
O Festival de Cinema de Gramado não vive só de noite, turno dedicado à competição dos filmes brasileiros de ficção, dos documentários e dos curtas-metragens nacionais e das homenagens, como a entrega do Kikito de Cristal para o ator Selton Mello.
De manhã, ocorrem debates no hotel Serrazul, que neste ano voltou a ser o QG do evento. De tarde, o Palácio dos Festivais exibe produções gaúchas — primeiro foram os curtas, na mostra que consagrou Grão, de Gianluca Cozza e Leonardo Rosa, e desde segunda-feira (17) são os longas-metragens, em disputa que conhecerá seus vencedores nesta sexta-feira (21).
Cinco títulos brigam pelos Kikitos. Dois dos concorrentes são ficções: A História Mais Triste do Mundo, adaptação de Hique Montanari para o premiado livro infantojuvenil do psicanalista Mário Corso, e Remanente: Voltagem, terror rodado em Novo Hamburgo pelo paulista Kapel Furman. Os outros três são os documentários Morro da Cruz: Memória Popular, de Crystom Afronário, Filhas da Lua, de Tatiana Sager, sobre quatro mulheres trans que saíram da prisão, e Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido, de Luciane Fagundes.
Este último foi o filme exibido na tarde de quarta-feira (19) no Palácio dos Festivais. O documentário deve estrear em breve em um cinema de Porto Alegre. Antes, terá sessões especiais em cidades como Dom Pedrito, Pelotas e Uruguaiana.

O título já sugere que não se trata de um panegírico e indica a existência de algum ruído na relação da jornalista Luciane Fagundes, 63 anos, com seu pai, Darcy Fagundes (1924-1984), um pioneiro do rádio gaúcho e do próprio tradicionalismo, irmão mais velho de Nico Fagundes (1934-2015) e Bagre Fagundes (1939-2026) e tio de Neto Fagundes. Mas as primeiras declarações da diretora do documentário surpreendem:
— A minha relação com o pai foi marcada pelo desencontro. Nunca gostei de ouvir que eu era filha do Darcy Fagundes. Não conseguia me interessar em acompanhar, gostar. Amar. Acho que a única pessoa que não tinha uma relação boa com ele era eu.
Para realizar Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido, a jornalista Luciane, na companhia dos diretores de fotografia Ivo Czamanski (1942-2023) e Eduardo Izquierdo, gravou mais de 20 entrevistas com familiares, artistas e pesquisadores do rádio e da cultura do Estado. A montagem de Rogério Brasil Ferrari intercala esses depoimentos com um farto material de arquivo: depoimentos de Darcy, fotos, vídeos caseiros, cenas dos filmes estrelados pelo artista biografado, imagens do programa apresentado por ele na TVE, no começo dos anos 1980, trechos dos seus discos de poemas declamados, como Tropa Amarga (1968) e Rinha de Galo (1982). O guitarrista Marcelo Fornasier assina a trilha sonora, e o artista visual Eloar Guazzelli criou as ilustrações dos créditos de abertura. A produção executiva é de Antonio Czamanski, filho de Ivo.
Nascido em Uruguaiana e primogênito de 11 irmãos, Darcy Fagundes mudou-se para Porto Alegre aos 15 anos, para estudar no Colégio IPA. Ele foi o primeiro nome célebre da família Fagundes, mas fez fama onde o seu pai não queria. O desejo de seu Euclides era de que todos os filhos homens se formassem como advogados. Darcy foi o único da prole que não concluiu a faculdade de Direito.
— Pai, me perdoa que eu seja artista — diz Darcy em uma entrevista resgatada pela produção do documentário. — Mas aquela outra palavra eu cumpri: a de ser gaúcho.
Segundo os depoimentos, o gauchismo de Darcy era sui generis. No homem da Fronteira que veio para a Capital, coexistiam o apego pelas tradições campeiras e uma sensibilidade artística.
Darcy foi ator, poeta, declamador, apresentador de rádio e de TV. Na companhia de colegas como Paixão Côrtes (1927-2018) e Luiz Menezes (1922-2005), ajudou a revelar nomes de peso da música gauchesca, como Teixeirinha (1927-2005), Gildo de Freitas (1919-1982), Os Serranos, Os Irmãos Bertussi e Os Mirins. Comandou um programa de auditório da Rádio Farroupilha, o Grande Rodeio Coringa (1955-1970), que era um sucesso absoluto de audiência — no Pampa, havia gente que se deslocava a cavalo por seis, sete quilômetros para encontrar um aparelho de rádio e ouvir os números musicais e as competições de trovas e declamações.

No cinema, Darcy Fagundes atuou em cerca de 10 longas-metragens. Participou de obras importantes como Pára, Pedro! (1970), de Pereira Dias, o primeiro feito a cores no RS, e O Negrinho do Pastoreio (1973), de Nico Fagundes, quando pôde contracenar com Grande Otelo (1915-1993), que para ele foi o maior ator do Brasil. Fez cinco filmes com Teixeirinha, como Gaúcho de Passo Fundo (1978). Seu trabalho preferido foi A Morte Não Marca Tempo (1973), de Pereira Dias, no qual encarna um padre.
Ao refazer a trajetória de Darcy Fagundes, o documentário alterna-se entre sua carreira profissional e sua vida pessoal. Não raro, elas se misturavam.
— Eu lembro do meu pai indo viajar ou voltando de viagem — conta Luciane.
A ausência na criação das três filhas — Luciane e suas irmãs mais novas, Mocita Fagundes e a já falecida Ana Cristina Lisboa Fagundes — acentuou-se a partir de 1971, quando morreu a esposa, Therezinha. Aí, ele se afundou no alcoolismo e em outros vícios que havia aprendido com o Tio Cantílio.
— O que o Darcy mais gostava era de tomar conhaque e jogar carta — diz o mano Bagre Fagundes.
Luciane conta que chegava a buscar o pai em bares e nos cassinos clandestinos. Na adolescência, as três irmãs se tornaram mais rebeldes, alimentadas por um caldeirão que cozinhava o movimento hippie, o rock, o espírito libertário do cinema dos EUA dos anos 1970 e a resistência à ditadura militar. A filha mais velha queria se distanciar de um universo que considerava careta e machista. O pai, em uma entrevista de arquivo, contemporizava:
— Passo trabalho com minhas filhas, como de resto devem passar todos os pais de adolescentes.
Darcy, que já tinha um filho, Aldo Justo, do seu primeiro casamento, com Gilka Acker (1924-1955), casou-se de novo e teve mais um filho, Nelson Jurandi. Sua viúva, Liliana Maria Rosa Fagundes, comenta no documentário sobre a personalidade complexa do marido e seu lado desabonador:
— Ele era uma noite muito escura, mas cheia de estrelas.
Darcy morreu aos 59 anos, em 22 de junho de 1984, vítima de câncer. Luciane Fagundes termina o filme enxergando o pai como o artista que ela renegava. Rende uma homenagem ao fechar o documentário com a dupla regionalista De Lima e Leninha interpretando a canção Vaqueano do Rádio, o apelido do biografado. E brinda o público dando voz para Darcy declamar um de seus poemas mais clássicos, Rancho Pequeno, que é carregado de nostalgia e melancolia: "Teu rancho é tão pequeno que nem tem lugar pra dois / E eu sinto ciúme do silêncio grande que mora contigo / Ah, se eu pudesse esquecer o teu viver contente / Ah, se eu pudesse esquecer que foste gente".
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