução do público.
Ao final da sessão, Antártida fez jus ao seu cenário e levou um gelo. As palmas foram protocolares, e só não foram curtíssimas porque havia um batalhão do filme acomodado nas poltronas do Palácio dos Festivais. Ou seja, teve gente que aplaudiu por mera educação. Mas os oito colegas de crítica com quem eu falei ou escutei malharam até mais do que eu.
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