
Pela primeira vez na história, dois artistas vão ser premiados com o Kikito de Cristal no Festival de Gramado. Na noite desta quarta-feira (19), Selton Mello passou pelo Tapete Vermelho e subiu ao palco do Palácio dos Festivais para receber o troféudas mãos de Rosa Helena Volk, presidente da Gramadotur, autarquia responsável pelo evento. Na quinta (20), será a vez de Maria Fernanda Cândido.
No palco, Selton fez um discurso de agradecimento:
— Muito obrigado. Eu anotei algumas coisas. Primeiro, eu comecei a vir a Gramado em 1994, 1995. Ainda fazia só novelas. A vida andou, encontrei a minha turma, que é a do cinema, onde gosto de me expressar. Este é o primeiro prêmio que recebo sem os meus pais estarem aqui (a mãe morreu há dois anos, e o pai, há pouco mais de um mês). Eles sempre estiveram perto. Agora estão dentro. Então, é mais poderoso.
Selton também fez uma revelação:
— A última vez que eu estive em Gramado foi em 2011, com O Palhaço, que é meu filme mais pessoal, mas na época eu não contei isso, para não dar trela para a imprensa. Ali é o Selton dizendo algo muito íntimo.
Antes, em um vídeo festivo do Canal Brasil exibido no telão, Selton cunhou uma definição do ato de fazer cinema:
— Filmar é uma forma de guardar memórias.
O Kikito de Cristal foi instituído em 2007 para prestigiar expoentes do cinema latino-americano. Entre os premiados, estão os atores argentinos Leonardo Sbaraglia, Cecilia Roth e Soledad Villamil, o uruguaio César Troncoso e a chilena Paulina Garcia.
Outros brasileiros também já foram agraciados, como a atriz Alice Braga, o ator Rodrigo Santoro e o documentarista Eduardo Coutinho (1933-2014).
O mineiro Selton, 53 anos, e a paranaense Maria Fernanda, 52, simbolizam o excelente momento do cinema brasileiro no Exterior.
Ele interpretou Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui (2024), drama do diretor Walter Salles sobre a ditadura militar que venceu o Oscar internacional e concorreu aos prêmios de melhor filme e atriz (Fernanda Torres, laureada no Globo de Ouro), além de ter recebido o troféu de roteiro no Festival de Veneza.

Ela encarnou Elza em O Agente Secreto (2025), thriller político de Kleber Mendonça Filho que conquistou os prêmios de melhor direção e melhor ator (Wagner Moura) no Festival de Cannes e os Globos de Ouro de longa em língua estrangeira e ator em drama, além de ter disputado o Oscar em quatro categorias: melhor filme, ator, elenco e longa internacional.
Em Gramado, Maria Fernanda já havia recebido um Kikito, o de melhor atriz por Dom, em 2003. Selton exibiu no Palácio dos Festivais, fora de competição, O Palhaço (2011), seu segundo longa-metragem como diretor, depois de Feliz Natal (2008) e antes de O Filme da Minha Vida (2017). Naquela ocasião, ele ganhou uma homenagem especial.

Premiado como melhor ator nos festivais de Havana e de Brasília por Lavoura Arcaica (2001), Selton coleciona conquistas no Grande Otelo, da Academia Brasileira de Cinema. Tem quatro vitórias como melhor ator: por Lisbela e o Prisioneiro, em 2004, por Meu Nome Não É Johnny, em 2009, por O Palhaço, em 2012, e por Ainda Não Estou Aqui, em 2025. O Palhaço também valeu a ele os troféus de direção, roteiro e montagem.
Famoso na pele do personagem Chicó de O Auto da Compadecida, ator de novelas como Pedra Sobre Pedra, Tropicaliente e A Indomada e protagonista da série Sessão de Terapia, Selton vem se aventurando em produções estrangeiras depois do sucesso de Ainda Estou Aqui. Trabalhou em Hollywood, com um papel em Anaconda (2025), e está no elenco e na produção executiva de La Perra (2026), filme da diretora chilena Dominga Sotomayor que terá sessão hors-concours no Festival de Gramado nesta sexta-feira (21).

Uma particularidade do Kikito de Cristal é que os próprios artistas participam da fabricação de cada troféu. Não do seu próprio, mas o do próximo.
Nesta quarta-feira, Selton Mello recebeu o prêmio que foi confeccionado no ano passado por Rodrigo Santoro. Na tarde desta quinta, na Cristais Gramado, é Selton quem vai aprender a técnica milenar do cristal Murano, que surgiu na Itália e envolve a fusão da massa vítrea em altas temperaturas, a moldagem manual pelo mestre vidreiro e a inserção de detalhes. O ator e diretor vai acompanhar o momento em que se molda a cabeça do Kikito no cristal retirado de um forno na casa dos 1.200ºC. O troféu chegará às mãos de Maria Fernanda Cândido, que na sexta-feira vai repetir o processo, mirando o homenageado ou a homenageada de 2027.
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