
Sem o alarde merecido, a Netflix adicionou ao seu catálogo um dos quatro filmaços sobre extraterrestres que Steven Spielberg dirigiu: Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005). Foi uma de suas duas parcerias com o ator Tom Cruise e a mais lucrativa: rendeu US$ 603 milhões nas bilheterias, contra os US$ 358 milhões de Minority Report: A Nova Lei (2002).
Embora também dê protagonismo a uma criança — a personagem da atriz Dakota Fanning, que tinha 11 anos —, a história não é bonitinha com a de E.T. (1982). Nem a chegada — ou a descoberta — dos alienígenas é encarada como oportunidade de uma experiência grandiosa de conexão e de desenvolvimento da humanidade, como o diretor mostrou em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e em Dia D (2026). Em Guerra dos Mundos, os extraterrestres são simplesmente uma terrível ameaça ao planeta.
Quando o diretor Roland Emmerich lançou Independence Day, em 1996, os Estados Unidos se consideravam imbatíveis. Para derrotar o ataque vindo do espaço, bastaram quatro homens que personificavam quatro marcas do país: a força do indivíduo sobre o coletivo (o próprio presidente estadunidense, papel de Bill Pullman), o poderio militar (o piloto interpretado por Will Smith), o desenvolvimento tecnológico (o gênio da informática encarnado por Jeff Goldblum) e a crença na segunda chance (o caminhoneiro alcoólatra vivido por Randy Quaid).
Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os EUA passaram a viver a cultura do medo. Desaparece o herói e volta-se a apelar aos céus, como fazia o protagonista de Sinais (2002), de M. Night Shyamalan, diante dos E.Ts. Foi à luz desse temível mundo novo que Spielberg retomou em Guerra dos Mundos o clássico escrito em 1898 por H.G. Wells que descreve uma invasão marciana e atualizou a alegoria dos alienígenas aos olhos dos estadunidenses: se na época da Guerra Fria podiam simbolizar o comunismo, no começo do século 21 podiam representar o terrorismo.
Decalcada das páginas iniciais do livro, a narração do ator Morgan Freeman abre o filme contando como os humanos se sentiam soberanos na Terra — assim como os estadunidenses antes que membros da Al-Qaeda sequestrassem aqueles aviões. Também como na obra original, o ataque é visto sob a perspectiva de um sujeito comum: o estivador Ray Ferrier (papel de Tom Cruise), um pai divorciado.
O começo do filme retrata a complicada relação dele com os filhos que chegam para o fim de semana: o adolescente Robbie (Justin Chatwin) e a pequena Rachel (Dakota Fanning). É como se o que viesse pela frente fosse uma comédia dramática sobre a crise da família. O riso perdura mesmo quando ocorre uma estranha tormenta elétrica.

Depois da tempestade, vem mais tempestade: gigantescas máquinas de destruição irrompem do solo, pessoas são desintegradas por raios, o pânico domina a multidão. Atônitos e cobertos pela poeira, como os sobreviventes do World Trade Center, os moradores fogem, abandonando suas casas decoradas com bandeirinhas dos EUA à porta. Mais adiante, cartazes de desaparecidos vão aludir às vítimas do 11 de Setembro, e um personagem vai encarnar a paranoia da insegurança. A filha pequena de Ray pergunta com todas as letras:
— São os terroristas?
Robbie é pessimista quanto à visão que os outros países têm dos EUA:
— Eles vêm da Europa?
Esse talvez seja o último momento de descontração. A partir daí, o cineasta exibe toda sua maestria para gerar cenas que impactam, angustiam e apavoram. Esse objetivo tem como aliados o uso sensacional dos efeitos visuais e a ausência da figura heroica: Ray está tão assustado quanto seus filhos. Ao desprezar o habitual foco do gênero em soldados, Guerra dos Mundos também tornou o desespero dos personagens mais palpável. Mas não custa lembrar que este é um filme de Steven Spielberg, portanto, este é um filme esperançoso.
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